Nos grandes momentos de crise, a arte gira conforme a roda da história. Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, Pablo Picasso pintou "Guernica". Durante a Segunda Guerra, Charlin Chaplin dirigiu e estrelou o "Grande Ditador". 1967 foi o ano em que o Rock and Roll e outras formas de arte se levantaram contra a Guerra do Vietnã.
Quando 1967 começou, o conflito entre o Vietnã do Norte (comunista) e o Vietnã do Sul (capitalista) já se arrastava por quase 8 anos. O apoio logístico dado pela União Soviética e a China comunista, acabaram forçando os Estados Unidos entrarem no conflito para tentar proteger o seu lado na Guerra Fria. A partir de 1965, o governo norte-americano passa a enviar tropas para proteger o governo do Vietnã do Sul, mas sem muito sucesso. O grande número de soldados estadunidenses mortos em batalhas acabou gerando uma grande oposição do povo americano àquele conflito.
Essa oposição foi deflagrada no movimento que ficou conhecido como a contracultura. Os ideais desse movimento eram defendidos principalmente pelos hippies, que passaram a ficar em evidência a partir do verão de 1967, que seria conhecido como "Verão do Amor".

O estopim desse movimento se deu em Nova Iorque, em abril daquele mesmo ano, quando cerca de 300 mil jovens se reuniram numa passeata contra a Guerra do Vietnã e as políticas do governo Lyndon Johnson. O movimento ganhou força justamente pelo apoio de artistas, entre eles romancistas, pintores e principalmente cantores, como Peter Seeger. Além disso, ativistas políticos também tomaram parte na manifestação, como por exemplo, Martin Luther King e Benjamin Spock.

Durante o "Verão do Amor", foi organizado o primeiro grande festival de música regido pelos ideais da contracultura: o Monterey Pop Festival. Idealizado por pessoas ligadas ao movimento hippie como, por exemplo, John Phillips, do THE MAMAS & THE PAPAS. O festival foi realizado entre os dias 16 e 18 de junho, em Monterey (também na California) e contou com grandes nomes da música como THE WHO e OTTIS REDDING (que viria a falecer naquele mesmo ano em um acidente de avião) e alguns novatos como o BIG BROTHER AND THE HOLDING COMPANY (que contava com a talentosa JANIS JOPLIN nos vocais) e THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE.

Uma outra banda californiana, não tão ligada a contracultura, também despontava em 1967, mas acabou ficando de fora de Monterey por não terem recebido o convite: eram o THE DOORS. Naquele ano, eles lançariam os seus dois primeiros trabalhos, que mais tarde se tornariam clássicos: "The Doors" e "Strange Days". Apesar de não estarem estreitamente ligados à cena hippie, eles também levavam ao pé da letra os lemas da experimentação e psicodelia.
Mas esses aspectos, no entanto, não eram exclusividades das bandas dessa região. Na Europa, mas precisamente no Reino Unido, muitas bandas também seguiam esses preceitos de experimentação e psicodelia. Os consagrados The Who, THE BEATLES e ROLLING STONES seguiram essa receita em 1967, alcançando resultados dos mais diversos.
Os Beatles alcançaram o auge da sua maturidade criativa naquele ano com o lançamento de "Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band", tido como um marco não só de 1967, mas como na história do rock. Ali, o quarteto de Liverpool finalmente dava asas às experimentações que começaram a aparecer nos anos anteriores em "Rubber Soul" e "Revolver". "Sgt. Pepper's" foi um sucesso de crítica e público, conseguindo a façanha de ser o primeiro disco de rock a conquistar o Grammy de "álbum do ano". A importância deste álbum é tamanha para a história, que se torna até redundante uma análise mais detalhada.

Os Stones, por sua vez, não foram tão bem-sucedidos em sua jornada psicodélica. Poucos meses após o lançamento de "Sgt. Pepper's", chegou à praça o "Their Satanic Majesties Request", recebido com indiferença pelo público e com desprezo pelos críticos. Apesar de não ser um disco ruim, as comparações foram inevitáveis e, mais uma vez, os Stones ficariam a sombra de seus "rivais".
Já o Who, encarou a onda de experimentações de uma forma diferente: lançado o seu primeiro álbum conceitual, "The Who Sell Out". Se o disco não trazia nenhuma inovação instrumental ou viagem lisérgica extrema, apontava para um caminho que a banda voltaria a seguir.
Outros grupos, como o power trio formado Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, o CREAM, também aproveitaram o momento para lançar trabalhos mais experimentais. No caso do Cream, "Disreali Gears" foi um prato cheio tanto para os fãs de blues-rock quanto para os sedentos por rock psicodélico. Além disso, faixas como "Sunshine of Your Love" ganharam status de hino tanto pelo significado de sua letra, tanto pela estética apresentada.

Mas como se toda a experimentação e psicodelia das bandas californianas e britânicas não fossem suficientes, outros grupos resolveram elevar essa experiência a outros níveis, inaugurando uma cena que passaria a ser chamada de rock progressivo. 1967 seria palco para o lançamento de dois álbuns que se tornariam referência para o gênero. Um deles foi o primeiro trabalho do PROCOL HARUM, que levava o nome da banda. Além de trazer inúmeras inovações (dentre elas o destaque dado ao órgão Hammond tocado por Matthew Fish), o grupo foi responsável por uma das gravações de maior sucesso daquele ano "A Whiter Shade of Pale".
Os também britânicos do PINK FLOYD foram, por sua vez, responsáveis pelo lançamento de "The Piper at the Gates of Dawn", que elevou o nível de experimentalismo e psicodelia a níveis nunca antes alcançados. Composto quase que integralmente por composições do vocalista e guitarrista Syd Barrett, o álbum inaugurava uma nova fase de experimentações no rock.
Pode-se dizer, então, que 1967 foi marcado pelo clímax da psicodelia, com o lançamento de "Sgt. Pepper's" e um sem-número de produções do gênero. Além disso, o "Verão do Amor" foi responsável por aprofundar a onda experimentalista e disseminar o ideal "paz e amor".
Para ouvir algumas das canções mais importantes do ano 1967, e saber mais sobre esse ano histórico, ouça o MOFODEU #081, o terceiro da série Anuário, clicando no link abaixo:
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1965 no Rock: a Invasão Britânica e a eletrificação do Folk
1966 no Rock: do Monochrome ao Technicolor
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Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.
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