Resenha - Ashes Are Burning - Renaissance

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Resenha - Ashes Are Burning - Renaissance


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Um dos marcos da música progressiva dos anos 70 foi o disco de uma banda que, até então, gozava de certo prestígio apenas pela pequena parcela do público que a conhecia. Retrato de sua época, o grupo inglês produziu uma jóia que alcançaria as paradas de sucesso de todo o mundo, inclusive o Brasil, fazendo com que seus discos anteriores fossem “descobertos” pelos fãs e garantindo uma legião de admiradores fiéis através dos anos.

“Ashes Are Burning”, o quarto trabalho do Renaissance (segundo de sua formação clássica), apesar de progressivo, segue a vertente conhecida como classic(al) rock; é um disco suave, sem grandes temas instrumentais desenvolvidos até a exaustão, como seus contemporâneos. Com as participações especiais de Michael Dunford no violão (que viria a ser incorporado ao grupo no álbum seguinte, “A Song For All Seasons”) e Andy Powell, do Wishbone Ash, tocando guitarra na faixa-título, seus integrantes John Tout (teclados e vocais), John Camp (baixo e vocais), Terence Sullivan (bateria, percussão e vocais) e Annie Haslam (vocal principal) gravaram 40’44’’ de música, divididas em 6 faixas (três de cada lado) de rara beleza, todas compostas pela dupla Michael Dunford/Betty Thatcher, com arranjos criados para valorizar a voz de soprano de Annie, que rivalizava com Maddy Prior (Steeleye Span) e Sandy Denny (Fairport Convention), pelo título de melhor cantora inglesa dos anos 70.

Sua capa, que trazia uma foto muito granulada dos quatro componentes (Haslam e Tout na frente, Camp e Sullivan no verso), foi lançada em duas versões para o mercado americano e europeu: numa, Annie Haslam está sorrindo, enquanto na outra seu rosto está sério e pensativo. As roupas também são diferentes, mas a disposição dos componentes, tratamento da foto e o cenário são idênticos.

A primeira faixa, “Can You Understand?”, de 9’51’’, abre o disco com o toque de um gongo chinês, acompanhado do piano de Tout e do baixo Rickenbacker de Camp. Com a bateria, cria-se o clima que vai render uma excelente peça, onde você já tem uma demonstração da excelência dos vocais de Annie Haslam, que a interpreta sem o menor esforço. Com uma letra que incita a expansão da mente, tema muito apreciado pela banda, “Can You Understand?” conta com a participação de uma orquestra completa. Uma curiosidade: a parte instrumental central da música, embora não creditada, é “Tonya Comes To Varykino”, música de Maurice Jarre para a trilha sonora do filme “Dr. Jivago”, inclusive com um arranjo muito parecido, onde os guizos do trenó foram mantidos. O mesmo piano, secundado pela voz de Annie, que alcança registros inacreditáveis, inicia o maior sucesso da carreira do grupo, a romântica “Let It Grow”. Sem guitarras com pedais de efeitos nem registros mirabolantes, “Let It Grow” traz apenas piano, baixo e bateria e vocais num hino ao amor. O lado A fechava com os 4’54” de “On The Frontier”, onde Annie Haslam divide os vocais principais com John Tout e há um belo dueto piano/baixo.

“Carpet Of The Sun”, com uma letra ecológica e holística, inicia o outro lado. Mais outra vez, o destaque é o trabalho primoroso da vocalista, complementado por um arranjo de cordas. Foi o segundo hit deste disco.

A música seguinte, “On The Harbour”, a melhor e mais emocionante letra do disco, com um clima pesado e andamento arrastado, descrevia a angústia das moradoras de uma vila à beira-mar, esperando no porto pela volta de seus maridos, pais ou filhos marinheiros, provavelmente afogados no mar. Os acordes pesados de Tout dão a tônica da música. Depois, o fechamento com a faixa-título de longos 11”24”, que parecem ser menores ao ouvinte que se deixa abraçar pelo clima. O solo final de Andy Powell, que em uma pequena passagem remete a “The King Will Come”, do Wishbone Ash, é uma síntese do disco: sem grandes efeitos, timbres bizarros nem truques de estúdio. Apenas música tocada com sentimento.

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