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Iron Maiden: Aces High, a primeira batalha aérea que salvou a nação

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Por Rodrigo Contrera
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Continuando minha saga de textos sobre músicas do Iron Maiden, a paixão de muitos de nós, escolho agora abordar essa música, abertura de Powerslave (1984), que consolidou a banda para muitos fãs que, ainda relutantes, a ouviam naquela década longínqua: Aces High. A melhor faixa de abertura de um álbum de heavy metal de todos os tempos (não só eu penso assim, é claro).

Capa do single Aces High

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Minha abordagem tentará ser histórica e contextual em relação ao papel dessa música no universo da banda, uma música de divulgação, que estourou nas paradas, virou single e tal, mas que também consolidou um tipo de mensagem que a banda queria divulgar. Talvez a primeira faixa que insiste no fato de a banda ser inglesa. E uma imagem de banda de heavy metal interessada na história e na ação, antes de mais nada.

Apenas uma simples batalha?

Aces High traz a nós o drama da primeira batalha aérea da História. Sim, porque a Batalha Aérea da Inglaterra foi a primeira da história exclusivamente travada entre aviões. Stukas, ME-109s contra Spitfires e outros modelos ingleses. Uma batalha que se travava, mais que pelo domínio dos ares entre a Alemanha e a França (ocupada), pela possibilidade ou não de a Alemanha conseguir invadir a Inglaterra, para efetivamente destruí-la. Uma batalha que durou alguns meses, e que adquiriu, assim como toda a resistência inglesa, uma imagem de heroísmo, dos pilotos, dos militares em geral, de todos os que trabalhavam em prol da nação e da própria população. Um heroísmo que na música está focado exclusivamente nos pilotos.

Londres num bombardeio

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Vemos, em Death or Glory, do The Book of Souls, como a banda trata a figura do Barão Vermelho. Com tintas de talento e de admiração. Pois o piloto abordado tinha um gosto extremo em sair em seus ataques, e em derrubar seus inimigos (ele também seria derrubado, ao final). E aqui vemos o mesmo. Vemos que, além do heroísmo envolvido, exalta-se o heroísmo da vontade de guerrear, de voar, de derrubar. Porque a intenção é bem clara: impedir o avanço do inimigo. Impedir que ele consiga o que quer. E para isso vale o talento, claro, mas antes de mais nada a vontade de voar - alto, sem limites.

Excurso pessoal

Era por volta dos anos 80 (mais especificamente, 1984). Eu morava com meus pais no Sumarezinho. Fazia cursinho e estava prestes a prestar o vestibular (a Fuvest). Via, de vez em quando, na tv da sala, alguns clipes de vídeo de músicas, em geral rock. Lembro-me da figura do Lemmy. Mas, quando surgiu Aces High, foi diferente. Lembro-me até hoje. Acho que a música passou no Fantástico, da Globo, não sei bem. Mas passou num programa de maior alcance. Foi uma das únicas vezes em que isso aconteceu. Eu já era fã do Iron. Tinha o The Number, o Piece of Mind, o Iron Maiden, até o Maiden Japan. Quando surgiu a música na tela, eu fui até a sala, correndo. Não acreditava naquilo. O vídeo me capturou imediatamente. O mesmo vídeo que coloco agora, o vídeo oficial.
Havíamos imigrado do Chile. Sendo que, em 1973, mais especificamente no 11 de setembro, vimos um golpe de Estado. Meu tio passou uma arma nas mãos do meu pai para ele se proteger. Eu ouvia os aviões A-37 (de treinamento mas também bombardeio) indo em direção à casa do presidente Allende, na calle Tomás Moro, e tentava vê-los pela janela da sala, que ocupava quase toda extensão da parede. Mas minha mãe tentava evitar isso, colocando colchões na janela, para que não quebrassem com o estouro das bombas. Eu lembro que, com 6 anos, encarava tudo o que acontecia quase como um jogo, como algo divertido. Mas eu também ficava com medo. Depois, nos anos seguintes, com a ditadura, eu saía correndo de casa sempre que os F-5Es da Fach, recém-adquiridos, quebravam a barreira do som (para meter medo na população).

La Moneda, bombardeada pelos Hawker-Hunter

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Um dia, eu fui sozinho brincar numa das três pracinhas que ficavam perto de nossa casa. Era uma pracinha quase sem árvores, bem num lado de nossa rua. Estava sozinho ali quando de repente ouvi um estrondo de algo que parecia vir em minha direção. Não tive tempo de fazer nada. Olhei para cima e vi claramente os pontos de bomba de um bombardeiro pequeno cujo piloto resolveu fazer uma rasante somente em cima de mim, para me dar medo. Olhei aquilo aos gritos e saí correndo, aparentemente me machucando com umas pedras que havia na praça. Sempre fui um garoto chorão, mas ali eu tinha algum motivo para me assustar de verdade. Essa imagem nunca deixou de correr minha mente. E fez com que eu passasse a ler e colecionar muitos materiais sobre artefatos de guerra (até hoje). Vi tanques por dentro, voei no Aeródromo de Marte num curso que consegui, visitei a Airbus em Hamburgo (onde vi a fabricação do A-380), quase me inscrevi num curso de tiro. A guerra nunca deixou de fazer parte de mim.

A-37

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Eu conhecia pouco a história da Inglaterra, na época. Na verdade, como eu não havia ainda escolhido meu curso para concorrer na Fuvest, eu nem sabia que a história seria importante para mim. Mas meu pai merece um espaço aqui, especificamente por causa do tema de Aces High. Meu pai era descendentes de escoceses, e se considerava como tal, embora fosse formalmente chileno. Seu sobrenome era Campbell e sua cabeça vinha formatada pelo fato de suas origens e pelo universo inglês, de forma geral. Cantava "Mull of Kintyre" quando colocava na vitrola e tal. Mas ele lia. E lia em sua poltrona enquanto bebia uísque barato - Passport. Lia as memórias de Churchill. Pois, enquanto minha mãe lia as história de Agatha Christie, em edição de luxo que ela ainda tem, ele lia sobre aquele líder que salvou a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. O líder cujo discurso é em parte reproduzido no começo de Aces High. Um discurso que ficou para a história por vários motivos, dentre eles o fato de ser uma ação (de consistir numa ação clara), mas também por ser curto, claro e definitivo. Ele só diz que resistirão. Apenas isso, no fundo.

Memórias de Churchill, que meu pai lia

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Por isso, quando vi aquela música na tv, naquele vídeo com muita cor, com imagens de passado, com aviões se digladiando, com uma pegada forte e clara que eu ainda não compreendia direito, eu praticamente pirei. Era a melhor abertura de um LP de heavy metal sendo jogada como um foguete na minha cara, impelindo-me a gostar. Guardei, é claro, como poucas vezes antes todo instante do vídeo em minha psiquê. Ainda hoje me lembro da forma como, no vídeo, os guitarristas e especialmente o baixo azul do Steve Harris aparecem. Decorei os solos e entendi que algo havia ali que iria mudar minha vida. Eu precisava comprar aquele LP de uma vez por todas, e ouvi-lo até ele quebrar. Foi o que fiz. Mas a imagem da batalha aérea permaneceu comigo. Assim como o esforço heróico de defender um país.

O rock na guerra

Mas a batalha aérea da Inglaterra seria apenas um episódio de um dos eventos que mais fortemente poderiam ter mudado a face do mundo. Ela nem sempre foi algo em que eu me fixava, ao olhar o contexto geral, e o sofrimento do povo inglês não me dizia tanto respeito. Mas isso foi mudando com o tempo. Por diversos motivos, mas também por causa do rock. Sim, do rock mesmo. Todos sabem a história do Roger Waters. Pois seu pai foi morto num desses raiders da aviação alemã ou das bombas V-1 sobre Londres. Sendo que Waters não iria deixar isso barato. Muito de sua obra, no Pink Floyd, remete à morte do pai na guerra (inclusive The Wall). E, mais especificamente, o álbum não tão bem conceituado The Final Cut (que já resenhei aqui no Whiplash.net do meu jeito, veja link abaixo), também iria me levar novamente ao universo da guerra em geral, às memórias da Segunda Guerra em particular, e mais especificamente ao envolvimento dos ingleses em outras guerras (nas Malvinas, que acompanhei atentamente).

Pink Floyd: Uma história subjetiva, objetiva e nossa

The Final Cut

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The Fletcher Memorial Home, de The Final Cut

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Por outro lado, um roqueiro bem menos pretensioso (estou me referindo ao Lemmy) também comentou, do seu jeito particular, tudo o que se referia à Segunda Guerra (em especial, focando-se nos armamentos e no jeito de se vestir naquele conflito). Pois foi em minhas incursões roqueiras que cheguei, por exemplo, a Bomber, em que ele trata o tema dos bombardeios de forma bem mais leve, embora agressiva. Porque no fundo, quando você está no chão e as armas vêm lá de cima, o único que você sabe é que vai ser foda.

Bomber

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Bomber

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O Motörhead chega a tratar do assunto até com certo desprezo, como se a curtição fosse mesmo estar na mira dos Stukas, que gritavam em direção ao solo, jogando bombas e disparando balas de vários tipos. Claro que muitos outros também abordaram o tema guerra, mas notemos que, se Waters teve o pai morto, o Lemmy teve sua mentalidade forjada pela guerra e pelo que veio em seguida (tornando-se um grande estudioso informal sobre o assunto, como vemos no documentário que está aqui). Tanto o Pink Floyd quanto o Motörhead iriam se tornar minhas paixões, também.

A batalha, de forma geral

Hoje, em que temos tantos recursos à disposição, podemos confirmar que a batalha aérea que o Iron foca em Aces High foi apenas um momento, e quiçá nem o mais determinante, de toda a Batalha da Inglaterra. Que foi fundamental, foi. Como os vídeos mostram, Hitler tinha vários passos a cumprir para conseguir invadir a ilha britânica. E o primeiro deles era dominar os ares entre o continente e a ilha. Isso, ele não conseguiu. E é especificamente sobre isso que a música trata. Sobre a luta ferrenha para ter o domínio dos ares naquele contexto de guerra (veja muito mais aqui). Como Hitler não conseguiu o que queria, partiu para tentar acabar com a moral dos ingleses, jogando bombas em Londres e cidades vizinhas, em um dos episódios mais dramáticos para toda a população daquela nação. Jogou até aquelas bombas V-1 (que iriam ser acompanhadas por outros tipos), tentando acabar com a resistência inglesa.

Documentário sobre a Batalha Aérea da Inglaterra

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Mas, como também podemos conferir nos vídeos e livros, os ingleses estavam há bastante tempo se preparando para aquele momento. Pouco antes de 1940, os ingleses já haviam recuperado parte da RAF (Royal Air Force), e a moral estava, além de alta, extremamente aguerrida no sentido de se oporem aos bombardeiros e caças que iriam vir às centenas tentando causar o maior dano possível. As exigências para os pilotos, é claro, eram extremas. Eles saíam por horas seguidas rumo às formações inimigas. Mal podiam descansar, e sua missão era clara, evitar o domínio aéreo alemão. Isso, eles conseguiram, e isso fez com que Hitler passasse para outras táticas. Nesse sentido, a resistência aérea inglesa foi fundamental nos rumos da Batalha da Inglaterra como um todo, e também da guerra.

Os personagens

Vocês poderão estranhar: mas que personagens? Pois é, é que vocês não são fissurados em armas de guerra. Aces High, e a história que ela conta, tem os personagens que foram os pilotos que combateram, as pessoas que os ajudaram, a população que suportava as privações e os bombardeios, e que via pessoas morrendo bem na sua frente. E tem também os alemães. Mas tem também os aviões, aeronaves clássicas que na época eram o que havia de mais avançado na frente, e que contam histórias.
Os aviões de que falamos são elegantes, barulhentos, não tão rápidos quanto os atuais, mas também impressionantes. Um excurso pessoal, breve, é que fiz cursos de estratégia na faculdade, e que visitei museus com armamentos desse tipo (vi o P-40 no RJ), além de ter conversado com generais, coronéis e tudo mais. Visitei o Sindacta, a Escola Superior de Guerra, o Ministério das Relações Exteriores e pude até conhecer alguém da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), antigo SNI. Era apenas mais uma forma de me aproximar das paixões de outrora. Mas, voltando aos nossos equipamentos, vi alguns deles, e sei de seu fascìnio para os malucos por guerras e batalhas.

Aeronaves inglesas

Spitfires F Mk-1

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Spitfire voando

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Hawker Hurricane

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Nesse sentido, qualquer um que entra na pegada de Aces High nota a elegância dos Spitfires, a agressividade e poder dos Stukas, o ronco dos seus motores e os gritos de suas entradas no espaço que eles querem dominar. Os Spitfires, como é óbvio, se tornaram o maior destaque da Batalha da Grã-Bretanha. (Tem até um filme que usa um Spitfire, visto do ponto de vista de um garoto, como símbolo de força e liberdade: esse filme é ). Foram Spitfires as aeronaves pilotadas pelos ingleses, e que Eddie deve estar pilotando (embora haja vídeos em que outros tipos de Eddie pilotam outros modelos). Havia também os Hawker Hurricane, precisamos lembrar. Mas os ME-109 é que são citados nominalmente na música.

Aeronaves alemãs

JU-87 Stuka

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Outra foto do Stuka

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Stuka caindo para o ataque

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Me-109

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ME-109 voando baixo

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Heinkel He-111

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Junkers Ju-88

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Havia, também, claro, a necessidade de entrar nos Spitfires e Hurricanes o quanto antes, para não serem bombardeados nas pistas, um detalhe também relevante. Por sua vez, cada um desses modelos era de um determinado jeito. Havia aqueles aviões que tinham problemas nas armas, outros que não, ou seja, cada um cumpria o seu papel meio que assumindo um personagem. E cada um tinha uma persona específica. Até hoje os fanáticos por armamentos têm maior preferência por uma aeronave ou outra em grande parte por causa disso. Porque não eram apenas os pilotos que atiravam, eram os Spitfires, os Messerschmitt, eram os Dornier, etc.

Spitfire x ME-109

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Comparativo entre o Spitfire e aviõies alemães

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Até hoje mantemos a paixão em detalhes que foram vividos no front. Por exemplo, o Spitfire era bastante mais manobrável que o ME-109. Isso, claro, contou muito na frente de batalha. Que se deu onde? Nos ares. Aces High.

Expressões da Batalha

Claro também que o Steve não foi o primeiro sujeito a transferir o drama e a paixão envolvidos na Batalha da Grã-Bretanha para as artes. Primeiro que a RAF tem um hino especialmente dedicados aos ases do ar. Esse hino eu coloco aqui. Segundo, o cinema já retratara antes, em ficção, a batalha. E os filmes tinham trilha sonora, como é óbvio.

Marcha dos Ases das Alturas

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Ponho aqui também a trilha de uma versão de 1969 de um filme chamado propriamente de A Batalha da Grã-Bretanha. Notem que a música do filme original era bastante atraente, e a fita deve ter sido inclusive um grande blockbuster da época, como não.

Trilha da Batalha da Bretanha (filme)

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Talvez tenha até chamado a atenção dos pais e mães de vocês (como a melodia de A Ponte sobre o Rio Kuai fazia a cabeça do meu pai). Mas aqui, conosco, em 1984, em pleno fim da Guerra Fria, a Batalha Aérea da Grã-Bretanha iria pela primeira vez em outra roupagem. Como heavy metal. Numa época em que os punks estavam em recesso e em que o gênero precisava de um novo empuxo.

Mas entremos na música

Aces High com fala extensa de Churchill e imagens de combates aéreos

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O Iron Maiden pega o episódio da resistência aérea inglesa e torna-o um mito, a ser tratado numa música de heavy metal extremamente aguerrida. Mas uma música de alguma forma estranha. É uma música sem similaridade em relação a todas as outras da banda. Com uma introdução que cria um expectativa e uma pegada de baixo no início que corre como quase em nenhuma outra. Mas vamos aos poucos, enquanto vocês ouvem a música e eu me dedico a chamar a atenção a alguns pontos que em geral deixamos escapar (ou que nos fascinam, mas que não tornamos letra, texto).
Quando a gente via o vídeo do Iron na telinha a gente ouvia em primeiro lugar uma voz de um homem. Uma voz não muito clara, em inglês, com umas cenas em branco e preto. Só isso já criava uma grande expectativa em nós. Sentíamos que algo vinha a seguir. Algo que seria forte e determinante. Algo que contaria uma história. Claro, nem poderíamos imaginar que viria um heavy metal. Mas a nossa atenção ficava presa naquilo. Era como em The Number of the Beast, a faixa, em que o apresentador mostrava cenas de filmes antigos e em que tudo terminava como o famoso e crucial "666", dito aos poucos (com aquele lobisomem entrando em um lugar, sem querer ser visto).
Mas aqui, tão logo a mensagem de Churchill terminava (e que um dos vídeos aqui expõe um pouco maior, com outros detalhes). vinha uma série de acordes compassados que pareciam apenas expressar mais um momento de espera. A gente sentia que era um rock, pois eram guitarras, e era bateria e baixo compassados. E era sério, havia drama. Mas ainda parecia ficar de fora o mais importante. A melodia do começo efetivo da música. Tudo era uma espera, uma expectativa. Que se quebrava com um romper de bateria e uma leva de notas em sequência, puxadas pelo baixo, sempre ele, que pareciam nos engolir. Porque o vídeo mostrava uma banda correndo, absorta, todos concentrados, para mostrar serviço. A câmera, claro, corria num trilho, porque pegava as imagens em movimento, e tudo criava ainda mais ação em nós.

Aces High - versão Camp Chaos

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Mas era estranho. A gente entrava naquele drama inadvertidamente. Não sabíamos - não era dito - que guerra era aquela, não parecíamos saber o que acontecia, mas mesmo assim nos identificávamos - um pouco, pelo menos - por aquilo que estava sendo narrado. Era uma guerra, havia um clima dela, as imagens antigas remetiam talvez à Segunda Guerra, mas nada dizia isso. Claro que quem conhecia a história - como meu pai, fixado no Churchill - sabia do que se tratava. E claro que sentíamos em seguida que estávamos, no auge da música, no meio de uma guerra aérea. Mas claro, todo o potencial expressivo da situação não passava para nós, de forma direta. Era um rock, era um heavy metal, era a nova música do Iron Maiden. Era algo que nos cativava e que me fazia parecer não acreditar no que via.
Hoje, claro, em que consigo separar uma coisa da outra, em que o vídeo é apenas mais um vídeo, em que os movimentos do Bruce não pareciam significar tanto - e que eu tentaria imitar, ou que alguém mais tentaria -, hoje tudo isso é águas passadas. Parece que a paixão esmoreceu e conseguimos ver os pequenos erros de edição, a fonte das imagens dos aviões se batendo, e tudo mais. Mas naquela época não era assim. Naquela época, eu era apenas um garoto com uma paixão, que era o Iron Maiden, e com uma fixação que eu tinha que satisfazer de alguma forma. Como faria isso? Lendo sobre a banda, ou seja, procurando revistinhas nas bancas, torcendo para que a música aparecesse nos poucos programas de música da época, etc. Era a minha forma de satisfazer essa paixão que me consumia.
Mas voltemos à música, que é curta, e que passa muito rápido, com cenas dos músicos do Iron entremeadas com cenas de aviões da Segunda Guerra Mundial se batendo. Nessa música, as inferências de informação correm soltas, rapidamente, e nelas mal temos tempo de pensar, enquanto a música avança. Por exemplo, a menção à sirene. Todos nós sabemos como o barulho da sirene expressava um pavor naquele povo, em meio a uma guerra que iriam ajudar a vencer. Nós todos imaginamos como isso deveria ser. Mas não tínhamos - ao menos a maioria de nós - passado por isso.
Ocorre que eu tinha. Não pela sirene. Mas pelo clima do bombardeio, no Chile. Meus pais tinham. Minha irmã (eu tenho outra irmã, mais velha) tinha. Ou seja, a gente sabia o que era esse medo. Claro, não era o MESMO medo, mas era similar. Tenho toda certeza de que parte de minha fixação na música do Iron advinha da sensação de imaginar como o piloto chileno que bombardeava Santiago se sentia quando jogava as bombas que iriam fazer Allende se suicidar. Tenho também certeza de que parte da fixação pela música advinha da profissão - aviador - que eu não tinha tido possibilidade de seguir (porque eu quis ser aviador, naquelas frases de crianças.

Aces High - Vídeo Oficial

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Na época, eu não entendia a letra da música (como sei que até hoje poucos entendem). Eu também não compreendia detalhes daquele drama narrado, em que "nunca tantos deveram tanto a tão poucos" (como disse Churchill). Não entendia em que consistia o drama de sair correndo pegar o avião antes que os bombardeiros o atingissem em terra. Não entendia o que era não perder o timing, essencial para estar a postos para enfrentar os Stukas e os outros aviões alemães cujas fotos eu já mostrei. Não sabia o que era isso. Aspectos que estão jogados na letra, e que expressam o drama de voar para... viver. Ou seja, fly to live, live to fly. Não havia escolha. Era a escolha daquele povo, daquelas pessoas, daqueles pilotos, de todo mundo. Não havia saída.
Por outro lado, a música, o heavy metal, era também uma espécie de celebração. Pois a música não era dramática, mostrava o lado do piloto, e sua importância ao salvar uma nação, mas mostrava o gosto que era sair atrás do inimigo, ou fugir dele, para vencer a batalha. Hoje sabemos que os Spitfires (também citados nominalmente) eram tecnologicamente bem superiores aos ME-109, e que por isso ganhavam boa parte dos embates. Mas ao assistir ao vídeo, e ouvir a música, eu não sabia disso. Simplesmente o embate era um jogo de gato e rato. Como seria naquela época? Como seria lutar contra os alemães, que ainda hoje, alguns dizem, eram superiores no ar? Pois a música buscava passar essa sensação.
Notemos que hoje, em que os aviões viajam muito mais rapidamente, e em que as lutas são travadas a muitos quilômetros de distância, muitas vezes, temos diversos programas de computador que simulam vôos e até mesmo combates. Mas em 1984 não tínhamos ainda nada disso. Os simuladores que iriam virar jogos viriam bem depois, e eu mesmo joguei neles. Mas hoje temos vídeos sem conta que querem nos passar a impressão dos vôos e das lutas aéreas. Temos inclusive vídeos recuperados daquela época que mostram as batalhas reais. Eu posto um deles aqui, agora. Pois é isso o que a música quer passar. O drama, sim, mas também o gosto de voar e de vencer a Batalha da Grã-Bretanha, a primeira batalha inteiramente aérea da história (que foi de julho a outubro de 1940, apenas).

Combate aéreo real - Uma vitória de alemão e outra de inglês

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Temos hoje também vídeos comparando os aviões, comparando os talentos aeronáuticos dos pilotos, temos tudo. Mas não temos a paixão que era simplesmente voar para salvar os seus contra a potência que queria dominar o mundo. Essa paixão está na música, e ela é que passava para nós, no jogo de gato e rato entre os pilotos ingleses e alemães. Claro que há aspectos particulares dessa luta que é melhor deixar para a letra da música, mesmo.

Animação de combate

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Note-se que a letra é curta, tem apenas dois blocos, em formato de espelho, e que a música, após os solos magníficos, que qualquer fã do Iron Maiden sabe de cor, termina praticamente da mesma forma que começou. Os solos, cabe dizer, são quase sempre expressos por Dave e Adrian da mesma forma que eles combinaram no início - e que guardam até onomatopéias com o som dos aviões passando e guerreando (como no caso de Adrian).

Aces High - Acústico do Thomas Zwijsen

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Algo a dizer ainda sobre a letra. Ela é dividida em dois blocos bem claros, o primeiro indicando a ocorrência das sirenes, a necessidade de pular no avião o quanto antes e de destravar as rodas, assim como de se apressar antes que seja tarde demais; já o segundo mostra a abordagem aos bombardeiros, o ataque aos seus flancos e ao seu ponto morto, a chegada dos caças inimigos, e a luta em si. Tudo é bem claro, e se formos ser bastante críticos, de uma concisão extrema. Notamos como a música em si dá a graça ao todo, e como termina então bastante bruscamente, com o Bruce tendo, com seus gritos, nos dado uma verdadeira dimensão do que estava sendo narrado. Um grito final que para alguns decepciona, mas com o qual já nos acostumamos. Não há muitos segredos, tudo é bem claro.

O legado

Aces High virou single (que eu inclusive comprei), e virou fixação durante um bom tempo da carreira da banda. O tema da música, e as figuras do Eddie de frente fazendo careta e pilotando seu Spitfire, rodaram o mundo. Viraram uma série de produtos que muitos colecionaram, alguns dos quais eu mostro aqui. Viraram até bonecos, e camisetas de muitos tipos, que muitos de vocês com certeza têm. Há quem não atribua tanto valor assim à música em si, dando-lhe pouca nota (como no site aqui, que também fala muito mais do que eu sobre a história do conflito, dentre outras coisas). Mas tudo ficou para a história como a melhor abertura de LP de heavy metal da história, seguida, claro, por 2 minutes to midnight (que não sei se irei cobrir aqui em artigo similar). Há quem discorde, claro. Não importa.

Imagem com referência a Aces High (brasileira)

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Broche de Aces High

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Mas o valor pessoal da música ficou em mim. Ainda hoje ela é a forma mais clara pela qual eu sinto o Iron Maiden. A faixa que os define por excelência - embora não seja a melhor faixa, que muitos consideram seja "The Rime of the Ancient Mariner", que eu já comentei aqui no Whiplash.net. Ou que poderia ser Alexander, the Great, que eu comentei também aqui no site (links abaixo). A faixa que me pirou quando eu tinha uns 17 anos e que converteu isso que era um amor por uma banda numa paixão que não se esgota. Que realmente não se esgota.

Iron Maiden: Quase tudo sobre "The Rime of the Ancient Mariner"

Maiden: Uma viagem inesgotável ao redor de Alexandre, o Grande

Material de coleção Aces High

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Outros detalhes a comentar são os seguintes: a música entroniza Churchill, que possui uma estátua bastante característica em Londres, da qual me lembrei há pouco - e que eu mesmo tenho uma fixação por estátuas e por heróis (como meu pai); eu fui ao show do Iron no então Palmeiras em 1992, e eles não tocaram a faixa (algo de que não me lembrava - um colega aqui, o Nilson, que estudou na mesma escola que eu, me lembrou em privado); nunca ouvi a faixa ao vivo, mas a coloco aqui então para uma terceira audição.

Aces High ao vivo

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Estátua de Churchill, em Londres

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Aces High - Show em Montreal

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Espero que tenham gostado da viagem. Ela será seguida por outras. Só não sei ainda quais.

Grande abraço e UP the Irons!

Dedico este artigo à memória do meu pai, Guillermo Enrique León Campbell (1938-1996)

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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