Rolling Stones: a história do Rock and Roll Circus

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Rolling Stones: a história do Rock and Roll Circus

Por Vitor Bemvindo | Fonte: Mofodeu

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"O fim dos anos 60 foi uma época de eventos especiais. Os nossos foram desastrosos". A bem humorada frase de Keith Richards traz uma reflexão interessante sobre o período mais efervescente da cultura do século XX. Num período em que festivais como Woodstock e manifestações artísticas vanguardistas dominavam o contexto intelectual, a inquietação dos ROLLING STONES só levou a banda a promover dois eventos fracassados: o festival de Altamont, em 1969, e o "Rock and Roll Circus", realizado um ano antes.

Capa do vídeo lançado, 28 anos após a gravação do Rock and Roll Circus

Há um certo rigor na avaliação do guitarrista dos Stones, já que se o Altamont foi realmente desastroso, por conta da enorme confusão que causou a morte de uma pessoa, o "Rock and Roll Circus", não chegou a fracassar, já que nem foi lançado. O circo patrocinado pelo quinteto britânico foi idealizado como um especial de televisão, que nunca chegou a ser exibido, vindo a ser lançado em VHS quase 30 anos mais tarde.

Os motivos para o "fracasso" da empreitada de Jagger e Companhia são muitos, mas antes de expô-los, é necessário entender a origem da idéia e sua concepção. Como Richards afirmou, no fim dos anos 60, havia uma grande confluência de idéias vanguardistas, incrementadas pelo espírito da contracultura e pelos embalos criativos de uma geração que não tinha limites para seus devaneios. Os BEATLES piravam na psicodelia de "Sgt. Pepper", lançavam filmes loucos como "Yellow Submarine" e Magical Mistery Tour". Artistas como JIMI HENDRIX e THE WHO se congregavam em festivais com outros grandes nomes da época revolucionando a música e propagando um ideal de paz e amor. Aliado a isso, o clima na capital britânica era regido pelo "Swinging London", que trazia uma transformação profunda nos costumes e efervescência cultural. E os Rolling Stones? O que faziam os Stones em todo esse contexto?

Bill Wyman, então baixista do grupo, afirmou certa vez que os Stones estavam sempre correndo atrás das tendências. A psicodelia do Sgt. Peppers passou a ser referencia para o "Their Satanic Magesties Request", mas o resultado, segundo o próprio Wyman, ficou muito aquém do esperado. Isso fez com que os Stones, principalmente na figura de Mick Jagger, tentassem trazer algo revolucionário, que colocasse a banda como uma referência, assim como os seus "rivais" de Liverpool.

Muitos apontam o "Rock and Roll Circus" como resposta ao "Magical Mystery Tour", filme protagonizado pelos Beatles, e transmitido na televisão pela BBC. Mas a idéia o "Circus" era tentar misturar vários aspectos da cultura da época: a reunião de vários músicos talentosos, característica dos festivais; o impacto das imagens, utilizadas pelas bandas em filmes e especiais de TV, e a psicodelia e vanguardismo típicos daquele momento.

Os Rolling Stones com seus figurinos circenses

A idéia original do circo do Rock and Roll era ainda mais ousada e, segundo Pete Townshend (guitarrista do Who), nasceu de um encontro entre ele, Mick Jagger e Ronnie Lane (guitarrista que havia sido do THE SMALL FACES e, naquele momento, fazia parte do FACES). Os três estavam em um estúdio para gravar alguns backing vocals para uma demo dos Stones, quando Townshend sugeriu a criação de uma turnê que excursionaria por todos os Estados Unidos, como um legítimo circo. As bandas, Rolling Stones, Who e Faces, viajariam em trens e teriam uma estrutura que seria transportada nesses mesmos veículos. Eles se instalariam em tendas e se apresentariam em uma lona que seria comprada do tradicional circo Barnum & Bailey.

Jagger chegou a contatar o projetista de palcos Chip Monck para esboçar a idéia de como seria a estrutura em que as bandas se apresentariam. Algumas reuniões ocorreram em Los Angeles para tentar colocar a idéia em prática, que previa, inclusive, a gravação de um documentário com imagens da apresentação. Entretanto, a idéia não foi adiante por conta da estrutura ferroviária norte-americana que, naquela época, encontrava-se em péssimas condições e priorizava o transporte da carga, dificultando o transporte de passageiro. A logística da turnê seria altamente sacrificante, já que os trens eram muito lentos e o deslocamento entre uma cidade e outra demoraria muito. Nos anos 70, Ronnie Lane chegou a excursionar com sua nova banda, SLIM CHANCE, mas o projeto tinha dimensões infinitamente menores do que seria a turnê circense de Stones, Faces e Who.

Frustrada a idéia original, Mick Jagger tentou adaptá-la para um filme que tivesse o mesmo espírito daquela surgida em conjunto com Townshend e Lane. Foi aí que ele chamou o diretor Michael Lindsay-Hogg, que já havia participado da produção de alguns vídeos promocionais da banda, e formulou o que seria o "Rock and Roll Circus".

A idéia era combinar números circenses com espetáculos de rock. Para isso, Jagger e Lindsay-Hogg queriam contar com um elenco de grandes bandas e combiná-las com um aspecto mambembe de um circo decadente. A idéia era contrapor a grandeza dos grupos a simplicidade e espontaneidade do circo. O vocalista dos Stones queria contar com nomes consagradas como os Beatles e o Who, além de novos talentos. A inviabilidade de contar com os Fab Four, fez com que outras bandas e artistas fossem chamados.

Rodado em um velho galpão londrino, conhecido como Roundhouse, o filme começa com todos os artistas que fariam parte do espetáculo adentrando o picadeiro, fantasiados de palhaços e outros personagens circenses. Mick Jagger e Keith Richards fariam o papel de mestres de cerimônia, apresentando as atrações do circo.

O diretor do filme conta que havia duas opções para ser a atração novata que abriria o especial. A primeira delas era o JETHRO TULL, que acabou participando da apresentação. A outra opção seria, segundo Lindsay-Hogg, o LED ZEPPELIN, que acabou sendo vetado porque os Stones achou que o grupo dava muita importância às guitarras. O Tull parecia uma opção mais palatável.

O grupo liderado pelo vocalista e flautista Ian Anderson passava, no entanto, por um delicado momento de transformação. Eles acabavam de demitir Mick Abrahams e estavam sem guitarrista naquele momento. Estava sendo testado em algumas sessões de estúdio um guitarrista não muito conhecido, mas que já tinha um certo nome no underground londrino, Tony Iommi. O músico, que ficaria mundialmente conhecido por seu trabalho com o BLACK SABBATH, teve uma passagem relâmpago pelo Jethro Tull.

A única apresentação do Jethro Tull com Tony Iommi

Foi Iommi que faria o papel de guitarrista na apresentação do Tull no Rock and Roll Circus. O que ele fez foi, literalmente uma figuração, já que por conta do pouco entrosamento entre os membros da banda, eles optaram por fazer um playback de "A Song For Jeffrey", primeiro single, retirado do recém-lançado "This Was".

Essa seria a única apresentação de Tony Iommi com o Jethro Tull. Pouco depois ele seria demitido e voltaria a integrar o Earth, banda que mais tarde se tornaria o Black Sabbath. Anderson explica que a demissão de Iommi aconteceu porque eles consideravam que, apesar de talentoso, o guitarrista teria dificuldades para se adaptar ao ecletismo que estavam buscando para banda. Segundo o vocalista, eles não queriam tocar apenas "blues de brancos" como haviam feito no primeiro álbum e como era o estilo do então bluezero do Earth.

Houve uma dificuldade para executar o playback de "A Song For Jeffrey", por mais que isso possa parecer contraditório. A canção contava com uma gaita e flauta executadas por Ian Anderson, obviamente, tocadas uma de cada vez, em estúdio. Havia a preocupação dos membros da banda de que a apresentação não parecesse muito falsa, e a solução encontrada foi a de que o baixista Glenn Cornick ficasse encarregado por fingir que tocava a gaita. A apresentação ficou bem realista.

A segunda apresentação do filme, para muitos, é um dos pontos altos do "Circus". Alguns rumores dizem respeito que um provável motivo do engavetamento do filme seria o show do The Who, que supostamente teria deixado os Stones com medo de comparações. Mas apesar da energia demonstrada no palco, o Who passava por um momento de baixa em sua carreira. Após o lançamento de cinco álbuns a banda não conseguia deixar de fazer parte de um segundo escalão das bandas inglesas e só era elogiada pelas suas performances ao vivo. Ainda faltava um grande trabalho, que viria no ano seguinte, com o "Tommy".

A apresentação do Who no Circus
Mesmo assim, o Who brilhou no picadeiro do Rock and Roll Circus. É até difícil saber se a performance é ou não um playback, devido a competência na execução da canção. A impressão que se tem é que há uma edição de duas tomadas, uma na qual a banda realmente toca e outra em que eles apenas se exibem fazendo gracinhas como a de Keith Moon que molhou as peles de sua bateria para quando a tocasse espirrasse água fazendo um efeito interessante. Não há nenhum depoimento que confirme essa edição, nem desminta a hipótese de playback. Mesmo assim, a performance de "A Quick One While He's Away", do album "A Quick One (Happy Jack)", de 1966, entraria para a história da banda.

Uma particularidade sobre essa música é que ela é considerada uma mini-ópera, ou opereta de rock. A idéia da canção surgiu como uma paródia de uma ópera de Giuseppe Verdi chamada "Gratis Amatis". A estrutura da música foi utilizada em diversas outras canções do Who, e motivou que a banda compusesse uma opera inteira como um álbum, o que viria a ser feito em "Tommy" (1969) e "Quadrophenia" (1973).

Os integrantes do Who teriam uma participação importante no Circus, não só pela sua apresentação, mas também pela presença na platéia durante os números de outras bandas. Quando os Stones se apresentaram, em plena a madrugada, Moon e Townshend pareciam bem mais contentes do que os músicos que tocavam, e foram responsáveis por animar todos que estavam no público.

O terceiro convidado do Circus foi o bluesman Taj Mahal. Os Stones conheceram Taj Mahal em uma apresentação de sua banda na famosa boate Whisky A Go-Go, em Los Angeles. O músico norte-americano conta que fazia um solo de gaita com os olhos fechados e quando os abriu viu Mick Jagger, Keith Richards, Eric Burdon e Hilton Valentine (os dois últimos do ANIMALS) dançando loucamente na platéia. Quando terminou o seu show na boate californiana, o bluezeiro sentou-se com os Stones e conversou com os britânicos durante toda a noite, iniciando uma amizade entre eles.

O convite para Taj Mahal participar do Rock and Roll Circus foi uma surpresa para o músico e seus companheiros de banda. Repentinamente o empresário da banda recebeu oito passagens para Londres para participar do especial. Mas tudo foi tão corrido que os músicos entraram na Grã-Bretanha como turistas, sem os vistos de trabalho. O medo de uma deportação fez com a apresentação de Taj Mahal fosse gravado um dia antes do previsto. Ele executou quatro canções: "Checkin' Up On My Baby" e "Leaving Truck", do primeiro disco "Taj Mahal" (1968); "Corina" e "Ain't that a Lot of Love", do segundo álbum "The Nacht'l Blues" (do mesmo ano). Essa última música foi a que entrou na edição oficial do filme. As outras três ficaram como bônus do DVD, lançado somente em 2004.

Uma das coisas mais interessantes da banda de Taj Mahal era a interação entre músicos de diversas etnias. O grupo contava com um guitarrista índio americano Jesse Davis, baixista Gary Gilmore e baterista Chuck Blackwell de origem inglesa, além do próprio Taj Mahal que tinha ascendência afro-americana, indiana e caribenha. Essa mistura atraiu o interesse de um dos convidados do evento, John Lennon, acabou ficando fascinado com a banda e chegou a trabalhar com Jesse Davis.

John Lennon acompanhou as gravações com o seu filho Julian

Trinta anos depois, Taj Mahal e os Rolling Stones voltariam a se encontrar profissionalmente. No disco ao vivo "No Secutity", de 1998, eles tocam juntos a canção "Corina".

Os musicais foram intercalados por números circenses de qualidade duvidosa. Eles eram propositadamente ruins, pois era a intenção do diretor colocar todos os artistas num nível de simplicidade e espontaneidade típicas de um circo. Um dos números contou com a participação da super modelo Donyale Luna junto com um engolidor de fogo. Em uma segunda apresentação, Luna acariciava um tigre. Essa parte foi cortada da edição final e entrou como extra do DVD. Infelizmente a modelo viria a falecer anos mais tarde por envolvimento com drogas.

Depois de uma das performances circenses, era a vez de Marianne Faithfull entrar no picadeiro. A cantora chamava mais a atenção pelos dotes físicos do que propriamente pelo seu talento vocal. Na ocasião ela namorava Mick Jagger, a quem conhecia desde 1965, quando gravara uma versão de "A Tears Go By".

A bela Marianne Faithfull, então namorada de Jagger

No Circus, a jovem cantora fez um playback de "Something Better" sentada no centro do palco. Tomadas feitas de uma grua tentavam ressaltar a beleza da moça em contrapondo a uma canção nada animadora. Em depoimentos posteriores, os músicos diziam que Faithfull era uma das mais paparicadas dos bastidores, mas que, ao mesmo tempo, sofria com as gozações de alguns recalcados que a viam como um estereótipo de loira-burra.

Marianne Faithfull teria uma carreira bem-sucedida mesmo depois de se desvincular dos Rolling Stones. Ela se aventuraria também como atriz, mas, antes disso, ficaria famosa por namorar outro Stone: Keith Richards.

A participação de John Lennon no Rock and Roll Circus foi um dos pontos altos do especial. Depois da negativa de ter os Beatles no evento, Mick Jagger queria ter Steve Winwood (então no TRAFFIC) como atração. O tecladista/vocalista, no entanto, estava rouco e exausto após uma turnê de sua banda e acabou recusando o convite. Foi aí que eles voltaram a pensar nos Beatles, só que de forma individual. Inicialmente, pensaram em Paul McCartney, mas acharam que ele demoraria a responder o chamado e acabaram optando por Lennon, definido por Michael Lindsay-Hogg como mais entusiasmado.

John logo aceitou participar e disse que levaria Eric Clapton (que estava estourado com o CREAM). Foi assim que surgiu a idéia de formar um supergrupo para o evento. Os Stones convidaram Mitch Mitchell (baterista do JIMI HENDRIX EXPERIENCE) e Keith Richards completaria a banda, só que tocando baixo. Eles escolheram uma canção dos Beatles para fazer o primeiro número, "Yer Blues", que havia sido lançada meses antes no White Album.

John Lennon, Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell formaram o Dirty Mac

O grupo escolheu o nome de THE DIRTY MAC, uma espécie de paródia com FLEETWOOD MAC que estava em evidência na época. A apresentação da banda contou com uma performance estranha da esposa de Lennon, Yoko Ono. Ela entraria num saco de pano preto no começo do número e ficaria agachada e fazendo movimentos estranhos durante toda a execução de "Yer Blues". Quando a canção terminou, Ono saiu "triunfalmente" do saco, ofuscando a apresentação de outro convidado do Dirty Mac, o violinista francês Ivry Gitlis.

Segundo a própria Yoko Ono, o saco fazia parte de uma obra de arte performática e tinha grande importância no seu currículo artístico. Apesar de não ter sido privilegiada pelas câmeras, Ono dizia que John era um entusiasta da idéia, e chegou a fundar para ela uma companhia artística chamada "Bag Productions". A própria Ono admite que apesar de ter sido encorajada por John, o vilonista não ficou muito satisfeito com a aparição repentina.

O constrangimento de Gitlis ficou evidenciado quando o Dirty Mac iniciou uma jam com o violinista e Ono começou a "cantar", berrando sons aparentemente sem sentido. A improvisação ficaria conhecida como "Whole Lotta Yoko" e apesar de ser muito criticado pela maioria, foi encarada como uma grande ironia para artistas como Pete Townshend. O guitarrista do Who acha a apresentação deliciosa. Para ele o contraste entre aqueles grandes nomes, fazendo uma ótima improvisação, contrasta perfeitamente com os berros de Yoko.

Após a apresentação da superbanda se apresentariam os anfitriões Rolling Stones. O problema é que a organização do evento foi extremamente caótica. As filmagens começaram por volta das 10 horas da manhã daquele 11 de dezembro de 1968. Jagger e seus companheiros só começaram a tocar depois das 2 da madrugada, quando todos já estavam exausto, inclusive a banda.

Jagger foi o principal articulador de tudo que teve a ver com o Circo. Ele coordenou os bastidores e ciceroneou os convidados. Além disso, ele cuidou de cada detalhe juntamente com o Lindsay-Hogg. O cansaço, porém, pouco abateu o vocalista, mas seus companheiros depois de muitas horas de espera e esbórnia nos bastidores acabaram abatidos.

Jagger se diverte nos bastidores, com seus convidados do The Who
Alguns relatos, como os de Townshend e Anderson, dão conta que não houve muita farra por trás dos picadeiros. O clima era, de certa forma, familiar. O diretor do especial conta que havia confraternização entre os músicos que faziam jams acústicas tocando violões e batucando nas mesas. É claro que rolou um bocado de bebida e de drogas, mas nada de muito pesado, nada de destruição, nada de ostentação comum à vida de rockstar. O clima era circense, tanto no picadeiro, quanto na coxia.

Mas a harmonia entre as bandas não conseguia esconder o evidente desconforto entre os membros dos Stones. Havia um sério problema de desentendimento entre o guitarrista Brian Jones e seus companheiros. Os Stones estavam cansados dos excessos de Jones. Tanto Townshend, quanto Anderson, afirmam que todos os músicos presentes sabiam que aquela seria a última noite do guitarrista com seus parceiros.

Lindsay-Hogg conta que, na véspera da gravação do especial, recebera uma ligação desesperada de Brian Jones, na qual ele dizia, aos prantos, que não estaria presente para as filmagens. Segundo o diretor, o guitarrista não entendia porque os seus companheiros o tratavam com tamanha frieza.

As ameaças de Jones não se confirmaram e, no dia seguinte, ele estaria lá no galpão. A presença dele, no entanto, não ajudou muito na gravação do especial. Todos perceberam que a banda não tinha mais a mesma sintonia dos primeiros anos.

O cansaço e o clima pesado entre Brian Jones e os demais Stones se refletiram na performance da banda. Todos pareciam abatidos com exceção do vocalista. Jagger, apesar de todo o cansativo dia, parecia estar possuído. Ele parecia incorporar o espírito do empreendimento, querendo fazer daquele um momento histórico. Só que os demais membros da banda não estavam na mesma sintonia.

Eles abriram com "Jumpin' Jack Flash", numa versão intimista, bem distinta da original e das execuções ao vivo posteriores. O show seguiu com duas músicas menos conhecidas do recém-lançado "Beggars Banquet": o blues "Parachute Woman" e a balada "No Expectation".

O clima não melhorou muito em "You Can't Always Get What You Want". Mas foi em "Sympathy For The Devil" que o show dos Stones se tornou histórico. Mick Jagger, que já vinha se sobressaindo desde a primeira canção, tomou conta do palco dando uma aula de como um vocalista deve se apresentar. Ele fez uma apresentação que surpreendeu até mesmo o diretor do especial. Sem avisar nada a ninguém, ele tirou a camisa durante um solo e exibiu umas "tatuagens" de figuras demoníacas maquiadas no corpo. Os Stones contavam com o reforço do pianista Nick Hopkins e do percussionista Rocky Dijon, que deram uma sonoridade ainda melhor para aquele viraria um clássico da banda.

Mick Jagger e suas "tatuagens" demoníacas
A noite foi encerrada com um playback de "Salt of the Earth", quando os Stones sentaram junto a platéia e aos seus convidados, fingindo cantarem todos juntos. Destacam-se, na cena, os membros do Who, especialmente Keith Moon, que havia pego diversos estofados dos assentos e coberto o corpo como uma fantasia. Os "Whos" animaram não só o capítulo final, mas em diversas partes do show dos Stones é possível vê-los dançando e animando a platéia.

Era um fim de um dia longo, exaustivo, divertido, mas ao mesmo tempo, tenso.

O resultado final ficou decepcionante, segundo a crítica dos próprios Rolling Stones. Com essa desculpa, eles engavetaram o projeto, que só viria a ser lançado 28 anos depois.

A hipótese mais provável para o arquivamento do "Rock and Roll Circus", no entanto, estaria na relação dos Stones com Brian Jones. O guitarrista foi demitido da banda apenas três meses depois do evento e, pouco depois, ele apareceria morto na piscina de uma fazenda, em circunstâncias não esclarecidas.

Antes da morte de Brian Jones, os Stones pensaram em refazer a sua parte do show no Rock and Roll Circus. A idéia de Jagger era fazê-lo em Roma, em pleno o Coliseu. Alguns jornais italianos chegaram a publicar manchetes como: "Onde os leões rugiram um dia, agora os Stones vão tocar!". O diretor do especial achava que seria um bom conceito, já que o Coliseu era o circo original. Porém, não houve autorização da câmara de vereadores romana. A idéia, por isso, foi abandonada por completo.

Assim, as fitas acabaram ficando jogadas no escritório de Ian Stewart, produtor de turnês da banda. Quando, por problemas ficais, os Stones tiveram que transferir seu escritório para a França, as latas com os filmes chegaram a ficar "guardadas" no banheiro. Foi aí que Stewart levou o material para casa.

Quando o co-fundador dos Rolling Stones morreu, em 1985, as fitas foram encontradas em um celeiro, em meio ao feno. Foi aí que os remanescentes da banda reviram o especial e resolveram lançaram.

Ian Anderson, do Jethro Tull, talvez tenha a melhor percepção do que foi o evento, não só para a carreira de sua banda, mas para história do rock "O Circus foi mais importante para mim do que eu imaginava na época. Foi muito teatral e rocambolesco, bem no estilo do showbiz britânico. Talvez tenhamos herdado algo da estranha teatralidade humrística do Rock and Roll Circus, do Monty Pyton, dos Goons e outras empreitadas humorísticas da época".

Keith Richards, por sua vez, afirma que "foram dois dias de loucura total. Quando terminamos parecia que estávamos desanimados, tínhamos corrido demais. Só depois percebemos que aquilo não era só um amontoado de performances. Foi um evento muito especial. Um grupo único de pessoas, fazendo coisas que normalmente não faziam".

O clima de camaradagem entre os músicos e o desfile de talentos provam o quanto especial foi aquele evento, mas também toda uma época em que os interesses comerciais não estavam acima da arte, ao ponto de uma superprodução ser engavetada por seus idealizadores por acharem que não estava como devia estar. Apesar da baixa qualidade de alguns pontos do especial, não há dúvida que o Rock and Roll Circus é um documento de uma época especial da história do rock.

Para entender um pouco daquele clima, não deixe de ouvir o especial preparado pelo MOFODEU sobre o Rock and Roll Circus. Nele, você poderá ouvir algumas das canções executadas no evento, além de se informar de uma forma divertida e bem humorada.

Para ouvir, basta acessar: www.mofodeu.com.

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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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