Inimigo Meu: Rock de arena X Punk Rock, pt.1, Pink Floyd

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Inimigo Meu: Rock de arena X Punk Rock, pt.1, Pink Floyd


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Poucos foram os grupos de rock clássico ou de arena (mais especificamente ligados ao Hard Rock, Heavy Metal e Rock Progressivo) que foram poupados durante o furacão punk-disco, entre 1976-9. Tanto comercialmente, mas, principalmente artisticamente, a maioria das bandas desses estilos foram violentamente criticadas e atacadas pelos grupos Punks e pela (um tanto ressentida) mídia inglesa e - em menor medida- norte-americana. Por um lado, muitos dos ataques, principalmente ligados a pretensão e grandiosidade em demasia, não eram necessariamente infundados, somados a uma certa divisão entre a classe média e alta (de onde estavam os fãs do Rock de arena) com as mais baixas, advindas de uma crise econômica ocorrida tantos nos EUA como na Inglaterra, em meados dos anos 1970. Mas por outro, muitos grupos exageraram nos ataques, em comum acordo com a critica musical, essa ultima, em casos específicos, querendo ir a forra com alguns desafetos. Posteriormente, a partir dos anos 1990, muitas das criticas perderam o sentido, sendo que ambos os estilos atualmente conseguiram manter uma relação mais amena e menos hostil (apesar de ainda haver um certo ranço, felizmente localizado e limitado, da mídia para com o progressivo).

Mas não devemos superestimar esses ataques, por mais que a história “oficial” tente provar o contrario, pois a maioria dos grupos dito “clássicos” sucumbiram não necessariamente por que a mídia e os punks assim desejaram e sim por instabilidades internas (a famosa guerra de egos ou incompatibilidades musicais) ou simplesmente pelo fim da fase áurea desses grupos (natural, pois alguns deles estavam profícuos desde o final da década anterior).

Para exemplificar esse argumento, o presente texto, dividido em duas partes, buscará apresentar os dois alvos que mais sofreram com esses ataques, nos dois lados do atlântico, durante quase toda a segunda metade dos anos 1970, respectivamente os grupos Pink Floyd e Led Zeppelin. Ironicamente, apesar de todos os ataques sofridos, alguns bastante violentos e hostis, ambas as bandas, no final, mantiveram seu prestigio e respeito praticamente intocados (o que se mantém até hoje). Infelizmente, o preço a ser pago, por ambas as bandas, seria caro, sendo que os dois grupos, de diferentes maneiras, se dissolveram ou encerraram suas atividades na década de 1980.

A primeira parte é dedicada ao ícone do Rock progressivo, Pink Floyd. A segunda parte, dedicada ao ícone do Hard Rock, Led Zeppelin, pode ser lida no link a seguir:

Inimigo Meu: Rock de arena X Punk Rock, pt.2, Led Zeppelin

Entrando no furacão

Em 12 de setembro de 1975, o Pink Floyd lançava, finalmente, “Wish You Were Here”, o tão aguardado sucessor do grande sucesso “Dark Side of the Moon”. O trabalho veio após uma longa e tumultuada sessão de gravação (com a sombria visita do fundador do grupo, Syd Barrett, envelhecido e irreconhecível, numa delas), em paralelo a uma mini turnê (trechos do ultimo show da excursão, em julho de 1975, em Knebworth, Inglaterra, pode ser visto abaixo) e, no fim, um grupo exausto, decidindo não promover o disco numa turnê após o lançamento. Apesar de obter sucesso comercial ao ser lançado e, décadas depois, o trabalho ser considerado, por critica e publico, um dos grandes discos da banda, na época o álbum foi recebido com frieza e certa decepção para quem esperava um Dark Side parte 2.

Nesse período iniciava-se, ou melhor, consolidava-se, o afastamento da banda em relação à mídia musical inglesa e norte americana, que começava a escrever artigos pouco elogiosos e que mostravam ceticismo em relação à qualidade artística do grupo. O Floyd na verdade, após 1970, decidiu por uma postura mais discreta, diminuindo consideravelmente sua participação em programas de televisão, entrevistas e praticamente não se deixando filmar profissionalmente entre 1974-77.

Em 1976, o grupo, com um novo estúdio construído e a sua disposição, o Britannia Row Studios, realizou, entre abril e dezembro daquele ano (com alguns ajustes finais no inicio de 1977), as gravações do novo disco de estúdio, “Animals”. Levemente baseado na obra Revolução dos Bichos, de George Orwell , com o grupo separando a sociedade em Cachorros, porcos e ovelhas, e reutilizando faixas que eram regularmente tocadas pela banda desde 1974 – “You Gotta be Crazy” (que viraria a canção Dogs) e “Raving and Drooling” (que viraria a canção Sheep). Segundo o baterista da banda Nick Mason, as sessões de gravações fluíram de forma muito mais agradável em comparação ao disco anterior. Apesar de alguns autores indicarem que o disco seria algum tipo de indireta ao punk rock, a distancia entre o som da banda e o estilo era monumental, e o próprio grupo nunca admitiu tal fato.

Lançado em janeiro de 1977, e obtendo sucesso comercial considerável, o disco foi mal recebido pela critica, sendo chamado de “moroso”, “redundante”, “tedioso”, entre outros termos não muito simpáticos. A cena Punk, estourando e atingindo seu ápice nessa época não poupou criticas pesadas a banda e ao álbum. Vários grupos ironizavam as longas faixas do trabalho e a temática “política” da mesma, chamando-a de superficial e inócua. A banda, na época, aparentemente não mostrou estar tão incomodada com essas criticas. Nick Mason chegaria a produzir o segundo disco da banda The Damned ainda em 77. Nos Estados Unidos, as criticas seriam mais amenas, limitando-se a acusações de uma postura “arrogante” e “grandiloqüente” por parte do grupo e de se aproveitarem de idéias antigas, indicando talvez certa falta de criatividade. (veja a seguir comercial de TV exibido em 1977 para a promoção do álbum).

Seria na excursão do disco, entre janeiro e julho de 1977, que começaria o longo período de desintegração da formação consolidada em 1969. Com um aparato grandioso, incluindo porcos e modelos infláveis gigantes, além de um complexo equipamento sonoro, o grupo experimentava sua mais ambiciosa excursão até então, infelizmente não registrando a mesma profissionalmente em filme (apesar de existirem registros amadores dessa turnê como podem ser vistos abaixo, respectivamente, em Viena e na Califórnia). O set list consistia nos discos “Animals” e “Wish you were here” na integra, além das faixas “Money” e “Us and Them” no bis (com exceção de “Careful With that Axe”, Eugene que foi tocada, unicamente e pela ultima vez, em maio de 1977).

Mas o Pink Floyd, tocando em grandes arenas e estádios, parecia incomodado com a grandiosidade ao qual tinha chegado. O então líder Roger Waters começava a mostrar uma postura hostil com outros membros da banda, com a equipe do show e, em alguns momentos, com o publico. Aliás a longa e duradoura hostilidade ente o baixista e o tecladista Rick Wright começaria nessa época, ainda num estágio inicial e discreto. Os shows seguiram irregulares, com ótimas apresentações mescladas com outras nem tanto, culminando, no ponto mais baixo, no ultimo show da turnê, no Canadá, em julho. Considerado pela própria banda uma das piores apresentações do Floyd, com um publico hostil, somado a Waters interrompendo canções de forma abrupta, e cuspindo em um membro agitado da audiência, fechando de forma melancólica a excursão, apesar de a mesma ter dado combustível e inspiração para o próximo disco do grupo. Depois da turnê, o Pink Floyd sairia das vistas do publico e mídia por quase dois anos.

Construindo e derrubando o muro

Ainda em 1977, duas idéias foram apresentadas por Roger Waters para um novo disco de estúdio. O primeiro, entre outros nomes iniciais, chamado de “Bricks in the Wall”(inicialmente baseado no isolamento que o grupo estava agora relegado com o sucesso), e o segundo chamado, entre outro nomes, de “Gunner’s Dream”(uma complexa história ligada a medos existenciais, crises e desejos pessoais). Segundo Gilmour, anos mais tarde, o grupo achou o segundo tema musicalmente melhor, porem a primeira idéia parecia mais promissora e que poderia ser mais bem trabalhada pela banda e acabou sendo a escolhida (a idéia rejeitada se transformaria no primeiro disco solo de Waters, “The Pros and Cons of Hitch Hiking”, lançado em 1984). Em 1978, contudo, os membros do grupo estariam ocupados em outros projetos, David Gilmour lançando seu (ótimo) disco solo (com duas sobras dele, “Confortably Numb” e “Run Like Hell”, a serem usadas posteriormente), seguido por Wright, e Mason produzindo alguns discos nesse ano.

Chamando o renomado produtor Bob Ezrin (que já havia trabalhado com nomes como Lou Reed, Kiss e Alice Cooper), James Guthrie e o conceituado maestro Michael Kamen, o Pink Floyd entraria em uma de suas mais ousadas cartadas. O trabalho foi produzido entre janeiro e novembro de 1979 em diferentes estúdios na Europa e Estados Unidos. Antagonismos entre Waters, Gilmour, Ezrin e Guthrie durante as gravações foram constantes e, em alguns momentos, intensas, mas que no final, surpreendentemente, não tiveram maiores conseqüências. Infelizmente o mesmo não ocorreu entre Waters e Wright, que, apesar de chamado para contribuir no disco, mostrou pouco interesse no material e na forma em que o baixista controlava o trabalho, o que ocasionou, finalmente, num rompimento entre os dois músicos um pouco antes do término da produção do disco.

“The Wall”, lançado em 30 de novembro de 1979, seria um dos maiores sucessos comerciais da banda, até hoje obtendo vendas significativas. Alem disso o disco foi, como uma agradável surpresa, bem recebido pela critica, que, mesmo não sendo unânime, elogiou o sopro de renovação que esse disco dava a banda e uma (pretensa) autocrítica que a mesma estaria fazendo nesse álbum. Ecos de ataques ligados ao punk até surgiram, porém o movimento encontrava-se bem mais enfraquecido (com a ascensão da new wave e pós punk) e as mesmas não surtiram muito efeito ou repercussão. Numa ousada, e acertada, proposta de Ezrin, a banda decidiu lançar um compacto da faixa “Another Brick in the wall – part. 2”, que alcançou o top 10 americano e inglês.

Mas na mini turnê, com 31 shows ocorridos entre 1980-81 nos EUA, Alemanha e Inglaterra, é que as discordâncias se transformariam em rixas e rompimentos. Wright, demitido e depois readmitido para a turnê, tocaria como músico contratado, porém já não mantendo mais relações amistosas com Waters, que se manteria até o fim da vida do tecladista, ironicamente sendo o único a ganhar algum dinheiro com a excursão. Com uma proposta grandiosa e pretensiosa, com a utilização de uma banda “falsa” no inicio do show, além da construção de muro durante o concerto, que seria derrubado no fim da apresentação, e na utilização de marionetes gigantes e animações, ambas desenvolvidas por Gerard Scarfe, era difícil acreditar em uma autocrítica do grupo como alguns críticos tinham colocado. O resultado no final foi satisfatório, que pode ser conferido no duplo ao vivo “Is there anybody out there?” lançado em 2000, e em filmagens esparsas disponíveis na internet (veja abaixo trecho do show da turnê em Nova York e em Londres), contudo, era difícil não negar uma certa pomposidade do grupo (ou melhor de Waters) para com essas apresentações, totalmente baseadas no disco. A banda sofreria prejuízos financeiros com a turnê, o que no final, não foi algo tão surpreendente.

A partir daí, o Pink Floyd racharia e entraria num longo processo de instabilidade e processos legais entre seus membros. O ego de Waters resvalaria para a megalomania, visível no filme “The Wall” (1982) e no irregular “The Final Cut” (1983). Com a saída de Waters, Gilmour, aos trancos, seguiria com o nome Pink Floyd, fazendo turnês grandiosas e lançando dois bons discos de estúdio, “A Momentary Lapse of Reason” (1987) e “The Division Bell” (1994), o último de estúdio do grupo e que permitiu o retorno de Wright na parte criativa da banda. Depois de 1995, o grupo em sua formação clássica só retornaria, para a surpresa de todos, em 2005, numa apresentação para o evento Live-8, e em participações esporádicas de Gilmour e Mason em shows solos de Waters (Wright faleceria em 2008).

Conclusões

Quase 35 anos depois, qual foi a opinião da banda em relação a esse período instável e dos ataques feitos pelos punks e da mídia ao grupo? No geral, pela opinião dos quatro membros em diferentes entrevistas, o Pink Floyd em si não ignorou o movimento punk ou os ataques da imprensa musical, mas também não demonstrou grande ressentimento ou qualquer postura em que quisesse mostrar que ambos estavam errados. Gilmour, em entrevista para a revista Bizz em meados dos anos 1990 chegou a afirmar que “apesar dessas críticas em relação a banda ser um dinossauro,ok, mas é o meu dinossauro e eu o adoro”. Nick Mason, em sua autobiografia, afirma que o punk, apesar dos excessos, teve importância em dar sangue novo a cena musical da época.

Dois motivos podem, parcialmente, explicar por que o Pink Floyd manteve seu status mesmo com todas essas críticas. Primeiramente o grupo já tinha uma respeitabilidade considerável durante o auge dos ataques. Por outro os problemas internos que vitimariam o grupo no inicio dos anos 1980 seriam um foco muito mais importante de preocupação do que camisas “I hate Pink Floyd” usadas na época. Johnny Rotten poderia até fazer algum barulho, mas o ego de alguns membros do Floyd estava fazendo estragos bem maiores. A saída (aparentemente estratégica) dos holofotes feita pelo grupo entre 1977-9 até pode ser citado como um possível terceiro fator que explica os poucos danos sofridos pela banda, apesar de que isso não significasse que, novamente,no âmbito interno, o grupo não estivesse passando por problemas.

Por fim, como dito no inicio do artigo, o Pink Floyd não só manteve sua importância para com o rock como também é reconhecido como um dos grupos mais influentes do rock atual, com bandas como Muse, Radiohead, Smashing Pumpkins, Flaming Lips, Dream Theater, entre outros, assumindo beberem na fonte deixada por Waters-Gilmour-Wright-Mason.

Fontes

“Saucerful of secrets” (1992) de Nicholas Schaffner
“Inside out” (2004) de Nick Mason
“Pigs might fly” (2007) de Mark Blake
"Comfortably Numb - A History of The Wall" (2006) de Vernon Fitch e Richard Mahon
“Pink Floyd” – Wikipedia (en.wikipedia.org/wiki/Pink_Floyd)

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Sobre Roberto Lopes

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