A partir de junho, a Alemanha vai atrair todas as atenções do planeta enquanto se transforma no território oficial do futebol por conta da disputa da 18ª edição da Copa do Mundo. Mas se tem algo que se pode dizer com absoluta certeza sobre este país de 82 milhões de habitantes é que, além de sua vocação para a fabricação das melhores cervejas, os alemães também têm um talento inato para a música. Se você pensar nos primórdios da música eletrônica, é impossível não lembrar do Kraftwerk ou do Tangerine Dream. Rock alternativo? Vamos ao Atari Teenage Riot. Rock industrial? Aumenta o som para ouvir o Rammstein.











Vamos fazer uma checagem, então? Para quem curte hard rock (ou hard 'n metal, em alguns casos): Scorpions, Michael Schenker Group, Uli Jon Roth, Axel Rudi Pell, Pink Cream 69 e as musas Doro Pesch e Nina Hagen. Na escola do power metal germânico, os exemplos são inúmeros: Accept, U.D.O., Helloween, Grave Digger, Rage, Running Wild, Rebellion, Metalium, Primal Fear (e o Sinner, por tabela), Brainstorm, Gamma Ray, Blind Guardian e os mais recentes Freedom Call, Masterplan e Savage Circus. O "metal melódico" do Edguy. O metal mais tradicional do At Vance e do Majesty. O black metal do Agathodaimon. O white metal do Seventh Avenue. E o thrash tradicionalíssimo de Kreator, Destruction, Sodom, Angel Dust, Tankard e Exumer - além do Holy Moses, é claro. Isso sem esquecer artistas como Michael Kiske (ex-Helloween) e Jörg Michael (Stratovarius), que trabalham quebrando tudo em outras partes do mundo. E onde acontece o Wacken Open Air, o maior festival metálico do planeta? Bingo.
Já perdeu o fôlego? Então tente responder aí do seu lado do computador: afinal, qual é o segredo de tamanha tradição alemã no universo da música pesada? Será alguma coisa nas águas dos rios Reno e Danúbio? "Nós temos um desejo extremo de sobreviver e...bem, você sabe...só os melhores sobrevivem", brinca, em entrevista passada a este que vos escreve, Chris Botendahl, vocal do Grave Digger. "Não, eu não posso te dizer o motivo exato. Mas tivemos muita sorte de ouvir monstros sagrados como Black Sabbath, AC/DC, Judas Priest e aprender o que eles queriam dizer. Mas eu te digo: não importa o que aconteça, vocês têm a sorte de ter o melhor clima do mundo [risos]".
Outro músico conterrâneo de Botendahl também opina sobre o tema. "Eu não sei, deve ter a ver com a nossa história, na qual a música exerceu papel fundamental. Basta lembrar dos compositores clássicos alemães como Bach, Schumann, Wagner e Brahms", arrisca Ralph Scheepers, vocalista do Primal Fear, em bate-papo com o finado portal brazuca AOL.com.br. "O metal foi tão popular nos anos 80 que fez a garotada pensar: 'Eu quero tocar rock'. Não foi diferente na Alemanha. Só acho que a tradição musical alemã fez a quantidade de bandas surgidas nesta época ser um pouco maior".
Já o diretor e produtor da Radiobackstage.com, Vitão Bonesso, 44, arrisca uma explicação ligeiramente diferente. "Acho que a propagação do estilo se deu pelo fato de ser uma música jovem, que não compete com a musicalidade tradicional daquele país. No Brasil, temos vários gêneros musicais que dividem a preferência das pessoas, principalmente os jovens, fato que não acontece na Alemanha". De acordo com Vitão, o ponto de partida do rock alemão se deu com o furor causado pela música dos Beatles e das bandas que se apresentavam no famoso Star Club, em Hamburgo, desde o final da década de 50 até meados dos anos 60. "Em se tratando do lado mais pesado, a Alemanha, assim como muitos outros países, foram influenciados pelas bandas que introduziram uma forma mais pesada de se executar o rock - como Black Sabbath, Led Zeppelin... Daí vieram Lucifer's Friend, Nektar e, é claro, o Scorpions".
Por falar no Scorpions, aliás, é quase unanimidade que Klaus Meine e cia. teriam sido responsáveis por abrir os olhos do mundo para a música pesada vinda da Alemanha. "Eles conseguiram trazer o charme dos anos 70 para o heavy metal dos anos 80 e se
tornaram uma referência da música alemã", afirma Fernando Souza Filho, 39, redator da Rock Brigade.
Seria a Alemanha, portanto, a tão sonhada Terra do Metal decantada por Detonator em seu clássico "Let's Ride To The Metal Land"? Nem todo mundo parece concordar... "Nunca acreditei que a Alemanha fosse a capital mundial do heavy metal. Pode ser, talvez, a capital mundial do heavy melódico", diz Eliton Tomasi, 28, editor da revista Valhalla. "Na minha opinião, a Inglaterra sempre será a capital do verdadeiro heavy metal. O que foi feito na década de 80 nunca vai ser superado, e nesse sentido, foi na Inglaterra que tudo aconteceu, durante a NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal)".
Já de acordo com o Fernando, há outros pólos metálicos muito fortes na Europa, como Itália, Espanha e Áustria. "Porém, acredito que no momento a grande força está nos países nórdicos, especialmente Finlândia e Suécia. Em mais dois anos, devemos ter mais duas surpresas na cena européia: Estônia e Grécia. As sementes estão sendo plantadas por lá e em breve teremos também novas cenas fortes".
:::: PANORAMA ATUAL :::
E nos dias de hoje? Como se comporta a música pesada nas paradas de sucesso alemãs? Bem, para os fãs brasileiros, que moram em um país no qual tanto as listas de CDs nacionais mais vendidos quanto internacionais são dominadas pela boy band mexicana Rebelde (Fonte: Instituto Nopem, semana de 6 a 12 de abril de 2006), a Alemanha pode parecer um paraíso musical com tantas bandas de metal alemãs exportadas todos os dias para todo o planeta.
Ok, no dia 20 de janeiro, o disco "Rocket Ride", do Edguy, fez a sua estréia nas paradas alemãs como o oitavo mais vendido. E no mês seguinte, o single "Fly" do Blind Guardian já entrou disparado, na primeira semana de vendagens, para o Top 100 do país em 2006. No entanto...o grupo liderado por Hansi está exatas 82 posições atrás da imbatível Madonna.
Nas rádios, a situação não é diferente. A estação Radio Gong (97,1) da cidade de Nürenberg, por exemplo, tem uma listagem de "mais ouvidos" do último dia 5 de maio que lembra bastante diversas rádios brasileiras: Pink, Hoobastank, Jack Johnson, Red Hot Chilli Peppers, Bon Jovi, Shakira, Coldplay, U2, Ashlee Simpson e a atual onipresente Kelly Clarkson, egressa do reality show "American Idol". Só na 32ª posição, eis que chega o H.I.M., nosso bom e velho representante de peso - que nem é uma banda alemã, diga-se de passagem.
De acordo com o também alemão Tobias Sammet, frontman do Edguy, é bobagem pensar que, mesmo com a abertura de caminhos do estilo rumo aos ouvidos acostumados ao mainstream (vide o sucesso do Nightwish na MTV tupiniquim, por exemplo), o heavy metal vá conseguir, num futuro próximo, fazer frente à monstruosa máquina publicitária do pop. "Duvido que aconteça um fenômeno que acabaria fazendo com que, daqui a alguns anos, só se ouça e veja metal nos meios de comunicação", diz ele. "Na Alemanha, houve um tempo em que muita gente começou a dizer que o metal estava fadado a morrer porque, em alguns anos, todos estes garotos viciados em pop e hip hop iam começar a ouvir metal. Besteira. Nada aconteceu. Nós crescemos, ganhamos espaço...e foi isso. Grupos como o Blind Guardian e o Gamma Ray continuam aí, fazendo seu som sempre fiéis aos seus ideais".
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Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no mundodeelcid.blogspot.com.
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