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Antônio Carlos Monteiro: A coleção do "ACM" da Rock Brigade

Por Ricardo Seelig
Postado em 11 de outubro de 2006

Antônio Carlos Monteiro é um dos mais respeitados críticos musicais do Brasil. Tony, como prefere ser chamado, é conhecido pelo seu trabalho na Rock Brigade, onde há mais de uma década produz, todos os meses, entrevistas, matérias e artigos sobre rock e heavy metal. Extremamente bem humorado, ele nos recebeu para um agradável bate papo, onde falamos sobre música, curiosidades e, é claro, a sua coleção.

Fotos: Cristina Mochetti

Você lembra como foi o seu primeiro contato com a música e como descobriu o rock e o heavy metal?

Acho que sempre fui apaixonado por música. Desde moleque já curtia os Beatles, montava bandinhas pra dublar os conjuntos da Jovem Guarda na escola, etc. O rock e o heavy metal vieram como conseqüência mais do que natural disso.

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Toda grande coleção tem seu "ponto zero", o seu marco inicial. Aquela hora em que nós, colecionadores, percebemos que somos diferentes dos nossos amigos, que apenas "consomem" música. A dedicação é maior, o investimento é maior, o cuidado com tudo é maior. Quando você percebeu que estava se transformado de um simples fã em um colecionador?

Dá pra colocar isso em duas fases. Primeiro, quando eu era bem moleque, com uns 7 anos, os Beatles estavam no auge. Quando eles lançaram "Help!" eu pirei! Enchi o saco da minha mãe até ela comprar o compacto pra mim. O disco está comigo até hoje! Outra raridade da minha infância é o compacto de "Jumpin’ Jack Flash", dos Stones, lançado em 68 e que também continua fazendo parte do meu acervo.

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Mas o "marco zero", como você muito apropriadamente chama, foi em 1972, e eu tinha de 13 para 14 anos. Cheguei despretensiosamente numa loja de discos, vi uma capa vermelha com a cabeça de uma cobra e pedi pra ouvir. Na hora em que começou o riff da música inicial, percebi que tinha entrado num caminho sem volta. O disco era "Killer", de Alice Cooper, e a música, "Under My Wheels".

Quantos álbuns você possui?

Aproximadamente 1.779 CDs, 689 LPs, 307 cassetes, 86 VHS e 104 DVDs. Dá um pouquinho menos que 3 mil títulos. Acontece que aproveitei o feriado de 7 de setembro pra dar uma geral nos meus trecos. Nessas, atualizei a contagem.

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Esta foi a resposta mais precisa da história da Collector´s Room, com certeza (risos). Você sabe dizer de quais bandas você possui mais material?

Sem dúvida das minhas bandas favoritas: Rolling Stones e Alice Cooper. Desses, tenho tudo em CD, quase tudo em vinil e mais um monte de piratas, coletâneas, picture-discs, etc.

Além dos CDs, vinis e DVDs, quais outros materiais você coleciona?

Atire a primeira coleção de latas de cerveja o rockeiro que não seja um colecionador compulsivo! Coleciono um monte de coisas: latas de cerveja (nada paranóico, simplesmente cato aquelas que acho legais), revistas (tenho a coleção completa da Brigade, apesar ter começado a trabalhar nela na edição 41; ou seja, já à colecionava antes de entrar nela), miniaturas de carros e por aí vai.

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Coisas estranhas também: tenho uma coleção em VHS com todos os episódios de meu seriado favorito, "Columbo" (se bem que minha filha está me dando as séries em CD; chega aniversário, Natal ou Dia dos Pais, já sei o que vai rolar. E adoro!) e coleciono objetos (lia-se: quinquilharias) em formato de guitarra. Tenho chaveiros, guitarras entalhadas em vidro, esculpidas em durepóxi e até um apontador de lápis em forma de Statocaster! Mas a favorita é um pingente em ouro, também com shape da Strato, que minha mulher mandou fazer e me deu num aniversário de casamento. Esse não sai do meu pescoço, é meu talismã ("my mojo", como diriam os blueseiros)!

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Essa tara por guitarras se explica – em parte… – porque eu também engano como guitarrista em duas bandas: Big Bang, que já existe há oito anos, é formada por um pessoal, digamos, mais maduro e faz rock clássico dos anos 70; e Jack Flash, que é um tributo aos Rolling Stones e estréia dia 21 de outubro lá em Jundiaí. Olha o jabá aí: www.bigbangrock.cjb.net e www.jackflash-stones.com.br. Ah, e também tenho duas Stratro de verdade, a Stephanie e a Caroline.

Vamos voltar um pouco no tempo então: qual foi o primeiro álbum que você comprou e por que?

Bem, já estou com 48 de rodagem, então temos que voltar MUITO no tempo. Acho que o primeiro foi em 69 ou 70, uma coletânea do Steppenwolf, que também está comigo até hoje.

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Qual o item que você considera o mais raro da sua coleção?

Tem muita velharia que o tempo se encarregou de tornar rara. Aqueles dois compactos, de "Help!" e "Jumpin’ Jack Flash" se enquadram nessa categoria, assim como esse LP do Steppenwolf.

Eu tenho também algumas coisas curiosas, como um CD de uma banda de drag queens (!!) chamada Temptress e que faz um rock’n’roll muito legal, bem na linha New York Dolls (outra banda que eu adoro!). Mas o mais interessante talvez seja outro.

Deixa eu contar uma historinha. Como já disse, sou muito fã de Alice Cooper. Aí, descubro que o Michael Bruce, que era um dos guitarristas que tocava com ele e é co-autor de todas aquelas músicas maravilhosas, tipo "Elected", "Billion Dollar Babies", "School’s Out", tinha lançado um livro contando a história da banda. Comprei o livro e vi que lá tinha o endereço dele. Dei uma de louco: escrevi uma carta bem bonitinha, juntei um exemplar da BRIGADE e comentei, entre outras coisas, que buscava há anos pelo CD "Battle Axe", da Billion Dollar Babies, que foi a banda que ele montou com o batera Neil Smith e o baixista Dennis Dunaway quando os três saíram do Alice Cooper Group, lá no meio dos anos 70. Eu tinha esse disco em vinil (depois conto a história dele) mas não achava em CD. O tempo passou e eu esqueci da história até que, num sábado de carnaval, chegou um envelope em casa: foi mandado pelo próprio Bruce, com uma carta manuscrita falando o quanto ele tinha gostado de eu entrar em contato e com uma cópia em CD-R do tal disco, feita pessoalmente por ele! Tempos depois, consegui o CD original, inclusive com bonus-tracks e tudo o mais, mas esse que o próprio Michael Bruce gravou pra mim não tem preço!

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Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Olha, foram duas vezes. Teve um aniversário meu, lá por volta dos meus 15 anos, que meu pai me deu uma grana de presente. Voltei pra casa carregado. Lembro que no pacote estava o "Houses Of The Holy" que, pra variar, está ainda comigo. Outra foi logo no início dos anos 90. Comprei meu primeiro CD player e tinha que comprar algo pra tocar nele. Eu estava numa fase de bolso cheio e parei na primeira loja de discos do próprio shopping onde eu estava e rapei tudo que eles tinham de Stones. Levei um carregamento pra casa. O interessante é que isso aconteceu dias antes de o Collor fazer aquela barbaridade de confiscar nossa grana. No fim das contas, o demente do Color acabou liberando o dinheiro que estava no banco pra pagar algumas coisas específicas, entre elas compras com cartão de crédito. E eu tinha comprado o CD player e os CDs com cartão. Me dei bem.

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Quantos álbuns em média você compra por mês?

Hoje em dia é muito raro comprar algo, por dois motivos básicos: 1) Tudo que interessa acaba pintando na Redação e a gente cata; e 2) A safra atual está um lixo, raramente pinta algo que realmente valha a pena querer levar pra casa.

Qual o item que você tem mais ciúmes e não venderia de jeito nenhum?

Sou um colecionador. Compulsivo. A resposta é TODOS!!!!

Quais foram os discos que deram mais trabalho para conseguir?

O LP do Billion Dollar Babies, que eu comentei ali em cima, foi um. Depois de muito namorar a foto da capa numa matéria que eu tinha conseguido numa revista americana, alguém me deu o toque que uma loja na Galeria do Rock tinha uma cópia usada pra vender. Era dessas lojas que definia o preço do disco através de cores. Assim, todos os discos que tinham um adesivo vermelho custavam um determinado valor, os com adesivo verde outro e por aí ia. Claro que meu hábito de sempre cumprir a lei se confirmou: em atenção a todos os artigos da Lei de Murphy, esse disco era o ÚNICO da loja com adesivo dourado e tinha um preço simbolicamente compatível. Vendi a alma mas ainda tenho o disco.

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Outro que foi bizarro foi o "Still Life", dos Stones. É um disco ao vivo, gravado na tour de "Tattoo You", em 82, nada de muito raro ou de especial. Quando foi criado o CD, comecei a montar a coleção dos Stones nesse formato e fui pegando os mais raros primeiro. Quando vi, tinha tudo, inclusive alguns bootlegs, mas faltava esse, que tinha saído de catálogo. Nessa época, ainda não tinha internet, então, botei uma verdadeira rede de amigos atrás do disco – tinha mais de dez chegados de olho pra ver se pintava uma cópia. Um dia, um desses caras me deu uma dica e eu comprei um disco bizarro: é uma versão pirata de "Still Life", fabricada na Austrália e que tem meia dúzia de faixas bônus. Então, funciona assim: você ouve a introdução, as músicas que constavam no disco original, a música que fecha o show (com os fogos de artifício estourando ao fundo e tudo o mais) e… mais seis músicas, como se a banda simplesmente tivesse resolvido voltar ao palco e continuar o show. Tempos depois, o disco original foi relançado no Brasil, remasterizado e tudo, e eu catei um pra mim. E esse australiano acabou virando uma das pelas mais exóticas da minha coleção.

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Que itens você, apesar de estar à procura há um certo tempo, ainda não conseguiu para a sua coleção?

Cara, o único "acidente de percurso" que aconteceu na minha coleção foi ter perdido um disco bem raro. Lembra do "Sticky Fingers", aquele disco dos Stones que tem uma calça na capa e que, em alguns vinis, vinha com zíper de verdade? Eu tinha um CD com zíper! Um dia, ele sumiu e eu não achei de novo até hoje. Se bem que, por um lado, foi bom: a figura que me deu esse disco se mostrou uma pessoa abaixo da crítica nos quesitos moral, caráter e honestidade, e tenho certeza que não faria bem pro astral da minha casa manter lá dentro algo oriundo de alguém tão negativo assim. Um dia, acho esse disco de novo e compro. Aliás, se alguém souber onde encontro, mande um e-mail: [email protected].

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Você possui algum lugar específico para guardar a sua coleção? E, além disso, tem alguma dica de como conservar todos estes itens?

Quando eu mudei pro apartamento onde moro hoje, mandei fazer um móvel com gavetas pra guardar os CDs. Faz dez anos que mudei, as gavetas já deram o que tinham que dar. Aí, vi na casa de um amigo um armário de aço, aberto, perfeito pra guardar, expor e até mesmo "namorar" seus discos. Acontece que eu não sei que aritmética de jerico que eu utilizei, porque calculei que um armário seria suficiente. Reordenei os móveis da sala, comprei o dito cujo, passei umas três horas montando (como eu sou ruim nessas coisas!) e… não coube nem 30% do que tenho nele! Hoje, tem parte nas gavetas e parte no tal armário. Já fiz a conta de novo – e direito… – e pretendo comprar mais uns três armários pra acomodar tudo e mais meus DVDs. Resta criar coragem, porque vou ter que fazer uma mudança meio radical na minha casa.

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Conservar CD não tem mistério. Eu mantenho todos em pé em com as caixinhas tinindo de novas! Já o vinil é mais complicado. A primeira dica: sempre guardá-los em pé, Outra coisa: aquele plástico que protege o vinil, com o tempo, esfarela. O negócio é estar sempre trocando por novos. Conheço um sebo que sempre tem esse plástico à venda.

Eu queria que você fizesse agora um top 5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

Vamos lá, essa é fácil:

1) "Tattoo You", Rolling Stones – esse é o "disco da ilha deserta"
2) "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band", Beatles
3) "Love It To Death", Alice Cooper
4) "Machine Head", Deep Purple
5) "II", Led Zeppelin

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Quais são, para você, os dez melhores álbuns de todos os tempos ?

Aí, a coisa muda um pouco de figura – e fica muito mais séria. Alguns até batem com a lista daí de cima, mas aqui não é só uma coisa passional como na pergunta anterior, tem um lado histórico envolvido. Mas vamos lá:

1) "It’s Only Rock’n’Roll", Rolling Stones
2) "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", Beatles
3) "Killer", Alice Cooper
4) "Rock And Roll Over", Kiss
5) "Machine Head", Deep Purple
6) "Volume I", Black Sabbath
7) "II", Led Zeppelin
8) "The Number Of The Beast", Iron Maiden
9) "Pump", Aerosmith
10) "Apettite For Destruction", Guns N’Roses

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Que grupos você tem ouvido ultimamente e quais têm chamado a sua atenção?

A safra anda ruim, como eu já disse. Nos últimos tempos só me impressionaram o rock’n’roll festeiro de Andre W.K., Wolfmother (hard setentista com cara de século XXI) e Jet (parece Stones no começo de carreira).

Quais álbuns as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Todo mundo tem seus esqueletos no armário! Então, lembrando que eu era adolescente nos anos 70, que foi a era da disco music, acho Village People divertidíssimo! É aquele papo: você já conversou com um radical de esquerda? O discurso do cara é tão extremado, que ele acaba parecendo um defensor da direita – ou seja, a coisa anda em círculos. No caso do Village People, é tão ruim, mas tão ruim, mas tão ruim que acaba ficando legal! Tenho duas coletâneas deles, uma delas com vídeos: "Y.M.C.A.", "In The Navy" e o clássico dos clássicos "Macho Man". Impagável!

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É normal entre os colecionadores a troca de materiais. Sendo assim, que item você vendeu e se arrependeu depois?

Não sou um colecionador normal: eu NUNCA me desfaço de nada, mesmo que tenha certeza que nunca mais vou ouvir aquele disco. Cada louco com sua mania, certo?

O rock já está aí há mais de cinqüenta anos e passou por diversas fases neste tempo todo. Sendo assim, eu gostaria que você indicasse aos nossos leitores os álbuns que você recomenda das décadas de sessenta até hoje.

Tem alguns que se repetem, de novo. Vamos nessa:

Anos 60: "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", Beatles – acho até que o rock (ou talvez a música, mesmo) se divida em "ASP" e "DSP" – "Antes de Sgt. Pepper’s" e "Depois de Sgt. Pepper’s". E isso não só em termos de música em si, mas de produção, também.

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Anos 70: "IV", Led Zeppelin – guitarras pesadas, flertes com outros estilos, virtuosismo, improviso. Esse disco tem isso tudo e sintetiza muito bem a década mais rica da história do rock.

Anos 80: "The Number Of The Beast", Iron Maiden – os anos 80 foram a era do heavy metal e o Iron se encarregou de ditar as regras do estilo.

Anos 90: "Nevermind", Nirvana – não tem disco (ou banda) que represente melhor o que foram os anos 90 do que este.

Anos 00: cara, até agora tá valendo o numeral aí: zeeeero!! Até agora, pelo menos, não pintou nada que emocionasse a ponto de ser considerado um marco da década. Vamos torcer, ainda faltam quatro anos…

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Como consegui viver de Rock e Heavy Metal

Você, ao lado de toda a equipe da Rock Brigade, fizeram e ainda fazem história no jornalismo musical brasileiro. Conta pra gente como você entrou na revista e como é um dia aí na Redação.

Eu comecei no jornalismo musical em 85. Por uma daquelas incríveis coincidências, minha primeira cobertura como jornalista de rock foi no dia 13 de julho de 1985, quando fui assistir ao show de lançamento do LP "Nós Vamos Invadir Sua Praia", do Ultraje A Rigor, em São Paulo. No mesmo dia, acontecia, nos EUA e na Inglaterra, o Live Aid e, por causa disso, 13 de julho viria a se tornar Dia Mundial do Rock. Na época, eu trabalhava nas revistas Roll, Metal e Mix, que eram todas da mesma editora. Ela ficava no Rio e eu era o setorista em São Paulo. Com o fim da revista, em 89, fui chamado para colaborar com a Brigade. Comecei nesse mesmo ano. Em 92, convidaram-me para assumir o cargo de Jornalista Responsável e cá estou eu. Minha primeira matéria saiu na edição 41, hoje estamos concluindo a 243. Ou seja, são 203 edições…

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Já o nosso dia aqui não é muito diferente do dia em qualquer outro escritório. Só que, em vez de caras programando computadores ou analisando o mercado financeiro, por exemplo, são caras ouvindo rock e trabalhando em críticas, entrevistas etc. Claro que é muito legal, mas, antes de tudo, é trabalho.

Dentro da Redação da revista todos possuem o mesmo gosto musical ou cada um curte um estilo mais específico?

Negativo, cada um curte um troço. E dá cada pau que você nem imagina! Mas tudo numa boa, no maior respeito. Resumindo, eu fico mais no rock setentista, o Ricardo Franzin dá a vida pelo Ramones e o Fernando Souza Filho é "maidenmaníaco".

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Na sua opinião, quais são os pontos fortes e fracos do mercado musical brasileiro de música pesada, tanto fonográfico quanto editorial. O que está bom e o que preciso melhorar?

O mercado da música pesada por aqui começou, de fato, após o primeiro Rock In Rio, em 85. Ou seja, são 21 anos de existência, o que, na minha opinião, era tempo mais do que suficiente para que tivesse um maior profissionalismo. O que você vê de amadorismo em todos os aspectos (mídia, gravadoras, bandas, produtores, empresários etc.) é brincadeira! Neguinho pensa que só curtir o negócio é suficiente pra se aventurar profissionalmente nele. Não é bem assim. De todo modo, a gente percebe, como ponto positivo, que o Brasil faz parte do cenário mundial do heavy metal. Hoje, nossas bandas são conhecidas lá fora, praticamente todos os discos importantes saem aqui, as bandas não deixam de incluir nosso país nas suas turnês mundiais etc. Ou seja, já se conseguiu muita coisa, mas tem muito por fazer, ainda. Muito trabalho pra mim, pra você e pra todo mundo que vive disso.

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Como jornalista você recebe bastante material das gravadoras. Você costuma guardar este material promocional, ou fica só com o que é do seu interesse?

Só seguro o que interessa. E, como já disse, não tem vindo muita coisa que emocione ultimamente.

Quem define quem vai resenhar o que dentro da Redação? É a afinidade com um grupo, o conhecimento da obra daquele artista que pesa mais na hora de tomar esta decisão?

É uma divisão mais natural, mesmo. Velharia cai na minha mão, punk acaba ficando com o Franzin, esquisitices com o Fernando [risos]. Temos colaboradores que também são meio que especializados em determinados estilos: tem um que adora podreira, outro gosta mais das bandas mais modernas, tem aquele que prefere AOR/hard rock e por aí vai. Agora, como eu já disse, isso aqui é trabalho. Ou seja, quem se pretende um crítico de rock tem que ter competência e conhecimento para falar de qualquer estilo. Isso faz parte do preparo de quem quer se envolver nesse meio.

Estes anos todos na Rock Brigade certamente propiciaram a você contato com diversas pessoas interessantes, incluindo muitos ídolos seus. Conta aí pra gente alguma história interessante que você viveu por causa da sua paixão pela música.

Cara, dá um livro! Teve algumas coisas bem interessantes, como entrevistar, cara a cara, o Roger Glover, do Deep Purple. Eu cresci ouvindo "Machine Head" e, de repente, estou ali, diante daquele verdadeiro gentleman que está falando sobre o último disco da banda e me chamando pelo nome. Aliás, deixa falar uma coisa: acho que, evidentemente sem misturar as estações, não tem problema nenhum em pedir um autógrafo para seu ídolo. Tanto que outro item valiosíssmo da minha coleção é um autórgrafo do Glover, com dedicatória, no meu CD "Machine Head".

Teve um caso engraçado da época em que eu trabalhava na Roll. Foi em mil-novecentos-e-maria-fumaça. O Toy Dolls ia tocar aqui e lá fui eu pro hotel onde eles estavam pra entrevistá-los. Eu estava perto do lugar e fui andando até lá. Naqueles tempos, meu inglês era fraquinho que dava dó. Então, a gravadora ficou de mandar alguém pra salvar meu couro e servir de intérprete. Só que, bem na hora em que ia rolar a entrevista, acontece um indêncio exatamente na região onde ficava o hotel. O trânsito em São Paulo, que normalmente já é bem bacaninha, travou! Claro que o cara não conseguiu chegar e eu, como estava a pé, apareci lá na hora. Entro no hotel e lá estavam os três magrelos espremidos num sofá me esperando. Como o intérprete não chegava , resolvi arriscar: vamos na raça mesmo! Só que, pra piorar meu lado, os caras falavam cockney, que é uma espécie de gíria/dialeto que fala o pessoal de uma região de Londres. No cockney, algumas palavras são diferentes do inglês "normal" e a pronúncia de várias delas também muda. Pra resumir, foi quase uma entrevista por mímica! E o mais legal é que, umas duas horas depois, quando chegou o tal do intérprete, a gente deu uma repassada na história e concluímos que tínhamos nos entendido numa boa.

Tem uma outra história, ainda nessa entrevista. Poucas semanas antes da vinda do Toy Dolls, o Ramones tocou aqui pela primeira vez, no lugar que um dia se chamou Palace, e os carecas chegaram lá arrepiando. Na época, a segurança de shows era feita por uma temida empresa chamada Fonseca’s Gang, que tinha a fama de fazer qualquer abordagem na base do "teje preso". Pois os carecas deram um pau inesquecível nos bombados da Fonseca’s! E rolava um papo que a dose ia se repetir no show do Toy Dolls. Eu fiz duas ou três perguntas sobre isso e, na última, o Olga (guitarrista e vocalista), começou a rir, irônico: "Puxa, estou começando a ficar com medo, acho que esse show vai ser uma guerra!" Pois no dia do show, que aconteceu no extinto Projeto SP, na Barra Funda, os carecas chegaram de novo arrepiando: expulsaram todos que estavam na pista e barbarizaram meio mundo, até que um deles subiu no palco e deu um tranco olímpico no pobre do Olga! O coitado voou longe, com guitarra e tudo. O show parou, é claro, e tiveram que chamar um dos chefes dos carecas pra pedir pros comparsas se acalmarem. O show continou e rolou tenso mas sem problemas até o final. E até hoje eu me pergunto: será que, no meio do vôo, o Olga lembrou de mim??

Além disso, com absoluta certeza estar frente a frente com alguns ídolos quebrou alguns conceitos que você tinha sobre estas pessoas. Todo mundo têm curiosidade, então conta pra gente: quem são os mais gente boa e quem são os malas entre os músicos que você entrevistou?

Tem uma unanimidade aqui na BRIGADE: Yngwie Malmsteen. O cara é arrogante, chato, grosseiro e se acha a maior estrela do mundo. Tratou todo mundo mal aqui, não queria sequer se servir na mesa de frios da churrascaria rodízio onde o levaram pra comer. "Eu não me sirvo, sou servido", ou algo do tipo foi o que vociferou o palerma. Esse é um cara que ninguém agüenta ouvir falar o nome na Redação!

Felizmente, os gente boa são inúmeros: Dio, Alice Cooper, Doro Pesch, meu amigo Roger Glover (haja pretensão!), todos os Iron Maiden – a lista não acaba! Graças a Deus!

Que novidades a Rock Brigade está preparando para os seus leitores?

Bom, mais da metade do ano já se foi e aqui estamos, tentando trazer informações em primeira mão, matérias aprofundadas, críticas abalizadas e batalhando para manter aquilo que nos faz estar há 25 anos nesse mercado e que consideramos nosso maior patrimônio: credibilidade. E não esquece de dar uma olhada no nosso site: www.rockbrigade.com.br. Tem sempre um montão de novidades lá!

Bem Tony, muito obrigado pela entrevista, tenho absoluta certeza de que os nossos leitores vão curtir bastante o nosso papo. Este espaço fica livre para você.

Cara, se seus leitores curtirem metade do que eu curti respondendo esta entrevista, tá valendo! A gente tem mais quilometragem, então, tem mais coisa pra lembrar e mais história pra contar. Muito obrigado pelo convite e deixa eu confessar: quando fiquei sabendo que vocês tinham convidado o Fernando pra participar dessa seção, até rolou uma inveja – branca, mas inveja… Agora, estamos quites!!

Abração a todos que fazem o Whiplash.Net e parabéns pelo excelente trabalho.


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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.
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