Resenha - Mellon Collie and the Infinite Sadness - Smashing Pumpkins

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Resenha - Mellon Collie and the Infinite Sadness - Smashing Pumpkins

Por Fabrício Boppré

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Nota: 10

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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"Mellon Collie and the Infinite Sadness", o terceiro álbum do Smashing Pumpkins, começa com uma canção triste e melancólica, levada a cabo por um piano solene. Uma introdução encantadora, que logo em suas primeiras notas prende a atenção do ouvinte e o faz ingressar em um mundo fantasioso pincelado em tons verde escuro e todo permeado pela figura solitária que ilustra a capa do álbum. Um mundo onde os desenhos do encarte (que parecem ter saído de livros infantis) são reais e sentimentos díspares entre si são ligados por canções envolventes, delicadas, e até furiosas. "Mellon Collie and the Infinite Sadness", nesse sentido, é mais do que um álbum de rock alternativo: é uma obra-prima variada e única, concebida meticulosamente pelo líder absoluto do conjunto, Billy Corgan. Não apenas um amontoado de músicas dispostas em qualquer ordem, mas sim um conjunto de pérolas que versam sobre sentimentos, aflições, desejos e outras intimidades raramente expostas com tamanha sinceridade e poesia... com uma harmonia mágica ligando o sonho e a realidade, a alegria e a tristeza, a esperança e a melancolia.

É muito difícil analisar as canções propriamente ditas sem levar em conta esse sentido abstrato que se desenvolve à medida que as músicas são executadas. Mesmo assim, apenas musicalmente falando, os adjetivos usados para descrever "Mellon Collie and the Infinite Sadness" são os mais variados possíveis, uma vez que ao longo das 28 faixas contidas nos dois discos ("Dawn to Dusk" representa o dia, "Twilight to Starlight", a noite), a banda se aventura com desenvoltura pelos mais variados estilos e nos mostra suas ecléticas influências. Passagens orquestradas, riffs beirando o metal, influências eletrônicas, momentos introspectivos, harcore adolescente, instrumentos exóticos, algumas doses de psicodelia e até canções de ninar são alguns dos ingredientes que Billy Corgan usa para emocionar quem ouve sua música. Algumas poucas faixas têm impacto imediato, mas a grande maioria têm que ser compreendida aos poucos, principalmente aquelas que possuem harmonias insólitas ou elementos eletrônicos (recurso que a banda soube usar com parcimônia, como na primorosa "Love"). É de se esperar que todo essa variação de estilos e influências inicialmente pareça muito indigesta e demasiadamente presunçosa. O próprio Billy Corgan sabia que estava correndo o sério risco de ser taxado como um dos músicos mais pretenciosos da história do rock ao gravar um trabalho tão diverso e de longa duração, ainda mais em uma época em que o disco duplo é um formato praticamente abandonado pela indústria fonográfica. Mas é um álbum que merece várias audições, até que se comece a entender sua unidade e valor como obra artística. E como toda obra artística, uma análise puramente técnica se torna superficial e injusta.

Liricamente, encontramos novamente muito talento. Billy Corgan se dedica desde o primeiro disco do Smashing Pumpkins a escrever músicas que falam, de acordo com o ele próprio, "about life": a infância/adolescência que passou e não volta mais (na nostálgica "1979"), indagações quanto à razão de ser e existir (na excepcional "Muzzle") e amor ingênuo e puro ("Lily" e "Beatiful"). E nas baladas, Corgan é de uma sensibilidade rara: além das já citadas "Lily" e "Beatiful", temos "By Starlight", "Thirty-Three", "To Forgive", "Galapogos", "In the Arms of Sleep" e "Stumbleine", canções com letras doces entrelaçadas em acordes cativantes. Destaque para a última, um pequeno show protagonizado por voz e violão: simplicidade e beleza caminhando lado a lado, de mãos dadas.

Mas não são apenas as canções intimistas que emocionam: aquelas que transpiram raiva e são vociferadas rasgadamente também se destacam, como "Tales of a Scorched Earth", "An Ode to No One" e "Bullet with Butterfly Wings". Temos ainda angústia e desespero na forma de riffs distorcidos, como nas não menos pesadas "X.Y.U.", "Here is no Why" e "Jellybelly", bem como melodias portentosas e muito feeling em "Where Boys Fear to Tread", "Porcelina of the Vast Oceans" e "Thru the Eyes of Ruby". Todas essas são marcadas pelas guitarras pesadas e contundentes (ponto para James Iha e para o próprio Billy Corgan), que explodem nos tímpanos do ouvinte na mesma intensidade que os dedilhados de violão das canções lentas tocam o coração. Experimentalismo e psicodelia também tem espaço: em "Cupid the Locke" e "We Only come Out at Night", o Pumpkins brinca com sonoridades inusitadas, e acerta em cheio ao criar canções cativantes e ousadas. Por fim, podemos destacar a pesadíssima "Bodies" (instrumental devastador, criando um clima denso e nervoso), a delicada "Take Me Down" (escrita e cantada por James Iha) e a inesquecível "Tonight, Tonight", que possui uma orquestra fazendo base para Billy Corgan cantar versos de esperança. "We'll make things right, we'll feel it all tonight / The indescribable moments of your life tonight / The impossible is possible tonight / Believe in me and I believe in you, tonight", promete ele.

Muitos críticos acabaram efetivamente acusando o Smashing Pumpkins de pretencioso demais, ao mesmo tempo que diziam que Billy Corgan não sabia o que queria, atirando então para todos os lados. Mas não há como negar que há sim muita inspiração, talento e criatividade ao longo das quase duas horas de música que ouvimos nesse álbum. Corgan, ao lado de uma banda tecnicamente competente e que soube acompanhar em perfeita sintonia o lirismo de seu líder, gravou um trabalho com um objetivo inegavelmente ambicioso nos dias de hoje, que é ir além da "música para ouvir". Sua obsessão o levou a dizer que esse disco encerraria o Smashing Pumpkins como todos os conheciam, e que a missão da banda estaria cumprida. É sem dúvida alguma uma obra emblemática e difícil, e que talvez só seja compreendida e admirada em toda sua profundidade se o ouvinte partilhar das dúvidas existenciais que Billy Corgan deixa transparecer em versos como "And nobody nowhere understand anything / About me / And all my dreams / Lost at sea". Mas mesmo que não haja tal identificação entre o ouvinte e a atmosfera criada, "Mellon Collie and the Infinite Sadness" se revela aos poucos um trabalho, no mínimo, sincero e intenso. Pode não ser um marco na história da música (apesar do título de "disco duplo mais vendido de todos os tempos" ser bem significativo), mas é tocante e apaixonante, o que por si só já o faz especial. Pretencioso ou não, é uma ode à vida, uma ode ao viver com o coração, afinal, "Destroy the mind / Destroy the body / But you cannot destroy the heart".

Assim como o começo, o final de "Mellon Collie and the Infinite Sadness" é não menos peculiar e emotivo. Os quatro integrantes da banda cantam juntos uma singela despedida para todos aqueles que embarcaram com o coração aberto nessa viagem musical, desejando-os "Goodnight, to every little hour that you sleep tite / May it hold you through the winter of a long night / And keep you from the loneliness of yourself". E, em um enigmático paralelo com a primeira faixa, um piano cadenciado se torna solo ao fim da canção... ressonando novas notas tristes e melancólicas.

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