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Dream Theater: 5 momentos em que a banda não foi ela mesma

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Por Guillermo Gumucio, Fonte: Sociedade Pública
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Com 30 anos de história, poucas bandas no rock dividem tanto as opiniões quanto o Dream Theater. Os fãs defendem o conjunto com fervor, levados pelos épicos repletos de solos e alçando seus integrantes ao posto de melhores instrumentistas do cenário mainstream. Já seus detratores ridicularizam a composição calcada na destreza dos músicos em seus respectivos instrumentos e não enxergam absolutamente qualquer traço de emoção na execução das músicas de longa duração. Seja como for, é certo que a banda conseguiu imprimir a sua marca desde o início da sua trajetória, com Images and Words (Atlantic, 1992), um disco de heavy metal que reunia as guitarras em destaque da segunda metade da década de 1980 com “21st Century Schizoid Man” e era sucessor do inaugural When Day and Dream Unite (MCA, 1989), que tinha o Queensryche como referência mais evidente, mas já trazia vários dos elementos que seriam mantidos nos trabalhos posteriores. O grande marco na carreira veio com Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (Atlantic, 1999), uma unanimidade entre os seguidores do grupo de Nova Iorque. O disco foi seguido de uma turnê pelos EUA que trazia a ópera-rock na íntegra ao público e culminou em uma apresentação especial na cidade-natal do conjunto que rendeu um CD triplo, Live Scenes from New York, e um DVD e home video, Metropolis 2000: Scenes from New York, ambos da Elektra (2001).

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Com uma nova formação consolidada com dois discos de estúdio, A Dramatic Turn of Events (Roadrunner, 2011) e Dream Theater (Roadrunner, 2013), e dois registros em DVD e Blu-ray ilustrando as turnês de divulgação desses álbuns, Live at Luna Park (Eagle Rock, 2013) e Breaking the Fourth Wall (Roadrunner, 2014), com Mike Mangini no lugar do fundador Mike Portnoy na bateria, o Dream Theater volta ao formato da ópera-rock com The Astonishing (Roadrunner, 2015). Com produção do guitarrista John Petrucci, o lançamento descreve uma fantasia distópica para enaltecer o poder da música contra os avanços apocalípticos da tecnologia entre duas facções opostas de uma sociedade ficcional. O conceito, em tese, não é uma grande novidade, já que os próprios fãs de rock progressivo podem se lembrar rapidamente de 2112 (Mercury, 1976), clássico do Rush, e alguns outros tantos talvez se recordem também de Joe’s Garage (Zappa Records, 1979). Com mais de duas horas de música, The Astonishing é uma gravação que faz jus ao atual potencial da banda e demonstra a liderança de Petrucci e do tecladista Jordan Rudess, ambos em bastante evidência ao longo de todo o disco, muito baseado em composições que usam variações de uma mesma frase musical como leitmotiv e contam com os dois pontos de vista da trama concebida pelo guitarrista. É notório que The Astonishing não só agrada aos fãs, mas também deve resgatar algumas almas perdidas pelo caminho que não haviam ficado satisfeitas com a produção da banda na era pós-Portnoy.

Com uma trajetória que abrange três décadas de atividades, são diversas as características que definem a obra do Dream Theater, mas houve momentos em que o grupo não foi ele mesmo, como veremos adiante. Talvez uma virtude inerente a todos os estilos que flertam com o rock progressivo, certa medida de experimentação é sempre salutar e pode render boas passagens. Consideramos apenas os treze discos de estúdio e o relevante EP A Change of Seasons (EastWest, 1995), já que as peripécias ao vivo nesse sentido, seja em gravações oficiais ou não, renderiam outro artigo ainda mais extenso. Vamos aos cinco momentos selecionados:

1. “Take the Time” (Images and Words, 1992)

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Muitos não percebem, mas há algo de muito estranho nesta faixa do disco de estreia do vocalista James LaBrie no Dream Theater que vai além das inserções de Beastie Boys, Frank Zappa e Public Enemy. O bumbo duplo no refrão, o solo em uníssono de guitarra e teclado e as brincadeiras com os silêncios e intervalos (que também são muito lembradas em “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper”, do mesmo disco, e na instrumental “Overture 1928”, por exemplo) estão todos aqui e fazem parte do arsenal típico do gênero.

Mas ouça bem a seção do primeiro canto, principalmente o que faz a guitarra e você perceberá que é uma linha que poderia estar nos melhores hits da new wave da década de 1980. Claro, o vocal estridente não faz o mesmo estilo e já no segundo canto as coisas mudam de tom, com a guitarra optando por um caminho mais romântico e melodioso e Portnoy deixando a sua uma marca registrada à época, uma série de drum fills que fazem a levada passear pelo kit, mas a ginga da guitarra (na marca de 0:28 até 0:50 no vídeo acima, uma versão editada para videoclipe da música original) é um dos mais saborosos dos muitos momentos de grande originalidade no disco que colocou a banda no mapa do sucesso com a música de abertura, “Pull Me Under”.

Assim como ocorre com os samples do início da música, a inserção de um diálogo de Cinema Paradiso (dir. Giuseppe Tornatore, 1988) é outra clara indicação da influência do repertório cultural de Mike Portnoy, cinéfilo de carteirinha, que fazem deste um ótimo exemplo de uma faixa de grande destaque que, graças aos múltiplos andamentos que percorre em seus mais de oito minutos de duração, agrada a todo o público da banda, seja pelo clima “pra cima” ou pela execução de padrões bem definidos. Inclusive, o primeiro verso desta música serviu de inspiração para outra música mais ou menos na mesma linha, “Just Let Me Breathe”, de Falling Into Infinity (East West, 1997), que também poderia estar nesta lista nem que fosse pelas inusitadas referências a Kurt Cobain e Shanon Hoon, vocalista do Blind Melon, e a crítica nada velada à MTV.

“Take The Time” sempre foi uma das mais pedidas pelo público nos shows e uma versão recente pode ser conferida no DVD duplo Chaos in Motion 2007-2008 (Roadrunner, 2008).

2. “Hell’s Kitchen” (Falling Into Infinity, 1997)

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A mais diferenciada das músicas da banda inserida no álbum que é amplamente considerado a “ovelha negra” da discografia por suas manifestas pretensões comerciais (que não se concretizaram como esperado, diga-se de passagem), “Hell’s Kitchen” é a única música sem voz do conjunto que não se baseia em pirotecnias e prefere privilegiar o ambiente. É curioso que, mesmo com o feedback positivo por boa parte dos fãs, o Dream Theater não tenha mais investido neste tipo de número instrumental que deixa um pouco o virtuosismo de lado e conta com apenas algumas milhares de notas, e não milhões, como de praxe em todo o restante do catálogo.

A calma com que a introdução de “Hell’s Kitchen” é construída já é surpreendente em se tratando do quinteto de Nova Iorque. Em seguida, um solo bastante inspirado por parte de Petrucci que casa com a cozinha com perfeição. O fraseado típico de rock progressivo após o solo de guitarra dá lugar ao destaque para o teclado de Derek Sherinian e um desfecho um pouco mais movimentado, se não tão belo, pelo menos bem encaixado em todo o desenvolvimento da peça. Para terminar, “Hell’s Kitchen” dá a deixa para “Lines in the Sand”, outra faixa que poderia muito bem estar nesta lista pelo ineditismo de um convidado no microfone, o excelente Doug Pinnick, fundador do King’s X, uma das melhores bandas de hard rock da década de 1990, e também integrante de projetos como The Mob, KXM, Pinnick Gales Pridgen.

3. “Honor Thy Father” (Train of Thought, 2003)

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Uma coisa é fundamentar um disco nas principais características do new metal, estilo em voga na virada do século, e fazer uma releitura à moda da casa progressiva, como ocorre de maneira exemplar em “This Dying Soul” e “In The Name of God”. Outra é soltar uma pedrada sem aviso prévio como faz “Honor Thy Father”. Espécie de carta endereçada ao padrasto (e não ao pai, que teve a devida homenagem um pouco depois, em “The Best of Times”), a composição é puro Mike Portnoy, como não deixam de atestar os diálogos inteiros de Magnólia (dir. Paul Thomas Anderson, 1999).

Para os fãs que estranharam Train of Thought (Elektra, 2003) desde a capa em preto e branco até o último acorde, “Honor Thy Father” era tudo que eles não queriam ouvir: repetições de riffs simplórios em baixa afinação, teclado com aspirações de música eletrônica que poderiam ilustrar uma faixa bem movimentada do Daft Punk e o maior de todos os pesadelos: James LaBrie fazendo rap (na marca do 1:55 do vídeo acima).

O tempo se encarregou de mostrar que o estranhamento dos admiradores com o disco como um todo não era mais do que isso, uma falta de familiaridade com a sonoridade, e não são poucos os que consideram Train of Thought hoje um dos trabalhos mais consistentes do conjunto de heavy metal progressivo. A história do rock recente conta com alguns episódios bem semelhantes, como os casos de Metallica com a dobradinha Load/Reload (Elektra, 1995 e 1997, respectivamente) e Smashing Pumpkins com Adore (Virgin, 1998), álbuns que foram rechaçados em um primeiro instante, mas demonstraram grande vigor artístico depois de anos de audição e, no caso de empreendimento de Billy Corgan, foram abraçados pelos fãs com louvor depois que a tese do disco se mostrava acertada e suas virtudes brilhavam até para os mais míopes.

4. “A Rite of Passage” (Black Clouds and Silver Linings, 2009)

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Primeiro single do último disco do baterista Mike Portnoy com o Dream Theater, “A Rite of Passage” traz a maçonaria como tema e diversos clichês do estilo. Nada de muito novo nem atraente no horizonte, exceto pela picardia que Jordan Rudess comete passada a marca de 6:40 de duração da faixa: dois solos reproduzidos em um aplicativo de iPhone. Não que fosse necessária uma extensa explicação do músico para chegar a essa conclusão, pois a sonoridade dos solos deu conta sozinha de provocar a ira de muitos fãs e pode ser que a Roadrunner tenha se arrependido na escolha desta música em particular para divulgar o lançamento. Aos contrariados, o culpado tinha nome: Bebot – Robot Synth, um aplicativo que custa 1,99 dólar e roda em qualquer dispositivo Apple compatível. A sacada foi surpreendente na medida em que nos habituamos a ver Rudess nos palcos e estúdios com uma parafernália mastodôntica que deve precisar de uma equipe dedicada da Nasa para a sua manutenção. Aos mais curiosos, a complexidade dessa questão tecnológica, inclusive, já rendeu um disco em consonância com a natureza peculiar desta lista, When the Keyboard Breaks: Live in Chicago (Lazy Tomato Entertainment, 2009), um registro ao vivo do Liquid Tension Experiment, projeto formado por três dos integrantes do Dream Theater mais a lenda Tony Levin do King Crimson no Chapman Stick. Como Rudess tocou por alguns poucos minutos até a deflagração da falha técnica e o problema não foi resolvido, o disco leva a assinatura do Liquid Trio Experiment, que já gravara seus improvisos em Spontaneous Combustion (Magna Carta, 2007).

5. “The Great Debate” (Six Degrees of Inner Turbulence, 2002)

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A introdução de “The Great Debate” é uma das coisas mais interessantes que o Dream Theater já gravou. Com caráter literalmente progressivo (ou seja, os elementos musicais são agregados um a um até que formam toda a paisagem sonora), a faixa contém uma característica absolutamente exclusiva em se tratando do catálogo do Dream Theater: a abordagem de uma questão polêmica pela sociedade civil e científica.

No início da década de 2000, o mundo acompanhava com atenção os desdobramentos da aprovação ou não das pesquisas com células-tronco nos tribunais estadunidenses. A controvérsia foi muito alimentada pelos grupos religiosos e dividiu os EUA entre aqueles que consideravam um avanço natural e bem-vindo da ciência e quem julgava que tal medida efetivamente faria com que médicos e cientistas pudessem brincar de deus a seu bel-prazer. O assunto é bastante complexo, já que há diversos tipos diferentes de pesquisa com células-troncos, para diversas finalidades e com várias metodologias, e “The Great Debate” acerta em cheio ao trazer os dois lados da discussão, tanto na parte lírica quanto com um recurso que também não foi muito explorado na discografia da banda.

A letra é bem direta com relação ao tema, não dá muitas voltas para revelar do que se trata e faz referências bastante explícitas à controvérsia, seja para demonstrar um ponto daqueles a favor das pesquisas (“life won’t have to end, you could walk again”), ou para retratar os grupos contrários à questão (“harvesting existence only to destroy, carelessly together we are sliding”). Agora, a verdadeira cereja no bolo da faixa pode ser encontrada já na sua introdução: os argumentos da esquerda e da direita estadunidenses são colocados em seus respectivos canais de áudio, esquerdo e direito. As inserções trazem tanto depoimentos de ambos os lados quanto fragmentos informativos na voz de apresentadores televisivos, tudo recolhido dos meios de imprensa. As inserções começam se intercalando, mas conforme a música evolui, elas se sobrepõem até que a versão mais pesada do riff é dada e James LaBrie entra em cena. O encerramento da música adota a mesma lógica de seu início, mas a inverte, com o processo de desmontagem da paisagem sonora e mais inserções de representantes da esquerda e da direita podem ser ouvidas até alguns segundos antes do final, de fato, da canção. Comprove munido dos devidos fones de ouvido.

O principal riff da música em si, como muito discutido à época do lançamento, demonstrava uma nítida admiração pelo trabalho do Tool mais uma vez (a primeira foi em “Home”, cujo riff é quase um plágio de “Forty Six & Two”) e tinha o título provisório de “Conflict at Ground Zero” graças ao verso “humankind has reached a turning point, poised for conflict at ground zero”, mas o nome foi descartado após os incidentes de 11 de setembro em Nova Iorque. Depois da infeliz coincidência com o lançamento de Live Scenes from New York, que ocorreu no fatídico dia dos atentados e cuja capa estampava uma maça (o símbolo da cidade, “Big Apple”) em chamas, o grupo decidiu que não precisava de outro mal-entendido envolvendo uma questão já delicada por si só, já que Marco Zero (“Ground Zero”) é o nome dado ao memorial às vítimas dos ataques ao World Trade Center.

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Post de 27 de junho de 2016

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