Tesão pela vida: A Historia de Iggy Pop

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Tesão pela vida: A Historia de Iggy Pop


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De todos os roqueiros que você já ouviu ou leu sobre, nenhum deles será tão cru, nu e simplório, e, ao mesmo tempo, tão visceral e avassalador como este que se chama Iggy Pop. Como um iguana que vive no deserto, este homem é capaz de viver e realizar o seu melhor sem muita produção ou ornamentação. Dê-lhe apenas alimentação. Sim, muito volume e com o trovão trazido pelo baixo e bumbo, este aparentemente frágil e esquelético cidadão cresce e se torna um monstro, rugindo e rosnando feito criaturas de seus antigos pesadelos infantis.

Índice das partes desta matéria

Prefácio

A história de Iggy Pop é a estória do garoto obediente que aprende cedo a não confiar na conversa dos outros e passa a quebrar todas as regras até encontrar um equilibrio, tangenciando seguidamente com a morte, mas conseguindo efetivamente sobreviver durante o seu processo de auto-descoberta. Depois de praticamente destruir sua carreira, seu prestígio e nome, sem falar na saúde, este cantor conseguiu durante a era punk, uma rara oportunidade chamada segunda chance e soube aproveitá-la.

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Mas, se foi as portas da década de oitenta que Iggy conseguiu se erguer financeiramente, certamente será como o imprevisível e alucinando cantor dos Stooges, aquele com folego e controle emocional comparável apenas ao diábo da Tazmania, que irão sempre se lembrar dele. Iggy Pop e sua banda The Stooges são de fato e de direito o maior exemplo de atitude anárquica geralmente associada ao movimento punk. Não é por um acaso que os Stooges são citados como referencia por tantas bandas punks a surgir, a começar pelos New York Dolls e os Ramones.

Um dos raros sobreviventes do excessos dos anos 60 e 70, é também um dos poucos da "antiga escola" que não perdeu a coerência, o tesão de tocar e a paixão pela música. Mas não se engane: apesar de seu lado selvagem ser o mais famoso e mais comentado, Iggy foi, e ainda é, um homem que soube sair de suas próprias armadilhas e caminhar sempre para a frente. Ou como cantou o próprio em uma de suas letras "eu quero novos desafios, querer sempre crescer e crescer". Um homem com gana e raça, que se recusa a se derrotar, que canta e nos mostra seguidamente o que significa ter um tesão pela vida.

Seu Rostinho Lindo Vai Parar No Inferno

Iggy é um mito. O pai do punk, a figura que levou todos os excessos que o rock consagrou aos extremos. Um poeta urbano com um aguçado senso de realidade, um tigre com um microfone na cara, um enlouquecido ao vivo. Em cena fez de tudo e mais um pouco: cortou-se, desmaiou, simulou sexo com músicos e fãs, provocou arrepios com seu olhar selvagem e suou noites e noites por puro prazer e tesão.

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Apesar de uma carreira de mais de 30 anos de estrada, chamá-lo de "dinossauro" soa uma heresia. A cada disco, projeto, Iggy sempre mostrou coragem, carisma e uma sinceridade rara. Suas histórias com os Stooges ou internações psiquiátricas apenas reforçam o mito que construiu.

Por ironia do destino, Iggy é tido como uma mera descoberta de David Bowie (esse pensamento existe e muito!). Saiba que Ziggy Stardust, a criação de Bowie, não existiria sem Iggy Pop. E nem Sex Pistols, Siouxie and the Banshees, Joy Division, New Order, Jesus & the Mary Chain, Nick Cave, Smiths, e por aí vai. Iggy fez (e continua a fazer) músicas de inegávél mérito e qualidade. Ele é um pensador simples, com uma sonoridade básica, e embora de forma bem diferente, acaba se tornando tão influente para o rock quanto um Lou Reed ou Jimi Hendrix.

Crescendo em Carpenter Park

”Na época, o trailer era uma idéia revolucionária para qualquer um que não precisava morar em um. Meu pai era um doido.” – Iggy Pop

Bebê Iggy & mamãe Louella
No dia 21 de outubro de 1947, em Muskegon no estado de Michigan, nasceu James Newell Osterberg Junior. Ele era filho de Louella Christensen, descendente de noruegueses e finlandeses e James Newell Osterberg, de descendência irlandesa e inglesa, que havia sido adotado quando menino por uma família sueca que foi morar nos Estados Unidos. Louell era controladora de vôo enquanto James pai era professor de ensino ginasial.

Quando o pequeno Jim tinha um ano e meio, a família mudou para Ypsilanti, uma cidade industrial, nos arredores de Ann Arbor. Sr. Osterberg não era uma pessoa muito social e não gostava da idéia de ter vizinhos xeretas aparecendo e observando o que faziam ou deixavam de fazer no próprio quintal. Iggy definiu seu pai como uma pessoa meio esquisita e meio socialista. Com sua aversão aos vizinho, Sr. Osterberg jamais se interessou em ter uma casa, no sentido tradicional da palavra. Assim sendo, na primeira oportunidade, ele comprou um trailer e a família se estabeleceu no Carpenter Trailer Park na estrada US23, perto do campus da Universidade de Michigan entre as cidades de Ypsilanti e Ann Arbor.

O parque ficava situado nos terrenos que pertenciam a um fazendeiro local chamado Leverette. Geralmente parques de trailers são locais habitados por dois tipos de pessoas: as de passagem, turistas ou trabalhadores e suas famílias vindo de outras cidades ou estados onde o trabalho ficou escasso. Encontram trabalho periódico em Ann Arbor ou Detroit, que fica perto. Permanecem por um tempo, depois seguem para outro lugar ou voltam para o estado ou cidade de onde vieram. Outro grupo de pessoas que vivem em trailers são as pessoas de poucos recursos, sem condições de comprar uma casa, mas com algum dinheiro guardado. Não querendo ficar pagando um aluguel alto, compram um trailer e vivem em um parque específico que oferece um espaço com um ponto de eletricidade em troca de um aluguel bem inferior (praticamente irrisório) do que qualquer apartamento no centro ou subúrbio. Desta maneira, os Osterberg acabaram sendo a única família do parque com educação formal completa.

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Iggy só iria conhecer o conceito de casa como algo fixo no chão quando estava cursando o primeiro ano primário, aos sete anos de idade. E mesmo assim, a diferença entre a maneira dele viver e de seus colegas de escola só iria começar a lhe afetar depois dos dez anos. A família Osterberg morava em um modelo ‘Full Moon,’ com 45 pés de comprimento por 8 de largura. Um trailer tem como regra, para economizar espaço, portas tipo sanfona sem trancas. Exceção feita para a porta do banheiro. Portanto, com o inicio da puberdade e a descoberta da satisfação encontrada no próprio sexo, o menino Jim passou a viver o maior tempo possível se masturbando no milharal do fazendeiro Leverette.

Aluno Modelo

“Não tenho nenhuma opinião sobre o que pessoas falam sobre coisas que eu tenha feito.” – Iggy Pop

Ann Harbor era uma cidade estudantil, distante 65 km a oeste de Detroit. Devido ao ar poluído, o pequeno Jim sofreu durante vários anos de bronquite e princípios de asma, o que obrigava os pais a terem sérias preocupações com sua saúde. Seu quadro ficava sistematicamente pior no final de outono, durante a extensão do inverno e às vezes até o inicio da primavera. Nunca no calor do verão. Sua condição exigia que tivesse um adulto supervisionando seus movimentos sempre. Como seus pais trabalhavam, ele ficava por conta de uma babá. O pequeno James passou boa parte de seus primeiros oito anos de vida tomando banhos de vapor e sendo vigiado vinte e quatro horas por dia. Somente depois dos oito anos ele teve permissão para sair sozinho pelas redondezas, desde que desse notícias a cada vinte minutos. Esta vigilância sistemática continuaria até quase os quatorze anos.

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Independente disso, James era uma criança alegre, divertida e simpática, além de ser excelente aluno, disciplinado, inteligente e observador, chegando a ser considerado um "aluno modelo". Seu primeiro educandário foi uma escola comunitária chamada Carpenter School. James logo demonstrou uma extrema facilidade com Matemática e Inglês. Durante o segundo ano primário já podia soletrar palavras grandes não importando quantas silabas tivessem, causando constrangimentos durante os campeonatos internos de soletração, em alguns alunos da terceira e da quarta série. Aos poucos, foi mostrando também uma forte queda pela arte, sempre engajado nos projetos musicais e de teatro da escola.

Depois dos oito anos, seu tratamento contra asma passou a ser uma droga receitada chamado Quadranol. Sua composição química continha efedrina para estimular as glândulas adrenais e fazendo com que os brônquios inchados encolhessem, permitindo assim que a pessoa voltasse a respirar normalmente. Para não ficar muito excitado, o composto também incluía uma dose de fenobarbital, que servia como relaxante e calmante. Sua dose era meia pílula por dia, mas aos nove anos, James passou a ter o hábito de roubar algumas e tomar secretamente uma pílula inteira. Em suas palavras, ele define a experiência como sendo "Wow!"

Durante toda a sua vida até então, James foi incutido o medo de andar livremente pela vizinhança, por medo de ter uma crise repentina e não ter ninguém para acudi-lo. Mas agora que ele tomou uma pílula inteira, dentro de seu raciocínio infantil, ele achou que podia tentar dar uma volta. James Júnior descobre o que é fazer uma caminhada pelo campo sozinho pela primeira vez. Ele também descobre o barato que é tomar drogas e o associa a sua nova sensação de liberdade. Ainda continuaria havendo um considerável controle sobre o jovem Jim; o receio e temor pela saúde do menino foi um hábito difícil para seus pais quebrarem. E aos poucos, James começava agora a dar sinais claros de rancor.

Paixão Por Baseball

Uma das maiores mágoas era que seu pai jamais o deixou jogar nenhum esporte coletivo. Seu pai, James Osterberg Senior quando solteiro foi um ótimo jogador de beisebol, mostrando-se um exímio batedor e guardião da primeira base. Tanto que chegou a jogar nos times juvenis do Brooklyn Dodgers antes da Segunda Guerra. Quando ele ia ser aproveitado para o time profissional, estourou a Guerra e ele acabou convocado. Ao retornar, resolveu investir em uma educação superior. Com a mesma facilidade para aprender que seu filho demonstrava, James Osterberg pai acaba fazendo faculdade e se formando em letras, se tornando em seguida professor de primeiro grau.

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Seu filho James Osterberg Júnior herdou de seu pai o talento natural para jogar baseball. Porém, as únicas ocasiões em que tinha oportunidade para demonstrar o talento eram nas partidas amadores em campos de férias. Eventos onde seu pai era um dos professores/conselheiros e vigias. Sr. Osterberg era responsável por organizar os times, a partida e ainda servia de pitcher (ou lançador) para os dois times. O pequeno James, uma vez já na adolescência, estava começando a se sentir frustrado pela constante presença controladora do pai. Foi em uma destas partidas que Jim de taco na mão, ao receber o lançamento do pai, tentou acertar a tacada de forma que a bola fosse direto de volta em direção do lançador. Iggy diria que ele mirou nos dentes de seu pai. Bom batedor que era, dito e feito, a bola acertou o pai na cabeça, resultando em um galo.

Foi cursando Junior High School no Ann Arbor High que o pequeno James começou a sentir os primeiros conflitos com garotos de sua idade. O motivo era o mais simples possível. Jim estudava com meninos ricos, abastados e que o ridicularizavam por morar em um trailer. "Os meninos não deixavam que eu me aproximassem deles por me considerarem uma pessoa pobre, esquisita. Eu tinha tanto conhecimento ou até mais do que eles, mas era julgado pela aparência modesta da minha família. Isso me machucou muito."

Uma importante lição de vida aprendida pelo pequeno Jim aconteceu quando vários meninos de sua turma da escola vieram lhe visitar. James inicialmente pensou que vieram como amigos, mas os garotos criaram uma algazarra na casa, mexendo e desarrumando tudo. Depois, para coroar o dia, passam a empurrar o trailer pelos lados, sacudindo-o na esperança de ver se a geringonça poderia ser virada. Mesmo não conseguindo o que queriam, muitas coisas acabaram caindo e se espalhando ou espatifando pelo chão. Esta foi a lição. Sempre desconfiar de gente com melhor situação financeira que você, principalmente se vierem com um papo de ser seu amigo.

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Ainda um bom aluno, James mostrou ser um bom orador. Acabou se tornando vice-presidente de sua turma, o que lhe conferiu a tarefa de orador em um projeto da escola que imitava as reuniões internacionais realizadas na ONU. O projeto foi chamado "The Model United Nation". "Eu não me lembro qual país Jim tinha que representar. Ele ficou dias e dias trabalhando nisso e fez um excelente projeto sobre como deveria ser a Nações Unidas naquele tempo", lembra sua mãe. Foi também durante o segundo grau que Jim passou a se desenvolver com composições escritas. Jim escrevia tão bem que alguns de seus poemas acabaram sendo publicadas em revistas estudantis. Muitos dos outros alunos consideravam este material bem avançado para os tempos. Foi também nesta fase que a música entrou definitivamente em sua vida.

A Descoberta do Som

“Na fábrica, com a criação de cada pára-choque, fazia-se um estrondo impressionante. Era um som tão simples, que até nós podÍamos domá-lo.” – Iggy Pop

Quando Jim tinha nove anos, ele fez um passeio escolar com o resto de sua turma. Morando em Ann Arbor ao lado de Detroit, centro automobilístico do país, no lugar de um museu ou o zoológico, o passeio foi visitar a fábrica de automóveis da Ford que ficava em River Rouge. Este passeio foi representativo, porque nele, Jim acabou ouvindo um som. Era o barulho da maquinaria fazendo pára-choques de ferro. A cada impacto, um estrondo e seu eco subseqüente. Este estrondo, simplista em sua essência, fazia o coração bater mais forte, tamanho volume, graças a violência do impacto. Jim jamais iria esquecer daquele som.

A partir daí, Jim passaria a perceber com maior atenção, os sons que existia ao seu redor. Morar em um trailer, onde tudo é elétrico, trouxe para Jim uma variação diferente de sons e uma noção para apreciá-los. Um dos sons que passou a chamar muita sua atenção era o aquecedor elétrico de ambiente, uma espécie de ventilador que soprava ar quente. O barulho do aparelho em si o deixava intrigado ao ser ligado ou desligado. Jim às vezes usava a grade do aparelho, tocando-a feito uma harpa. Outro som que ele gostava de ouvir era o zumbido emitido pelo barbeador elétrico do seu pai. Iggy hoje credita a seu trailer e todo o metal que o cercava, por provocá-lo a ser baterista. Ele passaria a batucar em tudo, usando as panelas de sua mãe como tambores e seus brinquedos como baquetas.

Jim se tornara um menino atento a música que rolava nos finais dos anos 50 e começo da década de 60. Seus artistas favoritos eram o mais ecléticos possíveis: jazzistas como John Coltrane, Archie Shepp, Sun Ra, e crooners como Frank Sinatra. Bluesmen como Howlin' Wolf, Muddy Waters, eram influências da cidade de Chicago que não ficava muito longe. Grupos vocais de negros também eram apreciados, uma influência da cidade vizinha Detroit. E rockers como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Elvis Presley, uma influência em praticamente todo garoto da época. Tanta paixão acabou fazendo com que relaxasse sua vida acadêmica e optasse por tornar-se um baterista. Mas não foi nada fácil.

Os Iguanas

“Todos nós quando garotos sonhávamos com o sucesso, em atrair outros adolescentes, em encontrar o prazer de viver. Eu descobri isso através da música.” – Iggy Pop

Foi ainda em Junior High School que James passou a tocar bumbo na banda da escola. Ele tinha um colega de sala que tocava bem violão chamado Jim McLaughlin. Osterberg convence McLaughlin a se juntar a ele e entrar em uma apresentação de talentos promovida anualmente pela a escola. Este acabou sendo o primeiro gosto pela ribalta dos dois. Apresentam "Let There Be Drums" e outro número, um improviso a base de um riff criado por McLaughlin cujo o nome até ele mesmo já esqueceu.

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No ano seguinte, já em High School, McLaughlin chama seu amigo e vizinho Sam Swisher para se juntar ao grupo tocando saxofone. Nasce assim The Iguanas no outono de 1963, Osterberg então com 15 anos de idade. Como havia dois Jims na banda, Jim Osterberg passava ser chamado de Jim O. O primeiro emprego dos Iguanas foi uma apresentação realizada em uma festa na University High School. A banda foi paga com nove dólares pela noite, um total de três dólares para cada um, uma boa soma já que em 1963, um compacto simples custava meio dólar.

Empolgado com a recepção do público, Jim O incentiva a investir mais na banda, e portanto gravam as primeiras demos com a ajuda do pai de Jim McLaughlin, que preparava profissionalmente a trilha sonora para patinadores olímpicos. A sessão rendeu a gravação de sete instrumentais. São eles "Out of Limits", "Walk Don't Run", "Surfin' Bird", "Johnny B. Goode", "Tequila", "Pipeline" e "If I Had A Hammer", versão americana para o sucesso Italiano “Datemi Un Martello.” Pelo repertório escolhido, verifica-se a influência de surf music da costa oeste e a ausência total de bandas inglesas que em 1963, ainda não haviam conquistado o mercado norte-americano.

No início de 1964, The Iguanas sentiram a necessidade de um baixo para dar chão ao som e um segundo guitarrista. Chegava então Nick Kolokithas e Don Swickerath, respectivamente guitarra e baixo, transformando assim o trio em um quinteto. The Iguanas fizeram um relativo sucesso em Ann Arbor, e durante a maior parte do ano, tocaram em festas colegiais e fraternidades, depois evoluindo para conseguirem apresentações em clubes noturnos e concertos.

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Conforme seu envolvimento com The Iguanas e a cena musical de Ann Arbor ia consumindo mais de seu tempo, mais preocupados e irritados ficaram seus pais. "Eu me lembro de uma discussão que tive com meu pai porque ele disse que estava decepcionado comigo por ter largado a escola para me tornar músico e que eu deveria sair de casa se quisesse continuar com isso. Eu disse que saía, mas no primeiro segundo que botei os pés fora do lar fiquei assustado e ele foi bastante compreensivo e carinhoso para rever sua opinião e me ajudar." Depois do desapontamento inicial, os pais de Jim decidiram que o correto seria dar total apoio à escolha do filho, tanto na parte material, como emocional.

Com a nova formação de quinteto, uma nova sessão de demos foram gravados, novamente na casa de Jim McLauglin. Agora com McLaughlin e Kolokithas fazendo vocais, gravam um repertório que já demonstra a influência da época imposta pela invasão do rock britânica no mercado americano. Gravam então "Twist And Shout", "Things We Said Today", "Slow Down", "I Feel Fine", "Tell Me", "Wild Weekend", e "California Sun". Gravam também a mais clássica dos roques de garagem, "Louie Louie", primeira ocasião conhecida em que Iggy assume os vocais.

Com a invasão britânica, Jim O passou logo a admirar além dos Beatles, a banda irlandesa Them (que tinha como destaque o vocalista Van Morrison) e a banda mod The Kinks. Aliás, "You Really Got Me" foi durante um certo tempo uma das suas canções prediletas. O ano de 1965 traria também o impacto da canção "Satisfaction" e a primeira prova da influência dos Rolling Stones sobre o circuito rhythm & blues. Agora, a adoração de Jim O pelos Kinks só fora suplantada quando ele ouviu The Who. Curiosamente, embora The Who só fosse conseguir conquistar efetivamente o mercado americano após sua participação no festival de Monterey em 1967, dentro do estado de Michigan a banda ganhou fãs imediatos desde seu primeiro lançamento, "My Generation" em 1965.

The Iguanas se mantiveram ativos durante todo o ano. Tanto trabalho rendeu ao grupo verba para investir em um compacto simples. A sessão de gravação foi realizado no United Sound Studio entre final dezembro de 1964 e inicio de janeiro de 1965. Gravaram então três canções. Duas composições novas, "I Don't Know Why" escrita por Kolokithas e "Again And Again" escrita por James Osterberg (Iggy). Além destes dois, teve ainda o grande número do momento da banda, "Mona" de Bo Diddley.

O estúdio era de quatro canais onde em um canal se gravou a banda tocando o número, no segundo e terceiro canal gravaram a voz e no quarto percussões e detalhes na bateria. Lançaram o compacto Mona/I Don't Know Why através de um selo que eles mesmo criaram, Forte Records, no melhor estilo faça você mesmo. Cerca de 1000 cópias foram produzidas onde a banda passou a vender durante seus shows. Em Ann Arbor, alguns compactos chegaram a fazer parte das seleções em jukeboxes, aquelas caixas que tocam discos por uma moeda. Outros chegaram a tocar nas rádios locais e até em uma programação na cidade vizinha de Detroit. Não chegou a entrar em nenhuma parada de sucesso, porém ajudou o suficiente para os Iguanas conseguirem apresentações em várias cidades como Lansing, Chicago e Toledo, iniciando um período que pode ser considerado o auge do grupo.

Nick Kolokithas, Don Swickerath, Sam Swisher, Jim McLaughlin, e Jim Osterberg
James Osterberg acabou os seus estudos em 1965, quando resolveu fazer da banda um grupo com apresentações constantes. Conseguiram no verão daquele ano seis apresentações semanais, com cinco entradas por noite no Club Ponytail em Harbor Springs. Jim O recebia a considerável quantia para a época de 55 dólares semanais. Uma das primeiras coisas que ele fez com seu primeiro pagamento foi comprar os recém lançados "Bring It All Back Home" de Bob Dylan e "Out Of Our Heads" dos Rolling Stones, seus dois primeiros LPs. Até então, ele só tinha compactos.

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O Harbor Springs era um resort, ponto de alta classe, com hospedes seletos. Entre outras bandas que estavam tocando no local durante a estadia dos Iguanas estavam The Kingmen, The Shagri-las, The Four Tops, The Guess Who e The Reflections. Além do repertório da banda, em várias ocasiões, tiveram que servir como banda para cantores ou cantoras contratadas. Crooners com carreiras menos marcante; gente como Bobby Goldsboro.

O ambiente e clientela luxuosa serviu para fazerem contatos. Entre estes, conseguiram alguém para bancar a ida e estadia da banda em Chicago naquele outono para tocarem no aniversario da filha, que adorara a recente apresentação do grupo. O dinheiro e a atenção acabaram subindo a cabeça de Jim O que resolve pintar o cabelo de platina, coisa para aparecer no palco, uma vez que o baterista ficava sempre escondido lá trás. O problema é que fora do palco, um adolescente andando pelas ruas de cabelo comprido e platinado no interior de Michigan em 1965, geralmente atrai atenção mesmo que não queira. E foi de fato o que aconteceu. Jim acabou preso e depois despedido do Club Ponytail.

Mas se para James, a música era sua paixão, para os outros integrantes, o grupo era apenas uma diversão de adolescência. Com o fim do verão e o inicio das primeiras aulas na faculdade para a maioria dos integrantes dos Iguanas, a turma resolveu que era melhor deixar a banda de lado para não atrapalhar os estudos. Jim O ficou arrasado quando os outros integrantes resolveram deixar o grupo. "Fiquei muito frustrado com isso. Música era a minha vida, e para eles não. Eles queriam ficar compondo ao estilo Beatles. Eu queria rock mais bruto, tipo Kinks, Who, Them, Stones. Acabamos nos separando."

Aluno da Universidade de Michigan

“Tentei faculdade por um semestre mas percebi os estudantes como sendo brutos e idiotas.” – Iggy Pop

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Para curar a dor, James Osterberg volta a estudar, conseguindo ingressar na Universidade de Michigan com facilidade, já que possuía um excelente histórico escolar. Acabou matriculando-se no curso de antropologia, e durante o tempo que esteve se dedicando às suas aspirações acadêmicas, conheceu através de uma amiga a banda The Velvet Underground.

A amiga é na verdade a mãe de um colega de sala, Tom Wehrer. Anne Wehrer era uma mulher extremamente engajada com movimentos culturais. Membro do grupo teatral The One Group, seus esforços e influência sobre assuntos culturais dentro da Universidade de Michigan lhe proporcionou a tarefa de co-dirigir The Dramatic Arts Center. Esta instituição, sobre sua tutela, passou a se dedicar a produções de peças avant-garde e exposições de filmes experimentais de 16mm. Junto com seu marido, acabam fundando The Ann Arbor Film Festival, The Ann Arbor Blues Festival e uma serie de concertos gratuítos no parque da cidade.

Seus contatos se estendiam para os dois pólos culturais do país, Nova York e Los Angeles. A ponto que sua casa foi freqüentada por gente como Jane Fonda ou Andy Warhol quando estes estiveram na cidade. Andy Warhol estava excursionando os Estados Unidos com seu show The Exploding Plastic Inevitable. Esta exposição consistia em ter uma banda em um palco tocando enquanto filmes e slides eram projetados sobre eles ao mesmo tempo em que três pessoas dançam e encenavam coreografias específicas, geralmente ligados ao sadomasoquismo. Tudo isto enquanto fazia-se jogos de luzes. Um conceito totalmente novo, idealizado inicialmente por um escritor beatnik chamado Byron Gysin, que usou para seus recitais. Warhol é o primeiro a pegar a idéia e explorar ela ao máximo dentro do conceito de show de música. É claro que hoje em dia, um show de rock com show de luz é coisa comum. Mas para março de 1966, isto era uma novidade.

A apresentação do show The Exploding Plastic Inevitable foi realizado na própria Universidade, onde houve sobre a tutela de Ann Wehrer vários eventos artísticos desta natureza. A banda que tocava neste evento montado por Andy Warhol era a coisa mais estranha que já se ouviu naquele pedaço do mundo. Chamavam-se The Velvet Underground e eram de fato extremamente diferentes do que se espera de uma banda supostamente de rock. Presente ao evento estava Jim O., que odiou a banda com toda a paixão. Após o evento, foi realizada uma festa na casa de Wehrer e através de sua amizade com Tom, Jim freqüentou. Lá conheceu e conversou com Andy Warhol, Lou Reed, John Cale e Nico, embora o VU musicalmente não fosse nada para ele então. Levaria meses até Iggy passar a realmente entender e se alimentar musicalmente desta fonte. No entanto, não demoraria muito para James concluir que a vida de estudante de antropologia pouco lhe acrescentava. Logo o interesse por música falou mais alto e Iggy acabou arranjando um emprego em uma loja de discos chamada Discount Records.

The Prime Movers

“Muita da seriedade nos ensaios empregado nos Stooges eu aprendi com esses caras.” – Iggy Pop

Quando o Butterfield Blues Band tocou em Ann Arbor pela primeira vez em 1965, acabou germinando o interesse de alguns garotos brancos em tentarem tocar blues seriamente. Embora eles já gostavam do chamado blues clássico, o exemplo de ver músicos brancos tocando blues de qualidade, impulsionou o nascimento da banda The Prime Movers no verão de 1965. A formação inicial contava com os irmãos Erlewine - Daniel e Michael; Robert Sheff, Robert Vinopal e Spider Winn. A divisão de tarefas contava com Michael na guitarra rítmica, gaita e vocais, Daniel na guitarra solo e vocais, Sheff nos teclados e vocais, Viopal no baixo, enquanto Winn cuidava da bateria. Com a entrada do ano de 1966, Viopal acaba deixando o grupo e sendo substituído por Jack Dawson. Depois foi a vez de Winn deixar o grupo.

Ensaio em North Division Street
Tendo uma boa reputação com baterista, James Osterberg foi então procurado e convidado a integrar o grupo. James tinha apenas 18 anos, percebendo rapidamente que os rapazes desta banda, além de mais velhos, eram músicos melhores. Todos os integrantes da banda moravam juntos em uma casa em North Division Street e o novo integrante logo se mudou para lá. Nesta vida comunitária a banda forjou o seu som e James Osterberg aprendeu a ser um baterista melhor, um profissional melhor e levar ensaios extremamente a sério. Aprende também sobre arte, política e experimentalismo.

Esta seria a formação considerada clássica dos Prime Movers e a banda rapidamente passaria a ganhar fama e respeito pelas cidades vizinhas, graças a uma boa dose de blues tradicional, com pitadas de soul e gospel. Por causa de sua passagem pela banda The Iguanas, o pessoal dos Prime Movers passam a referir a ele como Iggy, o apelido ficando pelo resto de sua carreira. Michael Erlewine comenta sobre seu antigo colega de grupo, que neste ponto de sua vida Iggy é um rapaz que não fuma, não bebe, é extremamente polido, educado e bastante tímido.

The Prime Movers trabalhavam com um empresário chamado Jeep Holland, que era largamente conhecido na cidade graças ao seu trabalho com a principal banda da região na época, The Rationals. Holland tentou transformar The Prime Movers em uma banda pop, seguida a mesma direção apontada pelos Beatles, que ele usava com The Rationals. No entanto, The Prime Movers recusou a proposta. Tocando e representando exclusivamente música enraizada no verdadeiro blues, The Prime Movers viu passarem várias oportunidades para um contrato com uma gravadora. No entanto, seu firme propósito em promover blues lhe deu extrema credibilidade e a banda conseguiu fama equivalente a outras bandas novas da área como The Amboy Dukes e MC5. Com a fama dos Prime Movers, crescia também a notoriedade de seus integrantes.

Robert Sheff, Iggy Osterberg, Michael Erlewine, Jack Dawson e Daniel Erlewine
Um destes fãs era Scott Asheton que passava a ir até a casa na rua North Division para assistir os ensaios. Certo dia pediu a Iggy se ele pudesse ensinar-lhe como tocar. Iggy o colocou sentado na sua bateria e lhe deu as primeiras dicas sobre o instrumento. Scott demonstrou ter um dom natural para manter a batida no tempo. Embora Iggy já vira esse e outros caras com ele na loja de discos onde trabalhava, foi através do contato com Scott que Iggy passou a conhecer melhor os seus amigos.

O irmão de Scott, Ron Asheton freqüentara a mesma escola que Iggy. Não se falavam, a pinta de mal do Ron não dando espaço, embora a pinta de pobretão de Jim O também não devia ter agido a favor. Os dois se viam pelos corredores, talvez até se cumprimentassem, mas nada muito além. No entanto, foi somente agora, após Iggy freqüentar a faculdade, que passariam a se ver mais, se encontrando perto de um café popular entre os universitários que ficava ao lado de uma drogaria, a Marshall's Drug Store. Com Iggy trabalhando na Discount Records, sua amizade com os irmãos Asheton se aproximaria, firmando-se ainda mais a partir deste período como baterista dos Prime Movers. Junto com os irmãos Ashetons, geralmente estavam seus amigos Dave Alexander e Billy Chetham, todos frequentadores assíduos tanto da drogaria, quanto da loja de discos, Discount Records.

Os Patetas Psicodélicos

Os irmãos Asheton - Ron, Scott e Kate - moravam no subúrbio de Ann Harbor, em uma área que eles batizaram de "A Divisão", cerca de cinco milhas do lado oposto da cidade de onde Iggy morava. Kate, a menorzinha, pouco se metia com seus irmãos. Já ganhando um corpinho, queria ser cantora e até certo ponto conseguiu o seu intento.

Os Irmãos Asheton

Scott Asheton
“Dois caras que nem sequer completaram o segundo grau e se tornaram deliquentes juvenis.” – Iggy Pop

Já Scott era o mais pintoso entre os dois meninos. Gostava de Elvis Presley a ponto de pentear o cabelo feito o cantor. Scott também gostava de Hitler e era um garoto violento que gostava e sabia brigar.

O mais velho era o Ron, nascido em 17 de julho de 1948, na cidade de Washington DC. Como o seu irmão mais novo, ele também tinha uma pinta de poucos amigos e uma grande admiração pelo estilo nazista de se vestir. Seu interesse por música nasceu cedo, admirando sua tia-avó Ruthie que tocava acordeão, rabeca e banjo; e tio-avô Dick-Dick que tocava o piano. Os dois, nos áureos tempos, eram artistas do vaudeville. Com seis a sete anos, após algumas aulas, Ron estava tocando acordeão tão bem que chegou a participar de alguns recitais.

Ron Asheton
O Sr. Asheton, pai dos meninos, era um piloto da marinha que serviu durante a Segunda Guerra Mundial. Ele queria que seus filhos seguissem em sua carreira nas forças armadas. De Washington, foram obrigados a se mudar para Iowa, onde não havia aulas para acordeão, portanto Ron começou a ter aulas de violão. Curiosamente, o menino passou a perder interesse por música e abandonou o instrumento.

A familía Asheton mudou mais uma vez, desta vez para Ann Arbor. Foi aos quatorze anos que várias coisas de extrema importância aconteceram na vida de Ron Asheton. A primeira delas: Ron precisou usar óculos, fato que implicou necessariamente em não poder mais ser piloto de avião, sonho de seu pai que ele havia adotado como seu. Depois, os Beatles invadiram a América, e finalmente o Sr. Asheton faleceu. Os laços de Ron com as forças armadas foram cortados e o interesse sobre música mais uma vez voltou.

Ron se tornou um grande fã dos Beatles, mas admirava como músico e celebridade a figura de Brian Jones dos Rolling Stones. Ron procurou deixar o seu cabelo crescer no mesmo comprimento que o de Brian. Com a morte do pai, e a mãe tendo que trabalhar fora durante boa parte do dia, os meninos passavam a maior parte do tempo sem supervisão adulta. Resultado: os três filhos da familía Asheton acabaram com pouca noção de diciplína.

Dave Alexander

Dave Alexander
A um quarteirão de distância, morava Dave Alexander, outro pequeno delinqüente que não queria nada com os estudos ou a vida. Filho de um açougueiro e uma dona de casa, Dave Alexander era o mais selvagem de todos. Começou a cheirar cola aos doze, e no ano seguinte já tinha o hábito de tomar pílulas sem prescrição; coisas como Seconal ou Romilar, barbitúricos em geral. Começou também a beber cedo, coisa que os irmãos Asheton também fariam. Andava com uma gangue de arruaceiros que, de vez em quando, tiveram encontros não muito amistosos com a polícia.Dave foi o primeiro grande amigo de Ron quando eles passaram a morar em Ann Arbor. De cabelos compridos e alaranjados, Dave andava com uma calça “pescando siri”, sempre com uma faca e uma garrafinha de gin no bolso de trás. Ron, Scott e Dave passavam o tempo mascando tabaco,e sonhando em algum dia montar uma banda.

Liverpool 65

“Eu era o garoto esquisito. Na escola, me chamavam de Beatle gordo, porque eu me vestia com roupas no estilo dos Beatles.” – Ron Asheton

Dave Alexander, ao concluir o ginásio em 1965, largou escola e resolveu ir para a Inglaterra conhecer Liverpool, terra dos Beatles. Ron, que pretendia continuar estudando, pelo menos até terminar o 2o Grau, resolveu ir com ele. Vendeu sua motocicleta, uma Honda 305, e usou o dinheiro para comprar passagens e garantir a estadia e as despesas.

Uma vez lá, freqüentavam o Cavern Club toda noite e rodavam pela cidade, conhecendo os pontos que tinham alguma relação com a história dos Beatles. O guia dos dois foi um autêntico mod chamado Robert que conheceram certa noite no Cavern. Enquanto estavam na cidade, assistiram a vários shows, o mais marcante deles, com o grupo The Who.

Ron descreve a experiência daquela noite como uma massa selvagem de gente, uma aglomeração quase tribal em torno da música. Assistiu Townshend destruir sua guitarra Rickenbacker e a molecada avançar em cima para ficar com os pedaços. “Foi minha primeira experiência com o pandemônio total. Deu medo. Não sabia que a música poderia levar as pessoas a tal extremo. Foi quando eu percebi que era isto que eu queria fazer”, conclui. Ao retornar para Ann Arbor, estavam usando botas e cabelos ao estilo dos Beatles, e loucos para montarem uma banda própria. Estavam totalmente tomados pela vida noturna que conheceram em Liverpool.

The Dirty Shame

“Tocávamos junto com os discos e nos achávamos ótimos. Depois tirávamos o disco e aí percebíamos que não éramos tão maravilhosos assim.” – Ron Asheton

Dave Alexander sugere colocar Scott para praticar na bateria, dando assim o nascimento da banda The Dirty Shames. A banda completa teria Ron Asheton e um outro amigo, Billy Chetham nas guitarras, Dave Alexander no baixo, Scott Asheton na bateria e Kathy Asheton nos vocais. Passaram a ensaiar quase todo dia no porão da casa. A música produzida por eles é descrita por alguns como sendo a essência de uma banda de garagem: música pelo prazer de fazer música, sem nenhuma idéia prévia ou ideal atrelado.

Embora nunca tocassem ao vivo, pelo fato de Ron e Scott serem vistos constantemente com Iggy, muita gente passou a ouvir falar do The Dirty Shames. Passou-se a especular que se tratava de uma ótima banda, o que não era verdade. A expectativa em relação ao grupo foi criada de tal modo, que Ron sentiu necessidade de inventar outros compromissos como desculpa para não se apresentar em certos eventos. The Dirty Shame era tão cru como banda, que a decepção do público seria certa. Por isto mesmo, Ron sempre arrumava uma desculpa quando alguém lhe perguntava quando iria poder vê-los tocar.

Amizades com o MC5

“Fred Smith tinha cabelo comprido e me convidou para dançar juntinho. Eu disse não, mas acabei dançando.” – Kate Asheton

A simpatia inicial entre Iggy e Ron veio em parte por terem o mesmo corte de cabelo. Quando o baixista Jack Dawson deixou os Prime Movers, Iggy trouxe Ron para o grupo. Havia outro garoto praticamente contratado para o lugar, portanto Ron chegou afirmando que não só tocava melhor que seu concorrente, mas ele também sabia cantar. Após cantar “Not Fade Away”, e “Girl From Ipanema”, a versão em inglês para “Garota de Ipanema”, ele conseguiu a vaga. Contudo, rapidamente se percebeu que Ron não era bom o suficiente como músico e precisaria melhorar drasticamente seu domínio no instrumento. Ensaiou e tocou com a banda durante algumas semanas e logo foi mandado embora. Ron diria que ele era rock 'n' roll demais para uma banda de blues. Mas a amizade ficou mais sólida entre Ron e Iggy.

Foi acompanhando The Prime Movers por seus diversos shows que os irmãos Asheton conheceram e fizeram amizade com o pessoal de uma banda de Detroit chamado MC5. Foi em um bar chamado Mother's, que Kate Asheton, então com quatorze anos, acabou fazendo amizade e namorando Fred Smith, guitarrista da banda. Na semana seguinte, Fred Smith e Wayne Krammer, o outro guitarrista do grupo, vieram para assistir os Prime Movers. Wayne Kramer lembra bem da banda, "Quando se falava em uma banda de blues, a primeira coisa que vem a mente era um grupo de negros de Chicago. Não era preconceito, era apenas o consenso geral. E de repente, em Detroit, eu vejo um grupo de branquelas tocando esse tipo de música. E em Detroit! E Iggy era um excepcional baterista."

O bar Mother's era um local freqüentado por universitários e nesta noite um pessoal de alguma fraternidade começou a causar atritos com Fred por causa de seu cabelo comprido, quase nos ombros. Wayne conta que ele até queria ajudar o seu amigo, mas a diferença numérica era tão grande, que ele só iria apanhar também. Fred Smith tomou algumas bolachas quando de repente, aparentemente do nada, apareceu Scott Asheton que escolheu um e o encheu de socos. Os demais congelaram ao ver o amigo apanhando enquanto Scott informava aos gritos "eles são amigos meus e ninguém vai se meter com eles e pronto!" O incidente todo não levou dois minutos. O recado foi dado e o namorado da irmã de Scott nunca mais teve problemas com aquela turma. Scott Asheton instantaneamente ganhou o respeito de todos no local.

The Chosen Few

Iggy acabou arranjando um emprego para seu colega como baixista em uma banda de Birmingham, chamada The Chosen Few. Ron já era, a esta altura, um baixista bem mais sólido, e Iggy conseguiu a vaga por intermédio do amigo Scott Richardson, líder da banda. E por coincidência também, Ron acabaria conhecendo um jovem guitarrista que anos depois entraria no Stooges: James Williamson. O jovem James Williamson era um pequeno delinqüente juvenil que de tão nefasto, seu pai o retirou da banda à força, internando-o em uma escola especial para crianças problemáticas, em Nova York. Mesmo como integrante do Chosen Few, Ron ainda manteve seu contato com The Prime Movers, inclusive passando a trabalhar para a banda como roadie. Este relacionamento só iria se encerrar quando Iggy deixou o grupo.

Ao final do ano escolar de 1967 (que nos Estados Unidos é em julho, o inicio do verão), os integrantes do The Chosen Few, em sua maioria, deixariam suas vidas de músico para embarcarem na vida de universitários, devido à pressão familiar. Ron Asheton, que já havia deixado escola antes mesmo de completar o 2o Grau, não teve estas pressões, tampouco Scott Richardson, vocalista e líder do grupo. Richardson, com dinheiro guardado e um repertório especifico de rhythm & blues em mente, convida Ron a ajudá-lo a montar uma nova banda, SRC – Scott Richardson Case. E por pouco, não foi este o seu destino.

Sessões em Detroit

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Foi durante o final de '66 que Iggy passou a ampliar seus horizontes, chegando a tocar em grupos de Detroit pertencentes a um certo selo chamado Motown. Como baterista de estúdio, Iggy participou de gravações de estrelas como The Four Tops, The Marvelettes, The Shangri-Las, The Crystals, The Contours, entre outros. The Prime Movers, em outras ocasiões, também serviriam de banda para estes conjuntos vocais da Motown quando estivessem se apresentando em Ann Arbor ou Detroit..

Para Iggy, foi uma maneira espetacular de evoluir como músico e aumentar seu repertório de sons. Mas sua paixão inicial era o blues e após assistir em Detroit a uma apresentação de Paul Butterfield Blues Band, conversa com Mike Bloomfield e Sam Lay, respectivamente guitarrista e baterista da banda. Bloomfield convence Iggy a ir para Chicago conhecer melhor a cena blues local e Lay se comprometeu a ajudá-lo a arrumar um lugar, caso ele queira ficar.

Maioridade

Foi também durante este período que Iggy passou a adotar seus primeiros vícios. Alguém fumando, acabou dando uma baforada praticamente no seu rosto. Por causa de anos com problemas respiratórios, inicialmente Iggy pensou que ele ia sufocar. Quando percebeu que isto era tabu, adotou o tabaco, rapidamente adquirindo o hábito de fumar dois maços por dia. Depois de descobrir o cigarro veio o álcool.

Um problema, porém, atormentava os rapazes: o recrutamento militar. Desesperados para não serem enviados ao Vietnã, os quatro integrantes prepararam uma imensa desculpa para escaparem. Iggy sendo o mais velho, foi o primeiro a enfrentar a situação. O plano era simples, passar por homossexual. No dia da convocação, Iggy apareceu lá sem cueca. Na hora do exame corporal, tocou uma punheta escondida e apareceu na fila com o pau duro. Colocado em uma sala a parte até ser inspecionado pelo psicólogo, Iggy começou a correr em círculos no quarto enquanto ninguém chegava. Momentos antes do médico entrar ele parou e sentou na cadeira. O médico, portanto encontra um rapaz suando frio, com o coração a toda, se dizendo apavorado e se confessando homossexual. "Eu comecei a chorar, ficar em prantos, totalmente envolvido no papel que assumi, até conseguir a dispensa. Todo mundo pensava que eu tinha me assustado e eu saí rindo e feliz. Um amigo meu do tempo de escola foi numa de lutar contra o comunismo em nome da patria. Nunca mais voltou", lembra Iggy.

Sessões em Chicago

Com a chegada de 1967, Iggy deixa The Prime Movers e sua cidade natal para se mudar para Chicago. Ele acabou indo morar no porão da casa de Bob Koestner, que tinha um selo chamado Delmark Records. Como protegido de Sam Lay, que a esta altura estava tocando com James Cotton. Iggy conseguiu emprego tocando para uma série de artistas. Além de tocar com o próprio James Cotton, Iggy também tocou um tempo para Jimmy Young. Seu maior show, porém, foi com Big Walter Horton. Iggy também aproveitou sua estadia na cidade para assistir e estudar vários artistas como John Lee Hooker, Muddy Waters, e Chuck Berry. Uma das principais conclusões a que ele chegou assistindo este pessoal é que todos eles, sem exceção, tocavam suas próprias músicas.

Foi também em Chicago que Iggy fumou seu primeiro baseado. Segundo ele mesmo conta, foi durante esse baseado que ele chegou a uma grande conclusão musical. Que o importante não era o som final, mas sim como se chega até aquele som, e isto é o que faz uma musica ser boa. Uma vez entendendo as partes que compõem o percurso artístico, o formato externo pode ser moldado a qualquer forma desejada. Assim, após sete meses na cidade, Iggy decidiu que queria procurar uma nova sonoridade. "Descobri que apenas os músicos negros conseguiam tocar o blues que eu gostava. Eu tinha 19 anos, e não 50, era branco e livre. Em Chicago eu ficava sentado em um banco de praça, pensando em uma música nova, cheia de energia. Foi quando resolvi voltar para Detroit e começar uma nova etapa na minha vida." Telefona para Ron Asheton e sugere, “que tal você vir aqui me apanhar pra me levar de volta pra casa.” Ron diria que este telefonema foi o inicio dos Stooges.

Ebulição no Verão de 1967

“Nenhum de nós era músico de verdade” - Iggy Pop

Iggy Pop
Assim, no verão de 1967, Iggy retornou para Ann Arbor. A primeira opção foi entrar no novo grupo, SRC, que o vocalista Scott Richardson formara. Mas os três resolveram montar um grupo novo, idéia que atraía especialmente Iggy que estava cheio do blues tradicional. A primeira concepção teórica da banda nova teria Iggy na bateria, com Ron no baixo e Scott na guitarra e possivelmente como o cantor. Isto porque o consenso geral ditava que Scott era tranquilamente o mais “pintoso” entre os três e portanto o mais indicado a ficar na frente. Foi também durante este retorno de Iggy para o trailer de seus pais, que sua mãe começou a encher o saco por causa do comprimento de seu cabelo. Extremamente incomodada pela aparência do filho, ela derrubou sua resistência ao oferecer comprar um instrumento musical se ele cortasse consideravelmente o cabelo. Iggy então quase raspa o cabelo e ganha em troca um teclado Farfisa. Curiosamente, certo dia Iggy, de camisa e calças brancas, seria parado pela polícia, que ao vê-lo de cabelo raspado e vestido de branco, confundiu-o com um possível paciente foragido do manicômio da região.

Ao se juntarem em uma tentativa de efetivamente começarem a levar som juntos, Iggy quer apenas saber de tocar seu Farfisa novo. Assim, Scott foi escalado para assumir a bateria. No caso, sua bateria consistia em uma engenhoca montada por ele com a ajuda de Iggy. Era basicamente um tambor de óleo de cinqüenta galões como bumbo, uma caixa e um timbale. Como baquetas, Iggy preparou dois martelos de brinquedo feitos de plástico. Ensaios realizados no porão da casa dos Ashetons aconteciam no final da manhã e durante parte da tarde até a mãe dos rapazes chegar do trabalho.

Residência de Verão

Não demorou muito para começarem a procurar um local para morar. Afinal, impulsionado pelo filme “Help!” dos Beatles, onde mostram a banda inteira morando juntos, a mentalidade na América determinava que os integrantes de uma banda morassem juntos. Souberam de uma casa em 1324 Forest Court, que estava disponível durante o verão. Junto com uma outra rapaziada, alugaram o local que se tornou um misto de moradia e ponto de ensaio. Para contribuir com o aluguel, Iggy passou a trabalhar em uma lanchonete como garçom. Ron trabalhou em uma casa que vendia produtos variados, como posters psicodelicos, literatura alternativa, incensos, cachimbos e pilões artesanais, etc., cujo público específico eram jovens, a maioria hippies. Este tipo de estabelecimento tem o nome popular de ‘Head Shop’, sugerindo ser uma loja com produtos para fazer a sua cabeça. Scott se recusou a arrumar um emprego e ficou por isso mesmo.

Quando não estavam trabalhando ou ensaiando, passavam o tempo ouvindo discos ou vendo televisão. Certo fim-de-semana, houve uma maratona de filmes dos Três Patetas (no original, The Three Stooges) que assistiram. Nasceu daí a idéia de se chamarem The Stooges. “Eu achava genial aquela mistura de violência com comédia. E também porque a palavra “stooge” possui vários significados. Ser chamado de stooge era uma ofensa? E afinal, quem seria o pateta, nós ou quem nos ouvia?”

Foi nesta casa que Iggy perderia sua virgindade, como também seria aqui que eles ouviriam Jimi Hendrix pela primeira vez. Um amigo que foi assistir o Monterey Festival, retornou com um disco de Jimi Hendrix, e o grupo imediatamente ficou abismado com o que ouviram. Outro favorito, pelo humor encontrado na letra e música era The Mothers of Invention. Cantos Gregorianos e Ravi Shankar também eram discos tocados na vitrola com certa constância. Porém, entre os discos que ouviam, um acima de todos foi de grande influência na direção e conceito musical desta nova banda que se iniciava. O disco tem o longo e peculiar nome de “And on the Seventh Day, Petals Fell on Petaluma/The Bewitched: Final Scene And” de Harry Partch.

Harry Partch

“Harry Parch. Procure se informar caso não conheça.” – Iggy Pop

Harry Partch
Harry Partch é um compositor avant-garde, considerado por muitos como visionário e na vanguarda entre compositores de maior nome como Aaron Copland e Virgil Thomson. Com teorias musicais que não se restringem à escala temperada, Harry Partch se viu obrigado a se dedicar à carpintaria para poder construir instrumentos capazes de executar suas peças. Nascido no inicio do século XX, escreveu e publicou o livro “Genesis of Music” em 1949, obra esta que hoje é considerada da maior importância para a liturgia musical deste século. Foi somente beirando os cinqüenta anos de idade que seu nome e sua obra passou a ser devidamente respeitada.Iggy e os irmãos Asheton simplesmente adoravam Harry Partch e suas idéias musicais. E a concepção de criar os seus próprios instrumentos para adequar as suas necessidades musicais passou a ser assimilado pelo trio. Durante todo este verão, passaram a fazer todos os tipos de experiências sonoras imagináveis. Ron passava a plugar o seu baixo em um pedal wah-wah. Com o pedal colocado em fuzztone, Ron conseguia um efeito que lembrava trovoada. Iggy também passou a tocar uma guitarra havaiana ligada a um modulador de volume. Sentado no chão, tocando o instrumento e oscilando os níveis do modulador, conseguia efeitos variados que foram descritos certa vez como o som de um avião.

Além do Farfisa e da guitarra haviana, Iggy passou a explorar as possibilidades do uso de microfones de contato - aqueles pequenos microfones que se colam geralmente em um violão acústico. Explorando o conceito, Iggy passou a testar diferentes efeitos ao microfonar coisas diferentes. Entre os efeitos mais performáticos, Iggy colara um microfone de contato em um dos tambores de óleo sobressalentes. Ele então calçava sapatos de golfe, que é necessariamente um sapato com travas altas de metal, e enquanto os dois irmãos iam levando uma base, Iggy passava a sapatear um ritmo sobre o tambor.

Entre suas criações mais exóticas, havia uma que ele usava com relativa regularidade. Trata-se de um liquidificador com um pouco de água dentro, microfonado e passando pelo modulador. Outros instrumentos incluíam um teremin, um esfregão de roupa microfonado, e um aspirador de pó, que uma vez microfonado, zunia feito um jato.

The Psychedelic Stooges

“Em uma cidade pequena, qualquer genialidade é facilmente a melhor mente da cidade. Super-Homem de uma pequena lagoa.” – Iggy Pop

A música que passavam a produzir estava completamente dentro da aceitação da época do ácido, onde o que não ficava dentro das linhas tradicionais passava a ser reconhecido pelo termo psicodélico. Nasce assim The Psychedelic Stooges. A música não é rock ‘n’ roll. Não há canções, apenas uma peça musical. Ron diria o seguinte a respeito: “Quando você não sabe como tocar, você não está restrito a um estilo. Tantas pessoas são ensinadas a tocarem de certa maneira. Quando se tem a mente livre, a ignorância é uma dádiva, pois você aparece com cada coisa interessante.”

Influenciados em conversas sobre a possibilidade de se escrever uma ópera-rock que Ron leu sobre uma entrevista do Pete Townshend, passaram a ver sua música como uma longa jornada que vai mudando conforme vai progredindo. Em sua essência, esta é a lógica original do rótulo rock progressivo, um gênero que evoluiria do rock psicodélico a partir de 1968. Mas a música que os Psychedelic Stooges estava fazendo estava mais para o que conhecemos de Laurie Anderson, do que Yes ou King Crimson, lembrando que no verão de 1967, nenhum deles ainda existia.

Com tantas engenhocas para manipular, além das coisas que Iggy queria fazer com o Farfisa e a guitarra havaiana, os Ashetons acabaram chamando o colega e vizinho Dave Alexander para ajudar. Não exatamente um membro, Dave tornara-se um assistente geral além de roadie, ajudando a preparar e executar o que pedissem, podendo ser o liquidificador ou o aspirador de pó ou outra coisa criada por Iggy. Com o final do verão, a casa foi entregue e o trio voltou para a casa dos pais. Sem precisar pagar aluguel, Iggy e Ron deixam os seus empregos e dedicam todas as tardes aos ensaios. Com o dinheiro que havia economizado, Iggy comprou um amplificador Fender Princeton e outro amp menor, tipo “cebolinha”, da marca Kustom.

Ron Richardson, que empresariava o MC-5, Bob Seager System e outros, acabou gostando do Psychedelic Stooges, e os ajudou a arranjar seus primeiros shows, sendo o début inicial em uma festa de Halloween. A festa foi organizada pelo próprio Richardson para servir de plataforma de lançamento da banda. Entre os convidados presentes na festa estavam pessoas que acabariam tendo alguma espécie de relevância para o movimento musical que acontecia em Ann Arbor e Detroit. Pessoas como Bill Laswell, Jimmy Silver, alguns integrantes do MC-5 e John Sinclair. Sobre a apresentação da banda, Bill Laswell diria, “No inicio, eles estavam apenas batendo em um monte de coisas, e não tinham nenhuma canção. O que conseguiam alcançar é um zumbido orquestral, um som que lhe deixa a beira de um transe. Uma afirmação musical totalmente única, válida e impressionante.”

Neste período em que seu contato com os irmãos Asheton passou a ser praticamente diário, Iggy passou a explorar também o uso de drogas. Outra mudança: Dave Alexander entra para o grupo como baixista. Ron volta a ser guitarrista e Iggy resolve ser apenas o cantor. “Eu acabei virando cantor por causa de Ron. Um dia estávamos conversando e ele me disse que eu estava querendo liberdade na banda. Eu concordei e ele me perguntou porque não assumia os vocais do grupo. Aceitei a sugestão.” Iggy resolveu ser cantor de vez após assistir um show do The Doors.

O Iguana Assiste o Lagarto Rei

“Se ele consegue chegar lá, então eu posso também” – Iggy Pop

The Doors se apresentam no Yoest Field House dentro do complexo universitário. Ingressos sendo vendidos somente para estudantes, Iggy entrou usando uma carteira de identidade da faculdade do ano anterior. Ron e Scott Asheton ficaram do lado de fora, donde se ouvia perfeitamente a musica. Iggy diria que ele nunca ligara para The Doors, até porque seu tipo de rock era tão diferente do que se fazia em Michigan. Iggy teria ido ao show apenas porque uma menina que ele estava querendo levar para cama queria ir.

Jim Morrison
Durante a apresentação, Jim Morrison estava visivelmente bêbado e logo se irritaria com uma turma no auditório que pedia ‘Light My Fire’. Ele começou a sacanear o público cantando somente em falsete. Quanto mais ele era vaiado, mas ele insistia em cantar com aquela voz fina. Ele acabou sendo retirado de lá antes que apanhasse do público. Iggy comentou, “Eu pensei para mim, aqui está um cara com o maior compacto do momento. Sua banda faz um som que mais parece coisa de mocinha. E o cara sobe no palco sem medo de fazer um papelão. Se ele consegue chegar lá, então eu posso também!” Iggy diria que depois daquele show, ele não tinha mais desculpas para não levar The Psychedelic Stooges para o palco e se apresentar para um público de desconhecidos.

Entra Jimmy Silver

Extremamente ativos, todos os três deram uma certa canseira no seu primeiro empresário. Em fevereiro de 1968, Ron Richardson acabou passando o posto de empresário para Jimmy Silver, já que não conseguia casar essas obrigações com o seu trabalho de professor. Através de Jimmy e sua esposa Susan, os Psychedelic Stooges mudaram para uma casa no campo, perto de Ann Arbor. A vida em comunidade acabou sendo um período estranho para o fechado Iggy, que mesmo estando ao lado de seus únicos amigos, ficou mais preocupado em descansar e aproveitar do que trabalhar. A casa seria mais tarde batizada de The Fun House.

Nesse meio período, Iggy acabou criando uma forte amizade com o empresário, com quem ficava horas e horas conversando e andando pelas estradas da região. Jimmy Silver comentou ter ficado impressionado com a inteligência e clareza de raciocínio demonstrado pelo vocalista. Nesses papos, Iggy expôs ao empresário qual era o conceito da banda que sonhava. Mas Silver também descobriria que teria vários problemas com eles, principalmente pelo excessivo abuso de drogas. O certinho e careta Iggy da adolescência rapidamente transformava-se em um alucinado, que além da maconha, abusava do LSD e cheirava cola. Iggy era obrigado a largar o hábito de tempos em tempos, por causa das crises de bronquite, e, aí aparecia o lado paternal e maternal de Jimmy e Susan, que preparavam uma alimentação macrobiótica com legumes, para poderem revitalizá-lo.

Os Stooges Entram em Cena

Blood, Sweat & Tears 1968
No dia 3 de março de 1968, os Psychedelic Stooges fizeram a primeira apresentação com sua formação clássica. Eles abriram um show do Blood, Sweet and Tears, no Grand Ballroom, casa de espetáculo organizado por Russ Gibb em Detroit. E, pela primeira vez, conseguiram deixar o público chocado com o que viam e ouviam. Como roupa de palco, Iggy usou um camisolão branco do seculo 18 que ia até seus calcanhares. Passou tinta branca no rosto e colocou uma peruca de alumínio na cabeça.

Para completar, Iggy raspou suas sobrancelhas. Ron e Scott então, passaram a compará-lo, a outro amigo, Jim Pop, que com sérios problemas nervosos, perdera os cabelos e as sobrancelhas. Os irmãos Asheton então passaram a referir a Iggy como Iggy Pop, nascendo assim o nome artístico definitivo de James Osterberg Junior.

Além de tocarem uma música que nada casava com o som da atração principal, levaram seus eletrodomésticos para o palco. Iggy sapateou com seus sapatos de jogar golfe e tudo foi o que hoje chamamos de performático mas que na época seria resumido apenas como sendo psicodélico. No meio dessa balbúrdia, executaram duas canções: “I’m Sick” e “Ashma Attack”; e roubaram as atenções. A mídia local ficou comentando sobre a banda de abertura, deixando o Blood, Sweet and Tears quase em segundo plano. Receberam 125 dólares pela apresentação.

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O furor fez com que o Grand Ballroom abrisse espaço para as bandas locais, como o MC-5, Amboy Dukes, Frost, Up, e os Psychedelic Stooges. Bandas locais sustentando a programação era coisa impensável quando a casa foi construída, já que o local tinha um espaço para mais de 2.000 pessoas e fora projetado para receber as grandes atrações. O local acabou virando um meca das bandas emergentes e até mesmo os artistas de ponta da Motown tinham dificuldades em tocar por lá. Quando a revista local, Creem Magazine, do jornalista Lester Bangs começou a apoiar sistematicamente o MC-5 e os Psychedelic Stooges, o local virou quase que um lar para as duas bandas, que também criaram fortes laços de amizade entre si. The Psychedelic Stooges abriram para um sem número de bandas que passaram por Ann Arbor em meio a suas respectivas excursões americanas. Bandas como Love, Sly & The Family Stone, The Fugs, Blue Cheer, Cream, The Troggs, Junior Wells, The Mothers of Invention, Butterfield Blues Band, Arthur Brown, The Fleetwood Mac, The Who, Pink Floyd, Albert King, John Mayall, Family, Canned Heat, Johnny Winter, Chuck Berry, entre outros.

The MC-5

Das bandas de Detroit, foi The MC-5 quem passou a realmente chamar atenção do país para si e para a cena musical que acontecia naquele pedaço da América. Isto aconteceu somente após a banda passar a ser empresariado por um homem chamado John Sinclair. Através da influência de Sinclair, The MC-5 se tornara o baluarte da banda politicamente engajada. Antes de Sinclair, era apenas uma ótima banda de boogie e rock ‘n’ roll de Detroit. Sobre o que significa o nome MC-5, trata-se de uma homenagem a sua cidade de origem. MC significa Motor City, apelido da cidade de Detroit por conta de suas fábricas de automóveis. Cinco por se tratar de um quinteto. Porém, com sua música agora se misturando com discursos políticos esquerdistas radicais, começou a ficar perigoso para a banda continuar a morar em Detroit e Sinclair acabou levando todos os membros de seus grupos a morarem juntos em uma casa de campo em Ann Arbor, não muito longe de onde os Stooges estavam morando.

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John Sinclair

Nascido em 1941, na cidade de Flint em Michigan, John Sinclair se formou em literatura em 1964 na Universidade de Michigan, perseguindo então seu mestrado até que em 1965 largou tudo para cuidar de música e poesia. Mesmo antes de se formar já atuava na comunidade de jazz de Detroit, tocando saxofone. Em novembro de 1964 formou junto com quatorze outras pessoas, o Detroit Artists' Workshop, organização que ajudou a promover inúmeros festivais de jazz e leituras públicas de poesia, sempre promovendo os talentos jovens da região.

John Sinclair
Como músico, ajudou a organizar e compor músicas para o Workshop Music Ensemble, The Workshop Arts Quartet e o Detroit Contemporary 4. Como escritor, além de fundar em 1964 a editora The Artists' Workshop Press, escreveu e publicou os livros “This is Our Music” (1965), “Fire Music; A Record” (1966), “The Poem For Warner Stringfellow” (1966), e “Meditations: A Suite For John Coltrane” (1967).Sinclair rapidamente se mostrou um escritor prolífico, escrevendo artigos para uma série de revistas como “Work” especializada em poesia (1965-1967); e “Change” sobre “avant-jazz” (1965-66). Foi correspondente da “Downbeat” revista de música para adolescentes (1964-65), e “Jazz” cuja matriz ficava em Nova York além de escrever reviews para “Crêem” de Detroit. Foi colunista do jornal “Fifth Estate” de Detroit e fundou “Guerrilla” um jornal sobre revolução cultural. Mais importante, foi um dos cinco membros originais do Underground Press Syndicate (UPS), sólida organização existente até hoje.

John Sinclair foi preso por porte e venda de maconha em setembro de 1964 e depois novamente preso em outubro de 1965, desta vez passando seis meses na cadeia onde ele aproveitou o tempo para escrever inúmeras poesias e crônicas. Ao sair da cadeia, se associou ao pessoal que organizava atividades no Grande Ballroom. Sinclair seria detido uma terceira vez, junto com cinqüênta e cinco pessoas em uma invasão da polícia no campus da universidade, ocorrido no dia 24 de janeiro de 1967.

Os Panteras Brancas

Em fevereiro de 1967, John Sinclair e um pequeno grupo da amigos organizaram o que passou a se chamar The Trans-Love Energies Limited, um misto de comunidade hippie e cooperativa trabalhista com fins de organizar eventos de contra-cultura. Na prática, o grupo produzia eventos que envolviam dança, rock ‘n’ roll, livros, panfletos, posters e o jornal “Sun”, igualmente fundado por Sinclair. Foi esta cooperativa que inicialmente começou a trabalhar com a banda de rock Up.

Na época, jovens, principalmente universitários estavam acompanhando cada vez mais de perto as atividades políticas da nação. Sinclair rapidamente se mostrou um radical ativista, encontrando em meio ao movimento alternativo de música que nascia em Ann Arbor, um ponto excelente para divagar sobre suas teorias de mudança. Trans-Love passava a ver o rock como um caminho pelo qual se poderia catequizar a massa jovem sobre as possibilidades de uma revolução cultural.

Sinclair então passou a ser empresário das bandas Up, Billy C. & the Sunshine, e a que acabou sendo a mais famosa da região, The MC-5. Sinclair procurou exercer sua influência sobre os Psychedelic Stooges também, mas Iggy não o levou a sério e assim acabou não deixando o homem se criar. Iggy, de uma forma mais simpática, definiu Sinclair como um organizador compulsivo. De uma forma menos simpática, definiria Sinclair como sendo um homem que parecia querer ser o rastafari do alternativo no meio-oeste, tentando criar um império e ser o mestre de cerimônias das ideologias políticas e artísticas de Ann Arbor.

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Os Stooges evitam Sinclair, não aceitando suas garras, e embora mantenham a amizade com os integrantes do MC5, houve um certo distanciamento. Com as guerras raciais em Detroit iniciadas em 67, a policia matou em situações escusas cerca de cinqüenta jovens. Alguns destes incidentes acontecendo nas vizinhanças de Sinclair e dos integrantes do MC-5. Depois de eventos que incluíram coquetéis Molotov e uma escala progressiva de ação repressora por parte da policia, o clima ficou particularmente tenso. John Sinclair se mudou e trouxe com ele todas as suas bandas e membros organizadores do Trans-Love para Ann Arbor, alugando uma casa na 1520 Hill Street, perto da Universidade de Michigan e não muito longe do Fun House dos Stooges. Apesar da distância de Detroit, Sinclair continuou seu estreito relacionamento com Russ Gibb, dono do Grande Ballroom, fazendo publicidade de eventos, além de promover e produzir ele mesmo uma serie de eventos na casa.

Espelhando a organização The Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras), formados por negros na Califórnia, John Sinclair junto com Pun Plamondon fundam The White Panther Party (Partido dos Panteras Brancas), em novembro de 1968. A comunidade que fora Trans-Love acabou canalizada em semear as ideologias dos Panteras Brancas, que começou como um braço do Youth International Party - fundado em Chicago no inicio do ano por Abbie Hoffman - mas que em tempo acabaria com afiliados em todo o país. A premissa maior deste grupo radicalmente contra o sistema, exigia liberdade econômica e cultural para todos e se achava no direito de usar quaisquer meios para conseguir seus objetivos. E com o poder de atração de suas bandas MC-5 e Up, buscavam disseminar a consciência política nos jovens mais alienados. Foi assim que esta ótima banda de rock e boogie ganhou notoriedade nacional e tornou-se permanentemente associada ao engajamento politico dos Yippies.

Quero Ser Seu Cão

"1968 foi o ano em que o impasse entre as gerações finalmente entrou abertamente em erupção, atos de guerrilha que transcendem completamente as antigas batalhas da Guerra Fria" - Allen Ginsberg

O Festival da Vida

Em fevereiro de 1968, o ativista Abbie Hoffman procura Allen Ginsberg e o consulta sobre a hipótese de montar um Festival da Vida em agosto em Chicago durante a semana que haveria a Convenção do Partido Democrático.

Promovido pelo Chicago Seven (Abbie Hoffman, Rennie Davis, Tom Hayden, Jerry Rubin, Lee Weiner, John Froines e David Dellinger), aproveitariam o festival para promover o Youth International Party, que passaria a ser conhecido informalmente pelo nome Yippies, e seu candidato à presidência seria um porco chamado Pigasus. A prefeitura não deu permissão para o evento, marcado para ser realizado no Lincoln Park, mas ele se realizou mesmo assim.

Centenas de jovens foram no dia 25 de agosto de 1968 para o Lincoln Park no intuito de assistir música e ouvir discursos contra o governo do Presidente Lyndon Johnson. O prefeito Richard Daley deu ordem à polícia que atirasse para matar. Naquela tarde de domingo, cerca de 10.000 jovens encontraram 11.500 policiais, 5.500 guardas nacionais, além de 7.500 tropas de choque, vindo do Texas a mando do Presidente, em pessoa.

As bandas que iriam tocar naquela tarde todas se acovardaram, menos o MC-5. Depois de atiçar o público com a música, John Sinclair fez seu discurso inflamado. Allen Ginsberg cantou "Hare Krishna" e "The Grey Monk", seguido de outro set com o MC-5 novamente inflamando a galera. Momentos depois de terminarem de tocar, a polícia, que assistia tudo à distância, entra pelas bordas do parque e passou a atacar a todos, indiscriminadamente.

Durante a semana da convenção, ocorreram outros incidentes entre a policia e manifestantes resultando no total de 1.025 pessoas com ferimentos leves, 101 hospitalizados, 668 pessoas presas. Entre os policiais, 192 foram feridos.

O prefeito Richard Daley, ao ser entrevistado, por um telejornal fez a seguinte declaração: "A polícia não está aqui para criar desordem, mas sim para preservar a desordem." Óbvio engano com as palavras, o ato falho do prefeito foi visto, por muitos, como um indicativo de suas reais intenções, e mais coerente com as ações comandadas por ele.

Elektra Records

Com uma média de no mínimo duas apresentações por mês, aos poucos, os temas abstratos executados pelos Psychedelic Stooges começavam a ganhar mais estrutura, e até riffs. As apresentações da banda variavam entre 18 minutos para meia hora, dependendo da noite. Geralmente o público fica boquiaberto com as apresentações da banda, mas para aqueles que não gostam e vaiam ou gritam comentários menos elogiosos, Iggy logo manda o sujeito ir se fuder.

Dois colunistas locais, Bob Rudnick e Dennis Farley, contactaram Danny Fields, diretor e caçador de talentos da Elektra Records, bombardeando ele com noticias sobre os sensacionais MC5. Quando a banda tocou em Chicago no Lincoln Park durante as demonstrações realizadas paralelamente a Convenção Nacional do Partido Democrata, em um evento que terminou em pancadaria selvagem entre a policia e manifestantes que protestavam contra o governo em gestão, o nome MC5 passou a ser ouvido nacionalmente. Até o escritor Norman Mailer chegou a fazer menção a eles. Para Danny Fields, pareceu o momento certo para verificar qual é desta banda.

Assim, no dia 21 de setembro, Danny Fields aterrisou em Detroit e foi levado à Ann Arbor até a casa comunitária para conhecer a banda e mais tarde assisti-los em uma apresentação no Grande Ballroom. Ficou impressionado com o esquema da casa, batizado pelos seu moradores de The Translove House, e com a figura de John Sinclair. A noite, assistiu o show da banda prazerosamente. Concluiu que tinha nas mãos um produto comercialmente viável, embora não fosse artisticamente revolucionário.

Depois do show, houve uma recepção onde conversaram e socializaram sem compromissos. Fields comentara positivamente sobre o show e que o grupo seria contratado. Aparentemente foi Wayne Kramer quem comentou com Fields: "se você gostou da gente, você deveria ouvir nossa banda caçula, Iggy & the Stooges." E na noite seguinte, foi o que ele fez. Fields assistiu the Psychedelic Stooges durante um concerto beneficente para a Children's Community School, no campus da Universidade de Michigan.

Danny Fields ficou estasiado pela apresentação. "Eu não conseguia acreditar no que eu estava vendo e ouvindo, um cliché eu sei, mas uma realidade para mim naquela primeira noite. Eu jamais vi um 'performer' tão incrivel quanto Iggy." disse Danny a respeito de sua primeira impressão. Com o fim do show, ele imediatamente se aproximou de Iggy se apresentando como executivo da Elektra. Iggy lhe olhou com desdem dizendo "tá legal, fala com o meu empresário." Iggy não acreditou que alguem sério iria se interessar pelo o que os Stooges estavam fazendo.

Porém, a impressão fora tão forte que na segunda-feira de manhã, Danny com Jimmy Silver e John Sinclair presentes, telefonou da cozinha da Translove House para Jack Holzman, negociando ali mesmo a autorização para contratar as duas bandas. Elektra Records era um selo folk até que Holzman assinou The Doors e Love em 1967. O resultado de seus esforços acabaram por transforma o Elektra Records em representante do novo som da costa oeste americana para o mundo. A fama que The Doors conseguiu para si foi diretamente proporcional ao prestígio que Elektra Records atingia.

Assinatura de Contrato

Naturalmente interessados em contratar a próxima grande coisa, uma data foi marcada para que Jack Holzman e o vice-presidente da Elektra, Bill Harvey, pegarem um avião e, junto com Danny Fields, participarem de uma assinatura formal de contrato com as duas bandas, como tambem, assistir uma apresentação destes dois novos contratados do selo. Esta apresentação foi realizada no Fifth Dimention Club. E justamente neste dia, Iggy fez um de suas mais memoráveis e espantosas performances.

Extremamente febril, com 39 graus de febre, Iggy ainda estava surdo de um ouvido e dores terríveis nas costas. Mesmo assim, começou a apresentação, que não durou vinte minutos, pois acabou desmaiando no palco. Holzman e Harvey acharam tudo aquilo muito excitante, como se fosse teatral ou planejado. The MC-5 foram contratados por vinte mil dólares, enquanto os Psychedelic Stooges acabaram contratados por cinco mil dólares. Todos os integrantes e empresários ficaram extasiados com o resultado das negociações. Estas são as duas primeiras bandas de rock de Michigan a conseguirem um contrato com uma grande gravadora.

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(Foto da festa da assinatura do Contrato com a Elektra)

Na festa da assinatura de contrato, realizado na Translove House, temos na foto oficial, em pé da esquerda para direita: Jack Holzman, Danny Fields, John Sinclair, Fred Sonic Smith, Ron Asheton, Steve Harmadek, Iggy Pop, Dave Alexander, Scott Asheton, xxx, Wayne Kramer, xxx, Emile Bacilla, Jimmy Silver, Susan Silver, Barbara Holiday e Bill Harvey. Sentados em cadeiras estão Michael Davis, Dennis Thompson, Rob Tyner e Jessie Crawford. Sentados no chão estão Sigrid Dobat, Chris Havnanian, e Becky Tyner. Também presente e tirando a foto está a esposa de John, Leni Sinclair.

A Vida Rock 'n' Roll

"Quando a gente se apresenta ao vivo, é um encontro e não uma performance. É um encontro com concepções bem abertas." - Iggy Pop

Enquanto o MC-5 ganha exposição e destaque pelo seu engajamento político, os Stooges chamavam atenção de outra forma. Como banda, The Stooges é mediano e limitado. Como cantor, Iggy tem uma voz que agüenta um show inteiro, mas que não é nenhum rouxinol. A diferença é sua postura de palco. Isto em uma época onde pose, estampa e posturas eram o que definia um artista. A esta altura, Iggy já havia começado o seu hoje famoso relacionamento com entorpecentes. Ele fumava maconha e tomava ácido, como qualquer outro jovem ligado e em contato com a sua geração.

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No entanto, diferente de qualquer outro artista daquela ou qualquer época, antes ou depois, Iggy tinha uma forma peculiar de atrair atenção de seu público. Ele simplesmente se recusava a ser ignorado e quando sentia que o público presente estava frio e desinteressado no que ele e sua banda estavam fazendo, ele topava fazer qualquer coisa para atrair as atenções para o palco.

Inicialmente Iggy usava a tática que ele aprendera com Jim Morrison, a de insultar o público. Qualquer reação é melhor do que nenhuma reação. Mas contam alguns que foi no Henry Ford College, em Dearborn, perto de Detroit, que Iggy começou a extrapolar com as fronteiras do que é permissível e aceitável fazer sob um palco. Iggy insultava todo mundo entre canções, contudo continuava a ser ignorado. Por tanto, ele pula em cima de uma menina que sentava a frente e começa a tirar um sarro e se esfregar nela, como se tivesse copulando. Meteu a mão e depois começou a agredi-la verbalmente.

Iggy comenta: "Eu gosto de tirar a roupa das meninas, sair pegando no que pegar. Pessoas falando alto e gritando, é linda música para mim. Eu não me importo com o que o público faz, é da conta deles; não é da minha conta. Eu só quero me encontrar com eles e fazer coisas." Depois comentava-se que a menina em questão era filha do coordenador da escola. Fato ou mentira, os Stooges foram de fato abolidos das áreas pertencentes à faculdade, nunca tocando lá novamente. As doideiras porém, não iriam parar por aí.

Essas estripulias iria lhe causar problemas seguidos mas Iggy acabaria preso em 11 de agosto de 1968 em um incidente curioso. Se apresentando na cidade de Romeo no estado de Michigan vestido de uma calça de couro ultra apertado de cintura baixa, tipo cocota, a calça rasgou na região da genitália em meio a uma das canções. Muitos presentes, principalmente as meninas, ficaram admiradas com o tamanho do volume que puderam ver com holofotes em cima. Iggy arrmou um pano que passou ao redor da cintura mas durante a próxima canção este caiu. Uma mulher indignada saiu do recinto, indo até a esquina onde ficava a delegacia para conversar com alguém sobre um homem com o sexo de fora em pleno palco lá no bar. Com a chegada da polícia, vinte e cinco homens armados e uniformizados, Iggy fugiu se escondendo no estacionamento dentro de um carro enquanto os oficiais seguravam a banda enquanto não encontravam o cantor principal. Quando encontrado, Iggy foi formalmente autuado e preso por indecência pública passando a noite na cadeia. Na manhã seguinte seu pai pagou $41 dólares de multa além de despesas e o rapaz foi liberado.

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Iggy tomava uma atitude definitivamente cínica em relação a toda adulação que ele recebia como cantor principal de uma banda de rock. Ele faria tudo para conseguir a atenção de seu público. E uma vez conseguido essa atenção ele prontamente dava as costas para as pessoas. Iggy passava a adotar o hábito de tirar meleca do nariz em palco, uma forma de agressão visual. Após cada show, ele escolheria umas cinco meninas para levar para casa, sentava lá com elas em círculo e ouvia discos e conversavam. Em dado momento ele soa o nariz na mão e depois joga o catarro na boca e engolia, continuando o papo como se nada de anormal acabara de acontecer. Pior, as meninas igualmente fingiam que nem notavam.

Ron Asheton conta que perdeu a conta da quantidade de vezes que ele viu Iggy subir até o seu quarto com uma menina, traçá-la e em seguida mandá-la sumir. A garota chorosa e se sentido usada era rapidamente acudida por Ron ou Scott, que cavalerescamente as levavam para seus quartos, transavam com elas e as deixavam passar a noite. Outra maldade que Iggy passou a gostar de fazer com suas mulheres era de dar LSD para aquelas que nunca haviam tomado a droga antes. Ele convencia a menina a tomar ácido e depois quando ela pirava, assustada com suas alucinações, ele a deixava de lado. A menina era encontrada às vezes petrificada sozinha no topo da escada. Ron sentia pena e procurava ficar com a donzela perdida enquanto Iggy se arrumava e saía pra gandaia. No final, Ron comia a garota também. Muitas das meninas que chegava no Fun House trazidas por Iggy para serem comidas e dispensadas em seguida acabariam em um misto de groupies e, em alguns casos, namoradas oficiais de algumas pessoas que freqüentavam assiduamente a casa.

Gravando o Primeiro Álbum

A expectativa de se gravar um álbum apenas apressou o processo natural da banda de estruturar ainda mais suas músicas no formato de canções. Ron Asheton conta que ficava com Iggy trocando idéias para canções, ele criando os riffs enquanto Iggy dava sugestões quanto o que seria a primeira parte da canção, a segunda e o refrão. Baseando-se no tema criado, ele depois escrevia uma letra. Nascia assim "I Wanna Be Your Dog" e "1969."

Em junho de 1969, a banda vai para Nova York, com intenção de gravar um disco. A produção ficou com John Cale, ex-Velvet Underground. Este seria o primeiro trabalho de Cale como produtor, e o selo considerou seu currículo com o Velvet Underground ideal para entender os Stooges e tirar deles algo vendável para o primeiro disco. Quando a banda foi comunicada de quem seria o produtor, houve uma certa confiança de estar podendo trabalhar com alguém que era um reconhecido artista alternativo e como tal haveria condições de conversarem de "cabeça aberta." Iggy confessaria também que seu interesse imediato era de ter John Cale tocando alguma coisa no seu disco.

Antes das primeiras sessões começarem, Iggy foi apresentado ao STP (Serenity Tranqulity & Peace), uma anfetamina sintética (2,5-dimetóxido-4-metilamfetamina) que age feito um especie de ácido concentrado que deixou ele viajando alucinadamente por três dias. Ron Asheton ficou encarregado de cuidar dele e para isto, amarrou uma corda na cintura de seu vocalista e foram passear pelas ruas da cidade. O nome STP, geralmente associado a um popular óleo de motor da Esso (eternizado no Brasil pela canção dos Mutantes 'Dune Buggy'), neste caso significa Serenidade, Tranquilidade & Paz. John Cale havia assistido The Stooges ao lado de Danny Fields em uma visita a Ann Arbor organizada pela Elektra. Ele foi em segredo e não se apresentou à banda. No entanto, ficou bastante impressionado com o que viu.

Com a chegada do restante dos Stooges em Nova York, eles entraram no estúdios da Hit Factory com apenas três canções prontas, mais um punhado de jams semi-estruturados dos quais um seria aproveitado e batizado de "We Will Fall". Ao perceber o despreparo, Holzman deu dois dias para que eles tenham preparadas outras canções. Ron Asheton então se trancou no seu quarto de hotel com sua guitarra e só saiu de lá depois de bolar três riffs que acabariam se transformando nas canções "Little Doll", "Not Right" e "Real Cool Time." O grupo acabou fazendo mais três e todo o processo de gravação do álbum de estréia levou irrisórios dois dias.

No entanto, a experiência para a banda foi mais frustrante do que inspiradora. Até certo ponto, Cale prejudicou o som ao confiná-los a um molde de banda conceitual. Neste aspecto, mostrou-se um grande incentivador para a peça tratado como avante-garde chamado "We Will Fall." Este tema por sinal, nasceu do interesse de Dave Alexandre pela religião hindu. Praticando um mantra e conversando com os colegas da banda sobre ele, resolveram inclui-lo junto ao instrumental, único que tem a participação de John Cale, tocando viola. Basta ouvir uma vez para imediatamente reconhecer no tema nuances do que Cale fazia no Velvet Underground.

John Cale
Ele igualmente foi criticado por propositadamente mixar os vocais de Iggy bem mais alto, tornando suas palavras quase ininteligíveis. Iggy, em costumeiro ataque histérico, convenceu Holzman então a re-mixar o disco em outra sessão sem a presença de Cale. Em sua defesa, deve-se notar que os Stooges era uma banda limitada como instrumentistas e sem absolutamente nenhuma experiência de estúdio. Até mesmo Iggy, que já gravara algumas vezes, o fizera como baterista, não participando de todo o processo de gravação da canção. No primeiro dia, parte do tempo de estúdio foi gasto convencendo todos que a banda não pode simplesmente montar seus Marshalls em frente ao microfone e colocar tudo no volume dez. E Ron e Dave teimavam que é só assim que eles sabiam tocar. No fim, Cale cansou de discutir e a banda aceitou baixar os amps para volume nove, o que pouca diferença fez.

Ron Asheton diria que apesar de gostar do disco e ficar satisfeito com ele, achou que Cale limpou demasiadamente a guitarra e o baixo. A banda na verdade era mais suja do que a versão um tanto pop que resultou no som do primeiro disco. Iggy recordando sobre as sessões, fala de como John Cale usava uma capa com a gola pra cima de forma que lembrava Drácula. Ao seu lado, durante boa parte das gravações, Nico viria para assistir a sessão. Sentada ao lado de Cale, ela passaria as horas ouvindo o pessoal enquanto tricotava uma sweater. Iggy comenta: "Os dois lado a lado formava um casal que mais lembrava Gomes e Mortisha do seriado 'A Familia Adams'." The Psychedelic Stooges então resolvem abolir a referência já datada ao psicodelismo, tornando-se simplesmente The Stooges. Foi sugerido então ao Iggy que ele passe a adotar como sobrenome o nome da banda. Iggy Pop torna-se portanto Iggy Stooge, enquanto Scott Asheton passa a ser conhecido como Rock Action.

Warhol e Hendrix

Com o disco pronto, Cale levou os Stooges para conhecer The Factory, galpão onde Andy Warhol mora e trabalha em seus projetos artísticos. O local era estranho para estes caipiras do meio-oeste e a homossexualidade aparente de seus frequentadores deixaram Ron, Scott e Dave sentados quietos num sofá sem conversar com ninguém. Iggy fez o trabalho de relações públicas e conversou rapidamente com Warhol e algumas pessoas presentes. Mas a sua atenção foi definitivamente seqüestrada por Nico, que logo mostrou extremo interesse em conhecer melhor este jovem artista. Nico já tinha fama de ser atraída por poetas e artistas emergentes. Depois de Alan Delon, Brian Jones, Leonard Cohen, Bob Dylan, Lou Reed, John Cale e Jim Morrison, chegara a vez de Iggy Stooge. Ela então combina para a noite seguinte levar Iggy e seus amigos com ela para The Scene Club, local que pertencia a Steve Paul, empresário de um outro jovem artista, Johnny Winter.

The Scene Club estava apresentando o guitarrista de blues Terry Reid que iria dentro de um mês excursionar todo os Estados Unidos abrindo os shows dos Rolling Stones. Reid, uma jovem promessa emergente na Inglaterra, é totalmente desconhecido da maioria nos Estados Unidos. Lá pelo meio do set, aparece Jimi Hendrix na casa e resolve fazer um jam com o novo amigo. Ao final da noite, depois que Jimi e Terry destilaram todo o blues até saciar, foram beber no bar da casa. Nico então chega e apresenta Jimi para Iggy e a banda. Ron Asheton faz questão de pagar uma cerveja para o seu 'guitar hero' favorito e a quem deve muito em termos de influência em seu estilo de tocar. Ao voltar para o hotel, Iggy e Nico fizeram amor pela primeira vez.

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"Distanciando-se discretamente da excelência técnica, a música era crua, apresentado com intensidade e sinceridade total..." - Lenny Kaye

Com a promoção de John Sinclair da Trans-Love e publicidade positiva por parte de Lester Bangs da revista Creem, The Psychedelic Stooges passaram a serem relativamente bem conhecidos em Detroit e arredores. A fama dos Stoogers reside principalmente na figura caristmática de Iggy Pop que assusta e preocupa espectadores pela imprevisibilidade de seus atos. Diria John Sinclair: "Iggy vai além de ser um performer - ao ponto que a coisa passa a ser psicoterapia. Excede teatralização convencional. Ele é capaz de fazer qualquer coisa. Ele mesmo não sabia o que ele iria fazer naquela noite quando subir no palco. Era excitante assistir e esperar. Pensava para mim 'Esse cara não conhece limites'."

Bangs descreve assim a presença de palco da banda: "The Stooges é uma banda que tem a força para receber qualquer público em seus termos, não importa quanta hostilidade que a audiência possa tentar oferecer. Iggy é como um matador provocando a vasta Hydra sentada diante dele. Ele se atira ao público para ver como é que fica e mesmo do palco, seu olhar se estende à procura, varrendo o local e marcando estranhos espantados que raramente ousam encará-lo de volta. É o seu palco e se você acha que pode tomá-lo, então pode tentar. Mas o Rei da Montanha irá manter o passo e a autoridade, e poucos conseguem. Neste sentido, Iggy é um verdadeiro estrela da especie mais inacreditável - ele conquistara o palco, e nada além da força de sua presença lhe confere este direito."

Mas o interesse pela banda, agora chamado simplesmente de The Stooges, realmente amplificou depois de boatos davam conta que eles acabaram de gravar o primeiro álbum. O mesmo aconteceu com The MC-5, Sinclair colocando-os para tocar em todo evento convidado, faturando o máximo de exposição possivel para a banda e suas ideologias. Interessante destacar que parte da tática de Sinclair, principalmente lidando com a mídia dos polos - Nova York e Los Angeles - incluia promover não só sua banda, mas também a idéia de que existia toda uma cena musical acontecendo em Ann Arbor no Michigan.

Em termos de exposição para a banda, Jimmy Silver faz exatamente o contrário de Sinclair, recusando convites e colocando a banda para tocar em uma média de duas vezes por semana e sempre em lugares diferentes e relativamente distantes. Isto porque o show do The Stooges ainda era de apenas vinte minutos. Eles tinham aquelas canções e nada mais e o show era basicamente igual. Regulando a exposição da banda dá tempo para o público criar interesse novamente em ouvi-los sem cansá-los.

Como artistas da Elektra, passam a ser convidados a participar de festivais de música, seu primeiro sendo o Delta Pop Festival, realizado no Delta College em Ohio. Depois vieram o Saugatuck Pop Festival em Saugatuck e o Mt. Clemens Pop Festival, em Detroit, ambos no estado de Michigan. O público e crítica nestas apresentações foram extremamente positivos, surgindo metáforas comparando-os a uma espécie de "blitzkrieg pop." A performance de Iggy agora era tão falado que certos contratos estipulava que o cantor não podia fisicamente tocar em ninguém do público, obrigação contratual que nem sempre Iggy respeitava.

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O recém eleito Presidente Nixon coloca em prática uma política de confronto contra cidadãos com atitudes consideradas anti-americanas. Cada vez mais universidades sofrerão blitz policial e o FBI e CIA passarão a espionar seus proprios cidadãos. Áreas e regiões são marcados como perigosas por conter excessiva ação anti-americana. A Califórnia e os Panteras Negras são um alvo, Chicago e os Yippies - Youth Movement Party - são outro. E Detroit com os Panteras Brancas uma terceira. Em julho de 1969, John Sinclair seria preso e sentenciado a nove anos e meio de cadeia por ser encontrado portando dois baseados no bolso. O Partido dos Panteras Brancas acabaria em definitivo em final de abril de 1971. No dia 13 de dezembro tambem em 1971, John Sinclair seria finalmente solto, em parte graças a um showmiço com a participação de todas as bandas de Detroit mais John & Yoko Lennon que trouxeram com sua presença bastante interesse da midia para o evento. Durante os dois anos e meio de cadeia que Sinclair serviu, ele escreveu um livro publicado com o título de "Guitar Army."

Entrevistas

Definitivamente Elektra procurou promover os Stooges e para tanto, acertou uma entrevista entre Iggy Stooge e Gloria Stevers da 16 Magazine, revista sobre pop para teens. A revista estava estancada em adoração por teen pop idols como Fabian e Ricky Nelson até Gloria arrancá-la, mesmo a contra gosto, para entrevistar e promover bandas e artistas mais contemporâneos e relevantes para a cena musical em geral. Sobre a direção de Gloria, 16 Magazine passou a publicar e promover cada vez mais artistas como Jim Morrison, com quem Stevers teve um caso, e os mais recentes Elton John e Alice Cooper. Iggy Pop se torna então capa da revista em agosto, época que a banda estaria se apresentando pela primeira vez em Nova York.

Conversando com um repórter, Iggy listou os discos e artistas que tiveram algum impacto na sua vida e na música que ele faz. Com bastante eloqüência, Iggy começa a lista por Chuck Berry, comentando sobre a maneira dele escolher seus assuntos em letras baseando-se na cultura americana. Achando detalhes na maneira de viver do americano comum e costurar uma canção ao redor disso. Falou-se em Bo Diddley, pela maneira dele chamar e responder nas letras, e The Doors pela maneira que Morrison faz uso de sua voz, totalmente barítono.

Destacando álbuns, menciona "Bring It All Back Home" de Bob Dylan e o primeiro do Velvet Underground, elogiando Dylan e Lou Reed pela maneira que os dois conseguem, sem demonstrar muito esforço, cantar letras mais extensas em uma golfada de ar. Iggy também destacou o disco "12 X 5" dos Rolling Stones, onde ele encontrou emoção sem deixa-la sobrepor à aspereza da canção. Comentou sobre a música "September Of My Years" com Frank Sinatra, pela habilidade dele cantar emoções durante uma canção.

Falou também sobre o primeiro disco do grupo irlandês Them, pela poesia nas músicas e destacando Van Morrison pela maneira dele reciclar clichés de blues fazendo-os soarem novos dentro de um ambiente roqueiro. Iggy não esqueceu de mencionar Tina Turner, pela sua presença de palco. Por último, comenta sobre Sun Ra e John Coltraine, pela maneira que eles conseguem usar música para te levar em uma viagem.

Agosto

Em agosto de 1969 é lançado o LP "The Stooges", na mesma semana em que acontece o festival de Woodstock e, a exemplo do primeiro disco do Velvet Underground, em 1967, o álbum foi solenemente ignorado pelo público, o que não era difícil prever, já que as duas bandas iam em uma direção totalmente nova e agressiva para o rock que fazia sucesso à época.

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O disco chega às lojas com a seguinte relação de músicas:

Lado A
1. 1969 (Alexander/Asheton/Asheton/Pop)
2. I Wanna Be Your Dog (Alexander/Asheton/ Asheton/Pop)
3. We Will Fall (Stooges)
4. No Fun (Stooges)

Lado B
1. Real Cool Time (Alexander/Asheton/Asheton/Pop)
2. Ann (Stooges)
3. Not Right (Stooges)
4. Little Doll (Alexander/Asheton/Asheton/Pop)

Entra em cena um outro personagem, Steve Harris, responsável pelo departamento de vendas da Elektra. Mais tarde Harris se tornaria vice-presidente da Columbia Records. Atraído pelo som do Stooges, que chamou atenção de Harris pelo fato de serem mesmo sensivelmente diferentes do que as bandas produziam na época. Talvez por sorte, ele gostou. Mas, reconheceu imediatamente a dificuldade que seria para vender esta música.

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Harris reúne sua equipe formada pelos principais distribuidores da Elektra no meio-oeste e coloca o disco para ouvirem. Ninguém gosta e ele precisa de muita conversa para colocá-los no "estado de espírito certo" para saírem e venderem o disco para os lojistas. O compacto "I Wanna Be Your Dog", assim como o de "No Fun", saíram nos Estados Unidos sem capa. No entanto, na Europa, em especial França e Itália, o capricho da parte gráfica foi um investimento feito como padrão.

Das poucas revistas que falaram sobre o álbum, elas ou limitavam-se a rotular como lixo barulhento ou eram razoavelmente tolerantes ao som. Na revista Circus, um crítico escreveu: "O álbum é longo e a musicalidade é mediana, mas a emoção com que as canções são entregues é tão intenso que, bem... você escolhe a analogia."

Era previsível que a revista Creem de Lester Bangs continuasse apoiando a banda. Em seu review, constam as curiosas afirmações: "'I Wanna Be Your Dog' lembra Velvet Underground de início de carreira, porém levado a outro nível de bizarrice. 'No Fun' oferece uma guitarra abusiva tocado por Ron Asheton. Por todo álbum Asheton se revela como o insano mestre da força que os Stooges canalizam em sua música. Esta é provávelmente o estilo de guitarra do futuro." Já a grande Rolling Stone definiria o álbum e a banda como "Bicho-Preguiças chapados fazendo música tediosa e reprimida que supeitamos apelará para o gosto de pessoas tediosas e reprimidas."

Chocando Nova York

The Stooges pouco saíram de seu estádo, exceção feita para a primeira excursão americana da banda. Pelo menos, foi promovido como uma excursão. Na pratica, tocaram em apenas três cidades fora do estado de Michigan com cerca de dez dias separando estas datas. Todos as demais apresentações foram em seu estado, sendo que a grande maioria na cidade de Detroit e que talvez nem possa contar como parte de uma excursão.

Junto com os inseparáveis amigos do MC-5, começaram a pequena excursão no dia 29 de agosto. As bandas fizeram a primeira apresentação em Nova York, tocando no New York State Pavillion em Flushing Medows no Queens. O set dos Stooges era formado de apenas quatro canções, "1969", "Not Right", "No Fun", e "I Wanna Be Your Dog", somando uma duração de aproximadamente vinte minutos. Após o fim do primeiro número, não perceberam nenhuma reação do público, deixando a banda bastante nervosa e desconfortável. Como era de costume, Iggy passa a insultar a platéia, recebendo alguns insultos de volta como resposta.

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Depois da segunda canção, alguém jogou uma lata na direção de Iggy que imediatemente a pegou e jogou de volta na direção de onde veio. Depois da música seguinte outra lata é arremessada. Antes da última canção, alguém joga uma garrafa que se espatifa no palco. Então Iggy faz história, da forma mais bizarra. Enquanto cantava "I Wanna Be Your Dog", Iggy passou a se rolar sobre os cacos de vidro, se cortando todo no peito e costas, sujando o palco todo de sangue no processo. O público passou a um silêncio gélido, alguns não acreditando no que estavam vendo. Para situar-se, este é um mundo onde figuras como Alice Cooper ou David Bowie, embora já gravassem, ainda estão para se afirmar na indústria. Rock 'n' roll era basicamente uma coisa sem muitas surpresas, as pessoas chegavam e tocavam. Não havia muito teatro, e o pouco que havia, em nada se assemelhava a isso.

Ao fim da canção, Ron deixa sua guitarra junto ao amplificador com microfonia soando a pleno volume, enquanto Iggy deixa o palco. Em uma arena com três mil pessoas, uma ou outra pessoa, de maneira tímida, tenta aplaudir. Alguém da direção então coloca nas caixas o Brandenberg Concerto, de Bach. Anos depois, Alan Vega, vocalista da banda Suicide diria que ele estava neste show. Em entrevista ele comenta: "Depois de assistir The Stooges minha vida mudou. Percebi que tudo que eu fazia até então era uma farsa. Eu era fã do MC-5 e fui ao show para vê-los. Mas, depois de ouvir os Stooges, não dava mais para ouvir MC-5. E eles sabiam disso também. Iggy era insuperável."

Stooges nos Estádios

Retornam para Detroit onde se apresentam agora em estádios, no dia 31 tocando no Benedictine Stadium e no dia 5 de setembro no University of Detroit Stadium. Depois retornam para o leste indo tocar em Boston, onde abriram um show do Ten Years After, banda de Alvin Lee. Mais uma vez Iggy não perdoou a platéia, que não conseguia entender ou vibrar com a apresentação insana dos Stooges. Determinado a não ser ignorado, depois de alguns insultos, Iggy passa a se arremessar no ar, caindo violentamente no chão e invariavelmente se ralando e sangrando todo.

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Três mil pessoas presentes, exclusivamente para ver Ten Years After, não deram a mínima para os Stooges, que no entanto, ao final do set, foram aplaudidos. Se por nada, The Stooges impressionaram pelo esforço. Um fã anônimo do Ten Years After, ao ser entrevistado, conta que ele e seus amigos foram todos para ver o show de Alvin Lee, mas se impressionaram com a apresentação do The Stooges: "Eu tinha ouvido falar que ele se jogava no chão até sangrar, mas não acreditei até vê-lo. Fiquei surpreso ele não deixar o palco de maca. Quanto tempo que um sujeito assim vai conseguir durar?"

Nos bastidores naquela noite, a maioria das groupies só queriam saber de Alvin Lee e Ten Years After, porém havia pelo menos uma que tentou se esfregar com os Stooges. Ela queria Iggy, que todo cortado e ainda tímido, evitou-a. No Holliday Inn onde ficaram, a menina acabou dormindo com o repórter da revista Rolling Stone que estava acompanhando o festival.

Wendy

Retornam para os pequenos clubes, tocando em Wampler's Lake, em Michigan, depois Delaware e Ohio, estes últimos, dois locais onde eles eram consideravelmente desconhecidos e com público que varia entre 20 a 200 pessoas, dependendo de quem conta a história. Foi em Delaware que Iggy reencontraria uma colega de sala do primeiro semestre da faculdade, a encantadora Wendy Weisberg. Conversam antes do show sobre o disco novo e Iggy subiu ao palco naquela noite muito afim de fazer um ótimo show e impressionar. Mas o público não estava lhe dando a devida atenção e Iggy entra no já habitual espirito de auto-flagelo. Se joga no chão, se rala e se sangra. Perto do final, Iggy pega duas baquetas e começa a se esfaquear no peito com as baquetas até rasgar a própria carne.

Iggy comentaria depois que não estava doendo e para ele, o som da banda ficou até melhor depois disso. Wendy entrou no recinto e logo foi falar com o amigo, toda preocupada que ele tenha se ferido tanto. Toda a paixão reprimida de dois anos atrás aflorava novamente, e Iggy está encantado por ela se preocupando com ele. Iggy em sua maneira típica, confessou todo o interesse que ele tinha por ela, mas Wendy, sem graça, explicou que estava acompanhada e namorando.

Seguindo seu ímpeto, após uma sequência de apresentações em Detroit e arredores, Iggy alugou um carro e foi até Columbus, Ohio, cidade onde ela estava morando e estudando. Wendy achou tudo romântico, e o tal namorado acabou dançando. Iggy passou a morar alguns dias da semana com ela e depois voltava para Ann Arbor quando Jimmy Silver arrumava apresentações para a banda. E assim se deu o namoro até que um dia, Iggy a pediu em casamento, proposta que Wendy aceitou.

O Casamento

Prepararam os papéis e realizaram a cerimônia no Fun House, residência onde Wendy passaria a morar também. Wendy era judia e sua família foi contra o casamento, portanto nenhum de seus familiares participaram do evento. Algumas de suas amigas vieram de Ohio e acabaram pernoitando no Fun House, por alguns dias. Jimmy Silver, que tambem era judeu, realizou a cerimônia.

Ron Asheton
Ron Asheton foi o padrinho de casamento e para a cerimônia, foi vestido com sua roupa de piloto nazista, adornado com várias medalhas que ele possuía daquele exército, de sua coleção particular. Billy Chetham, um dos roadies da banda, comprou um tênis novo para o dia da cerimônia. Dave Alexander apostou que o tênis duraria mais que o casamento. Quase todos os integrantes do MC-5 estavam presentes entre os convidados, assim como Danny Fields que viera de Nova York, na noite anterior. Fields estava muito nervoso e preocupado que o casamento atrapalhasse a imagem do cantor.

Scott Asheton hasteou uma bandeira da Sears na frente da casa, mas a polícia passou e exigiu que tirasse. Segundo a lei, apenas pode-se hastear a bandeira americana. Scott então buscou uma bandeira Suíça (outra versão conta que a bandeira era de Cuba) mas foi impedido pelo policial. Depois de uma conversa, combinou-se de não usar o poste para hastear bandeira alguma. Quando a polícia foi embora, Scott hasteou uma bandeira nazista.

Para o desespero do pessoal do MC-5, toda comida servida foi macrobiótica e nenhum deles comeu nada, apenas beberam. Kate Asheton usou, possivelmente pela primeira vez desde o primário, uma saia. Segundo ela, Iggy não conseguiu tirar os olhos de suas coxas. Iggy pegaria Kate comentando com uma amiga "He's got a TV Eye on me." ("Ele está com um 'Olhar de TV' sobre mim.") Percebendo tratar-se de algum código novo, ele procurou saber do que se trata. Kate rindo explicou que TV Eye significa Twat Vibe Eye (olhar com vibrações para a xibiu). Kate e Iggy acabariam trepando, mas não nesse dia.

A maioria dos Stooges passaram a beber na varanda e apostar em voz alta no fracasso do casamento dentro de algumas semanas. A estação de rádio WABX telefonou para sua casa pedindo para confirmar se era verdade que ele tinha casado, isto com a rádio no ar, direto e ao vivo. O DJ, do outro lado da linha, não conseguia acreditar na veracidade, só faltando perguntar 'quem iria casar com Iggy Pop?' Sobre o incidente, Iggy resume-se a dizer que a entrevista no rádio lhe ensinou sobre publicidade e o ângulo do interesse humano.

Depois de ver seu antigo quarto de solteiro ser invadido por móveis da Wendy, rapidamente o encantamento do casamento desapareceu. O primeiro sinal grave de problema foi quando Wendy começou a falar mal de sua banda. Ela discursava de como eles estavam atrasando sua vida e que ele se daria melhor com músicos mais capacitados. Iggy ouvia isso e pensava em como uma pessoa que ainda não realizara nada pode se achar no direito de diminuir o trabalho dos outros com essa facilidade.

Falando sobre seu casamento, Iggy jura que amava a Wendy, mas amava sua carreira e sua banda ainda mais. Depois de um episódio tentando compor no meio da madrugada, escondido no armário com amp e guitarra, tudo bem baixinho para não acordá-la, acaba concluindo que precisava do volume para concluir a canção. Foi mais ou menos assim que ele deu a luz para a canção "Down On The Street", e enterrou seu casamento.

Iggy conta que ele era ciumento e ficou cismado que Wendy estava olhando demais para Scott Asheton, o que pode ser uma desculpa ou não. Outra bola fora foi Wendy pedir para que ele pare de fumar maconha. No final das contas, somando tudo, Iggy pediu para ela ir embora depois de um mês. Dado a sua dispensa no exército por homossexualidade, ele consegue anular o casamento alegando que o mesmo não foi consumado devido à comprovada homossexualidade. Quando os papéis de divórcio chegaram, ele ficou tão orgulhoso que enquadrou e pendurou o documento na parede.

Betsy

Poucos dias após Wendy ir embora Iggy, vasculhando as ruas, acabou encontrando uma lanchonete interessante. O mais agradável deste local é poder ficar sentado no fundo, observando os estudantes e como eles se comportam uns com os outros. Analisando o comportamento destes jovens, Iggy utiliza estes dados como inspiração para suas canções. Foi neste local que Iggy conhece Betsy, de apenas quatorze anos. Menina loura de pele branca e com cara de sapeca, Betsy e Iggy engrenam no maior papo. Logo, ela se torna freqüentadora assídua do Fun House, para o desespero de Ron Asheton, que teme ter uma invasão da polícia e que todo mundo acabasse preso. Apesar das preocupações coerentes, Iggy tentou resolver o problema pedindo Betsy a arrumar uma amiga para Ron. Quem preencheu esta lacuna foi Danielle, igualmente com quatorze anos, que Ron comeu algumas vezes antes do medo reinar sob o tesão e a expulsar da casa. Iggy no entanto, continuou a correr o risco e nunca deu em nada. Apesar de seu relacionamento com Betsy durar bastante tempo, Iggy mantinha relações com outras mulheres, incluindo Kathy, irmã de Ron e Scott, que embora ainda menor, já se mostrava uma groupie de marca maior. Betsy acabaria eternizada na canção "Dog Food" e Kathy em "TV Eye."

Nico

"Quando ela falou que queria ir para Michigan comigo pensei, 'O que uma dama sofisticada como ela quer fazer num lugar daqueles? Ela deve ser louca.' E ela era mesmo e eu lhe devo o mundo."

Dia 24 de fevereiro de 1970, The Stooges se apresentam no Ungano's Club, em Nova York. Durante os dias que antecedem a apresentação, Iggy estava na cidade visitando Nico, que morava no Chelsea Hotel em um pequeno quarto. Nele havia ainda um pequeno teclado onde Nico praticava algumas coisas para o seu LP solo, "The Marble Index", que acabara de gravar. Iggy e Nico começaram quase que instantaneamente ter um tórrido romance.

As apresentações no Ungano foram um sucesso. O local, lotado com gente da trupe da Factory de Andy Warhol e outros homossexuais amigos dos amigos, aplaudiram efusivamente o performance de Iggy que foi depois convidado a frequentar o bar Max's Kansas City, famoso ponto gay/artístico da baixa Manhattan. Embora ninguem dê nomes aos bois, há estórias de Iggy frequentando o salão de trás da casa, famoso pela sua jarra de vaselina na entrada e largamente utilizado para bate papos, boquetes e sexo anal pela clientela VIP do local.

Quando chegou a hora da banda voltar a Michigan, Nico pediu para ir junto. Ela passou a morar no Fun House com Iggy e o grupo. Além do namoro, Nico incentivava que Iggy usasse cada vez mais LSD. Mentalidade de uma época, ela criticava o empresário da banda por dar poucos aditivos químicos aos músicos, dizendo que era impossível que se apresentassem sem estarem chapados. Nico argumentava que o público não queria ver uma pessoa comum em um palco, queriam perfomances, e que as drogas eram essenciais no contexto.

Nico
Iggy ficou apaixonado pela Nico e ela certamente o influenciou e o inspirou. Iggy agradece a Nico por ser um bom ouvinte, fortificando assim sua segurança, como também ensinando ele a ser um melhor amante. "Ela foi quem me pegou, magricelo e ingenuo, e me ensinou a chupar xoxota, como também beber vinho Alemão e Champagne Francês. Foi assim que aprendi a modular minha voz e falar com executivos de gravadoras."

Passam o inverno juntos em Ann Arbor, trepando muito, com ocasionais pausas para realizar os ensaios com a banda, que começa a se irritar com a presença constante da Nico, inclusive nos ensaios, local teoricamente proibido para namoradas, groupies e curiosos até então. Mas, Nico cozinhava arroz macrobiótico para todos e aparecia com vinhos importados, quebrando qualquer gelo que ameaçava iniciar. Nico acabou morando três meses no Fun House com a banda, antes de retornar à Manhatten.

Quando ela deixou Manhatten, Nico havia negociado com o cineasta François De Menil, que queria filmar algo com ela, a possibilidade de trabalharem juntos, possivelmente no filme promocional para uma canção de seu primeiro disco. Enquanto em Michigan, ela telefona para François e o convida para filmá-la em Ann Arbor com Iggy, a quem ela chama apenas pelo seu nome, Jim.

Luz da Tarde

E foi assim que acabou sendo rodado em 16mm, um filme chamado "An Evening of Light." A película, editada originalmente para seis minutos de duração, acabou não servindo como promo. Contudo acabaria sendo aproveitada como parte de um documentário sobre Nico na década de noventa, após sua morte. Algumas cenas foram filmadas em um milharal (ou batatal) coberto de neve, mostrando Iggy e John Adams dançando e pulando, sem camisa na neve, ao redor de manequins desmembrados com braços e pernas fincados na neve. Como diria Ron Asheton: "Tudo artístico até demais para entender." Outras imagens incluiriam os demais Stooges olhando por uma janela e participações de Tom Wehrer e Chris Delay.

John Adams ficou com a turma, e instigado pela música, se prontificou para trabalhar como roadie. Adams era de familia abastada e chegou a emprestar dinheiro para que a banda pudesse comprar equipamento melhor. Quase cinco anos mais velho e mais vivido, Adams era um ex-junkie que estava em busca do bucolismo das matas que cercavam o Fun House, perfeitamente integrado com a alimentação macrobiótica que ele tambem adotara para si. John Adams se tornou uma amizade duradora e um ótimo roadie para a banda.

Morando quase três meses com Iggy e a banda, o relacionamento entre Nico e Iggy começava a se desgastar drasticamente. Iggy passou a tratá-la mal até ficar óbvio que a lua-de-mel acabou e estava na hora dela ir embora. Dois dias depois que Nico havia deixado Ann Arbor, Iggy descobre que está com chato.

Casa da Alegria

Apesar de não gostarem da política e ideais de John Sinclair, não se pode subestimar a influência que este teve com várias bandas de Detroit e Ann Arbor, incluindo os Stooges. Seus conhecimentos de jazz trouxeram a oportunidade de Iggy e os irmãos Ashetons ouvirem vários artistas, como Pharaoh Sanders, John Coltrane e Sun Ra, alguns dos apresentados a eles. Outro músico que claramente fala da influência de Sinclair é Steve McKay, saxofonista da banda Carnal Kitchen, grupo que acabaria fazendo parte da cartela de bandas empresariadas por ele. Sinclair apresentou-lhe Archie Shepp e uma mudança em seu estilo de tocar o saxofone, bem mais experimentalista, que passou a despertar atenção do público.

O Quinto Stooge

Steven McKay, 1970
Assistindo Carnal Kitchen em sua noite de estréia ao vivo, Iggy Pop ficou extasiado com os improvisos deste jovem saxofonista e prontamente o convidou a vir tocar em um ensaio com os Stooges no Fun House. Iggy queria dar mais corpo ao som dos Stooges e após o fim daquele ensaio, convidou o saxofonista Steven MacKay para juntar-se a eles. The Stooges busca explorar as possibilidades de uma banda com um ar diferente, Iggy definindo suas pretensões musicais como "se Coltrane ou Shepp fossem incorporados por um grupo de rock". MacKay, que já era um saxofonista experimentalista, caiu como uma luva no som da banda.

McKay passa a acompanhar os Stooges nas suas turnês, tocando em apenas algumas músicas. "Fun House" foi a primeira, entre as novas, que nascera praticamente pronta naquele primeiro ensaio. Refinamentos dos arranjos, assim como também da letra, viriam aos poucos em algumas apresentações em Ann Arbor antes da ida da banda para Califórnia, estado onde iriam tocar pela primeira vez.

Imagina você agora estando lá em uma dessas apresentações. Um público de bar aguardando, com o semblante demonstrando curiosidade e expectativa. Entra a banda no palco, os Stooges começando suas apresentações agora com "Little Doll". Destaca-se o baixo de Dave Alexander tocando pesado. Ron Asheton então passa a soltar acordes dilacerantes enquanto Scott Asheton faz sua imitação de Elvin Jones dos pobres. O saxofone de Steve McKay está agora esgoelando a todo volume, imaginando todas as pessoas presentes gritando em agito frenético equivalente. Então, a guitarra se solta em um chaos à lá John Coltrane; feedback pra-que-te-quero e Ron arrancando à unha os mais diversos sons e dissonâncias de seu instrumento. Tudo isso com Dave Alexander ainda segurando o riff, sozinho. E, depois que a coisa acalma um pouco..., só então entra Iggy Pop, esfaqueando o público com um olhar. É quando o show realmente começa!

San Francisco

"Tão mal-amada. Tão bela. Tão largada."

Em maio de 1970 a banda toda estava na Califórnia, onde se apresentariam duas noites no Fillmore West em San Francisco e uma noite no Whiskey A-oGo de Los Angeles. Os dois locais são casas notórias, onde as melhores bandas já tocaram. The Doors, por exemplo, se fez no Whiskey A-Go-Go, localizado em Los Angeles, e vários LP's ao vivo foram gravados lá. O mesmo pode ser dito do Fillmore West em San Francisco, local onde surgiram Grateful Dead, Big Brothers & the Holding Company e o Santana Band. Nesta ocasião no Fillmore, os Flaming Groovies seguidos então por Alice Cooper, abrem para os Stooges.

Stooges no Fillmore
Conversando nos bastidores, Iggy conhece Augustus Owsley Stanley III, um dos mais famosos químicos e fabricante de LSD nos Estados Unidos. Iggy que, até então nunca tinha visto o mar, quanto mais conhecer a costa oeste e suas celebridades, não acreditou em metade do que Owsley falou. Durante o show, Iggy ficou impressionado com um grupo de cavalheiros vestidos com o que lhe parecia mantas árabes.

Eram integrantes de um grupo teatral chamado Cockettes, vários de seus integrantes travestis. Conversaram depois do show e o convidaram para uma festa que estava para rolar na casa de uma destas pessoas. Durante a festa, ficou cada vez mais claro que tratava-se de uma festa Gay. Iggy, que praticamente desconhecia homossexualidade até então, passou a se sentir estranhamente intimidado com homens lhe dando o olhar.

Nesta festa, Iggy também conheceu Tina, uma latina de catorze anos que se prostituía para poder comprar heroína. Baixinha, com olhos grandes e uma boca carnuda, Iggy colou nela e tentou levá-la para seu hotel com propósitos claros. E Tina topou. Durante o ato, Tina suplicava para que ele batesse nela, implorando que ele a machucasse. É a primeira vez que Iggy conhece sado-masoquismo em uma experiência pessoal. Iggy deixou Tina e San Francisco, indo para Los Angeles, trazendo consigo uma infestação de piolhos, lêndeas, chatos e, segundo o próprio, dois tipos de doenças venéreas.

L.A. Tropicana

Em Los Angeles, The Stooges ficaram hospedados no Tropicana Hotel, onde por acaso, estava o escritor Beat e ex-Fugs, Ed Sanders. Escrevendo um livro sobre uma comunidade alternativa chamada "A Família", Sanders recebia diariamente vários de seus membros em seu quarto que ficava em frente ao quarto de Iggy. A "Familia" ficaria conhecida pelo seu carismático líder Charles Manson, e os assassinatos hediondos que cometeram. Porém em maio de 1970, a polícia ainda não suspeitava de nenhum de seus membros.

Outra banda hospedada no Tropicana era o Shiloh, que logo teriam o seu álbum de estréia lançado. Quatro de seus cinco integrantes formariam The Eagles dentro de dois anos. Igualmente estava hospedado neste hotel todo o elenco da peça "Heat" produzida por Andy Warhol. Existe inclusive uma pequena história que dá conta de Warhol ficar admirando à distância Iggy nadando na piscina do hotel, impressionado com suas braçadas. Quando Iggy finalmente saiu da piscina, foi elogiado pelo preparo físico e convidado a visitá-lo em seu quarto. Iggy mais tarde foi de fato vê-lo, porém deixa claro que trocaram uma amigável e educada conversa e que a porta do quarto ficou o tempo todo aberta...

Mas a principal razão para os Stooges estarem na Califórnia era a gravação do seu segundo álbum. Este foi muito bem pensado por parte da banda, Iggy deixando claro que não quer fazer nada como no primeiro. "Eu não quero fazer um segundo álbum que soa como algo do primeiro porque o primeiro álbum já foi feito".

Entra Don Galucci

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Holzman determinou que o grupo tivesse um produtor com uma visão mais "comercial" e descartou de cara John Cale, que provavelmente não iria querer trabalhar mais com Iggy de qualquer maneira. Foram estudados vários nomes como Madeira, que produzira Chubby Checkers e Danny & the Juniors; Jim Peterman, o ex-tecladista de Steve Miller, agora trabalhando para a Elektra; e Eddie Kramer, que trabalhara com os Rolling Stones e Led Zeppelin até então. Acabaram optando por Don Galucci, tecladista dos Kingsmen, cujo acorde inicial "Louie, Louie" o faria famoso. Ele tinha quinze anos na época. Ao fim daquela banda, Galucci formou Don & the Goodtimes que seria a banda da casa no programa "American Bandstand" de Dick Clark.

O nome de Galucci agradou a todos pois o conheciam como Little Donnie Galucci da banda do "American Bandstand". À princípio, acreditava-se que haveria uma harmonia artística maior entre a relação produtor-artistas. Galucci procurou assistir um show dos Stooges para conhecer melhor o som da banda dentro de seu próprio reduto. Baseado no que ele ouviu e comparando ao primeiro álbum, Galucci logo deixou claro que pretendia dar outra cara ao som gravado da banda. Argumentava que queria transmitir a mesma vitalidade e energia ao vivo, e que não iria mexer tanto na essência do que considerava o som básico do grupo.

Funhouse

As gravações foram realizadas no Elektra Studios, situada na Santa Monica Boulevard. Chamado de "Funhouse", o segundo disco demorou duas semanas, entre 11 de maio até dia 24, para ser gravado. Apesar de Iggy e companheiros viverem chapados o tempo inteiro, quando entravam no estúdio com Galucci apareciam limpos e sóbrios, já que o produtor não usava aditivos químicos. Como prova de respeito e gratidão pela simpatia e generosidade, os integrantes procuraram facilitar a vida de Don o máximo possível.

Como Iggy desconfiava de técnicas de gravação, todas as canções do álbum foram gravadas ao vivo no estúdio, incluindo o vocal. A cada dia Iggy escolhia uma canção e esta era a que gravavam e regravavam até estarem satisfeitos com o resultado final. Ao lado de Don Galucci estava Byron Ross-Myring, o engenheiro de som, que é igualmente responsável pelo som final do álbum, eliminando vazamentos que naturalmente ocorrem em uma gravação realizada desta maneira.

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Lançado exatamente um ano após o primeiro, em agosto de 1970, "Funhouse" teve repercussão e vendas um pouco superior ao disco anterior, embora bem longe do que a Elektra desejava. O som do disco era totalmente diferente que o primeiro, como Iggy sonhava. Don conseguira um excelente resultado ao tentar capturar a química da banda ao vivo dentro de um estúdio. O som era mais cru, potente, os vocais de Iggy ficaram mais enterrados do que no anterior, e Steven fez seu sax soar às vezes como uma guitarra, ou como um Coltrane mais ensandecido do que nunca.

Presepada no Palco

Uma das razões que levou o disco a vender mais que seu antecessor foi a exposição que The Stooges, mormente Iggy, recebeu graças a sua apresentação na cidade de Cincinnatti, Ohio. Realizado em Crosley Field, um estadio de beisebol, no dia 13 de junho de 1970, este festival contava com shows de Alice Cooper, Stooges, Traffic, e, uma das mais populares bandas americanas do momento, Grand Funk Railroad. Durante a apresentação dos Stooges, Iggy começa a andar sobre o público, literalmente colocando o pé sobre o ombro de um rapaz e depois outro, seguindo assim, escorado pelo público, cantando o show alguns metros à frente do fim do palco. Em determinado momento, alguem lhe passou um pote de pasta de amendoim e Iggy começou a fazer loucura com ela, se melecando todo e depois lançando nacos do produto sobre o povo.

Cincinnatti Pop Festival

A apresentação do festival foi todo filmada e uma edição, dando muito destaque a esta apresentação dos Stooges, passou na televisão, costa a costa, pela NBC sob o título de "A Midsummer Night's Rock." Foi a sorte grande, dando aos Stooges uma publicidade inesperada e muito bem vinda. O nome The Stooges e a fama de louco no palco de Iggy Pop passam a ser conhecidas por todo o país entre a rapaziada e não só entre algumas poucas pessoas que viram a banda abrindo para seu grupo predileto. "A Midsummer Night's Rock" seria depois retransmitido na Inglaterra, onde David Bowie vê e ouve pela primeira vez os nomes Iggy Pop e os Stooges.

Se a brincadeira com o pote de pasta de amendoim foi uma bobeira divertida que todo mundo gostou, houve outras presepadas que foram menos gloriosas. Uma das mais, ou no caso, menos memoráveis foi quando Dave Alexander tentou imitar Jimi Hendrix. O baixista dos Stooges levou consigo para o palco uma latinha de fluido e em dado momento do show, deitou seu instrumento no chão cerimoniosamente, pegando sua lata e esguichando o fluido pelo baixo. Quando Dave acendeu o fósfero e jogou-o sobre o baixo, o instrumento explodiu em chamas de quase dois metros de altura, imediatamente queimando parte de sua vasta cabelereira. Apavorado, ao mesmo tempo sem querer pagar mico no palco diante de seu público, Dave matuta a melhor forma de apagar o incêndio que iniciara. Em sua infinita sabedoria, resolve abafar o fogo se jogando por cima das chamas, queimando a camisa nova emprestada por Iggy e chamuscando um pouco seu peito.

Teto Preto

"Não tenho nenhum comentário ou opinião sobre o que as pessoas falam sobre as coisas que eu tenha feito." - Iggy Pop

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O verão de 1970 segue com mais festivais. Os Stooges se apresentam em em Atlanta, Monterey, Maryland, Central Park (em Nova York), seguindo depois para o Canadá onde se apresentaram em festivais realizados em Winnipeg e Toronto. E durante toda esta rotina exaustiva de viajar e tocar, o consumo de entorpecentes era uma constante, a ponto de, no início de agosto, durante um festival em Goose Lake, Michigan, Iggy Pop literalmente "apagar" antes do show.

O evento contava com artistas de Michigan como Bob Seager, SRC, The Stooges e Brownsville Station, além de atrações maiores como Canned Heat, Savoy Brown, Jethro Tull, Joe Cocker, Ten Years After, Alice Cooper, Chicago, James Gang, John Sebastion, The Flying Burrito Brothers e Mountain. Foram três dias de festival, atraindo um público considerável estimado em cerca de cem mil pessoas.

Iggy e Zeke Zettner, seu amigo e mais um roadie dos Stooges, estão cheirando um pouquinho de tudo durante o primeiro dia do festival. Os Stooges só irão se apresentar na noite seguinte. Pulando de tenda e tenda, conversando, fumando, bebendo e cheirando passam-se as horas. Segundo o próprio, de uma hora para outro Iggy teve amnésia total. Toda noção de ser ou propósito havia sumido, Iggy agora estando em um estado de transe, feito zumbi, sem consciência de absolutamente nada, seu mundo naquele momento era exclusivamente aquela tenda. Foi ouvindo a música que tocava lá longe no palco, que aos poucos Iggy foi trazido à consciência, lembrando que ele tinha algo a fazer. Iggy então acordou, levantou, deu boa tarde para todos, e voltou para o seu hotel. Sua imagem de um completo alucinado ganha um número maior de testemunhos.

Durante o show naquela noite, Iggy, ainda alto, aquecido pela adrenalina natural de estar no palco se apresentando, se irrita com a muralha construída para separar o público do palco e monitorada por policiais com cães e outros à cavalo. Iggy passa então a convidar o pessoal a chegar mais perto, imediatamente iniciando uma invasão dos alucinados sobre a parede. A polícia, vislumbrando no artista um maluco perigoso, manda tirar a banda do palco, ato realizado ao apertar de um botão, graças a um palco giratório, movido à motor. No entanto, Bernie, outro roadie da banda, que antes deste emprego dirigia um tanque no Vietnã, deu uns socos em quem controlava o tal motor, deixando-o desacordado. Imediatamente os Stooges, que se recusaram a parar de tocar, voltavam para o centro do palco, lá continuando até o final de sua apresentação.

Sai Alexander

Pouco depois disto, o show seguinte em Saginaw, Michigan, onde The Stooges tocaria pela ultima vez com sua formação original. Dave Alexander, cada vez mais tenso se apresentando para multidões, e mostrando sinais de fadiga de estrada, resolveu encher a cara antes do show, fumou uma quantidade exorbitante de maconha e ainda por cima tomou dois calmantes. Quando chegou a hora de tocar, Alexander não se lembrava de nenhuma das canções, nada do que ele deveria estar fazendo, portanto ficou de pé lá, embromando enquanto a banda atacou os números feito trem lotado. Depois da apresentação, Dave acabou sendo expulso por Iggy, que não aceitava mais ver o companheiro bêbado no palco e sem conseguir tocar direito.

Billy Cheatham
A principio Ron e Scott ainda tentaram colocar panos quentes, mas Iggy não quis nem saber. Para o seu lugar Iggy buscou pessoas que já trabalhavam com ele, entrando assim dois roadies: Zeke Zettner, que assumiria o baixo e Billy Cheatham, o ex-companheiro de Ron no Dirty Shames, que passa a tocar uma segunda guitarra. Os Stooges eram agora um sexteto. Com essa formação, fizeram quatro shows no Ungano, em Nova York, onde ocorreu mais uma dentre tantas histórias de excessos praticados por Iggy Pop. Dave Alexander acabaria morrendo no dia 10 de fevereiro de 1975, de pneumonia, contraída após uma operação de pâncreas.

Adiantamento Para Pagar o Aditivo

O primeiro show dos Stooges com a nova formação foi no Ugano's de Nova York, com a banda sendo convidada para uma serie de quatro noites. Após o sucesso da apresentação em Cincinnatti, evento televisionado e visto ao redor do país, e as vendas melhoradas do seu segundo disco "Funhouse", os Stooges foram obrigados a deixar o formato de um show de vinte minutos para apresentações completas que duravam cerca de quarenta e cinco minutos. No entanto, Iggy e a banda continuam os mesmos: preguiçosos e cada vez mais chapados do que nunca. Esta é literalmente a primeira vez que eles se apresentam quatro noites seguidas, o dobro do que haviam feito até então.

Para o esforço, uma vez em Nova York, Iggy conhece no Chelsea Hotel onde a banda ficara hospedado, um contato chamado Billy, que oferecia cocaína de excelente qualidade. No entanto, a banda vivia dura, sem recursos para quase nada. A solução inusitada de Iggy foi ir até os escritórios da Elektra e conversar com Bill Harvey, vice-presidente do selo. Com muito tato, Iggy passa a explicar que, para ele poder se apresentar em quatro noites em seguida, seu corpo precisaria do auxilio de cocaína. Portanto era do interesse da gravadora, para proteger seu investimento com a banda, bancar a despesa, providenciando os $400 dólares necessários para comprar uma onça (28,3 gramas), quantidade suficiente para abastar todos durante a realização destas datas.

Estupefato de início, Harvey logo ficou histérico com o pedido do cantor, e disse que em nenhuma hipótese iria sustentar o vício de drogas ilícitas de Iggy ou da banda. Porém, Iggy sendo Iggy, passa a pular pelo escritório exigindo o dinheiro e criando uma situação tão insuportável que Bill deu os $400 dólares só para se livrar dele. Em troca, Iggy assinou um documento declarando o dinheiro como um adiantamento por royalties devidos da venda do álbum. Os quatro dias e noites foram à base de cocaína, ninguém comendo praticamente nada durante toda a estadia.

Quatro Noites no Ugano's

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Miles Davis veio para assistir o show e ficou até o final. No camarim, conversando com a banda, Miles foi convidado a cheirar com eles. Ron Asheton com o maior orgulho de ter a sua cabeça ao lado da de Miles Davis, cafungando carreiras de pó. Durante o show, Miles sentou ao lado de Johnny Winter. Iggy estava vestido com uma calça toda rasgada que deixava sua cueca à mostra. Cueca que, aliás, era uma calcinha vermelha de mulher, que de tão pequena, deixavam seus bagos de fora. Winter odiou a figura de Iggy Pop, mas Patti Smith, também presente, ficou impressionada e até excitada diante de tanta energia bruta e incontrolável. O fotógrafo Dustin Pittman tirava fotos e acabou chamando a atenção de Iggy que pulou sobre ele e passou a encenar uma série de coitos. O fotógrafo continou batendo as fotos como se não estivesse acontecendo nada...

Steve Kempner falou o seguinte sobre os shows que ele assistiu: "Eu fiquei amedrontado ao assistir Iggy e os Stooges em Ungano's. Eu fui buscando ver esta banda incrível e preparado para tudo, mas foi dez vezes mais do que eu esperava. Esse Iggy, é inacreditável - pequena figura, tão elétrico - consegue fazer um estrago pior do que todos os rufiões que eu conhecia na minha vizinhança. Voltamos na noite seguinte e eram exatamente as mesmas músicas. Mas eram todas novas. O show de hoje à noite tem nada a ver com o show de ontem à noite, nada a ver com o ensaio, nada a ver com a checagem de som. Eram canções com vida, nascendo a cada vez que eram executadas... e cada vez que eu assisti a banda, era a mesma sensação; não havia ontem, não havia o antes. Iggy colocava vida e membros em cada apresentação. Ele sangrou em todos os shows. Em cada show ele literalmente dava sangue para o espetáculo. Dali em diante, rock 'n' roll nunca poderia ser menos do que isso para mim. Não importa o que eu escrevo ou toco, tem que ter sangue no papel ou nas cordas, caso negativo se trata de pura perda de tempo, um embuste".

Em outra noite, Danny Fields convidara toda o pessoal de Andy Warhol para assistirem Iggy & The Stooges. Presentes estavam alguns dos nomes mais representativos do circuito alternativo chique. Nomes como Gerard Malanga, Brigid Polk, Donald Lyons, Leee Black Childers, Jackie Curtis, Wayne County, Holly Woodlawn, Glen O'Brien e Taylor Mead, além do próprio Warhol. Diria Lee Childers: "sua sexualidade estava então totalmente aparente e, no entanto, dava medo. Ele tinha um cérebro! Havia tanta gente no meio rock 'n' roll que eram lindos, mas não tinham um cérebro(...) você sentia que se fosse para a cama com Iggy, ele mais tarde iria querer conversar contigo (...) Iggy sabia explorar muito bem o lado Gay das coisas. Eu não tenho nenhuma experiência própria com ele, mas todos conhecemos um milhão de histórias".

Na terceira noite, Iggy estava tão elétrico que resolveu subir até um cano no teto, que fazia parte do sistema contra incêndio. Pendurado de cabeça para baixo, feito macaco, o cano cedeu, e Iggy, o cano, e parte do teto caíram no chão. Danny Fields, a quem Iggy Pop define como seu mentor naquela época, atuava praticamente como um segundo empresário da banda. Presente em todos os shows, ele contornou a situação com os donos da casa e apesar do prejuízo causado, todos concordaram que as apresentações dos Stooges eram excelentes e estavam trazendo um bom movimento para o lugar. Iggy pôde assim se apresentar na quarta noite, sem maiores estresses.

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O repertório da banda a esta altura era composto das canções "I'm Loose", "Down On The Street", "Dirt", "Fun House", "TV Eye", "1970", "You're Alright", "Private Parts", "Dog Food" e "Searching For Head." A noite foi boa, o público receptivo e com Iggy totalmente cheirado de cocaína. Ao final do set, o povo pede mais e embora Iggy NUNCA desse bis, nesta noite abre exceção. Os Stooges tocam então "Egyptian Woman", uma raridade que nunca foi registrada pela banda. Percebendo que o público esperava algo a mais dele, já que sua fama de anormal exigia que fizesse algo diferente, ao final da canção Iggy põe o pau pra fora. Um silêncio tomou o local em anticlímax colossal. Iggy resolve então guardar o instrumento para dentro das calças e, junto com sua banda, deixam o recinto.

Ligadão ainda, o fiel roadie Bernie gostava de barbitúricos e ofereceu alguns anti-depressivos para ajudá-lo a dormir. Bernie deu a Iggy seu estoque, dois Tuenal e dois Seconal, mas com a explícita recomendação de tomar apenas um, quando quisesse ou precisasse de algo para ajudá-lo a dormir. Iggy até então nunca tinha tomado um anti-depressivo e Iggy sendo Iggy, desceu todos os quatro de uma vez. Na tarde do dia seguinte, a banda desistiu de tentar acordá-lo e seguiram sozinhos para Michigan. Iggy só acordaria dois dias depois. Sem dinheiro para pagar a conta do hotel, precisou telefonar para o pai para pedir o dinheiro emprestado. Com a chegada da verba, pagou a conta do hotel e a passagem de ônibus para Detroit.

Cavalgando o Cavalo Branco

Scott Asheton foi com um amigo que trabalhava para o MC5 assistir um show do Funkadelic/Parliament, grupo soul-rock do George Clinton. Freqüentando os bastidores, conversando com um dos integrantes, foram todos para um dos caminhões de som para fumar haxixe. Lá dentro, alguém começa a abrir papelotes de pó. Scott pensa, "que legal, pó". Mas logo foi informado que não se tratava de cocaína, e sim cavalo (horse) ou seja, heroína. "Quer experimentar?"

Scott comenta que o que se lembra desta primeira viagem foi de acordar no mato em meio à chuva e tentando mijar. Não conseguia, mas a sensação era extremamente prazerosa, com a chuva caindo e tudo mais. Chegando em casa, foi conversar com John Adams, que tinha experiência no assunto. A repentina proximidade com heroína novamente fundiu a cuca de Adams, que estava vivendo uma vida totalmente macrobiótica até então. Saíram os dois imediatamente à procura de mais heroína. Iggy, ao encontrá-los cheirando, quis entrar na brincadeira também. Ron quando viu o pó, primeiramente pensou que se tratava de cocaína. Mas assim que lhe disseram tratar-se de heroína, disse decididamente que não queria absolutamente nada com o assunto. E passou a ser a figura destoante do grupo. Não demorou muito e Adams estava ensinando os rapazes como injetar, pois usa-se muito menos do pó injetando nas veias do que cheirando pela narina.

Mais Mudanças

Iggy Pop com Billy Cheatham ao fundo
Após seis apresentações, quatro no Ugano's de Nova York e duas no Eastown Theatre de Detroit, os Stooges dispensaram Billy Cheatham, que sabia que não prestava como baixista e só aceitou a posição para ajudar a banda em um momento de aperto. No fundo, Cheatham estava louco para retornar a suas funções de roadie, o que fez.

Inciaram audições buscando alguém para substitui-lo. Foi nesta época que James Williamson, velho conhecido da antiga banda The Chosen Few reapareceu em Ann Arbor. Ron preferiu trabalhar com James, que era um guitarrista mais melódico do que ele mesmo e infinitamente melhor do que Billy. Sua entrada deixou o som da banda com um cara ainda mais rock and roll do que antes.

Uma vez confirmada a entrada de Williamson, Billy vendeu seu amplificador e doou o dinheiro para a banda, para ajudar com a comida. No entanto, Iggy exigiu que todos entregassem o dinheiro para ele que iria usá-lo para comprar heroína. Começavam as primeiras grandes brigas entre Iggy e Ron, que mesmo não consumindo, acabou tendo que abrir mão de sua parte da grana. Este é o ponto onde o grupo começava a se desintegrar. Ron Asheton, sendo o único integrante que não consumia heroína, passa a ser tratado como o puritano em meio a uma orgia.

O Asheton mais velho se tranca em seu quarto com a namorada e a harmonia que existia entre ele e os Stooges, principalmente com o até então amigo Iggy, se acaba. No seu lugar, como amigo e parceiro, está agora a figura de James Williamson. Não demorou muito para Iggy, James e o Asheton caçula, Scott, passarem a usar heroína em excesso. A droga consumia o já pouco dinheiro do grupo, além da criatividade. Percebendo este declínio, e não gostando muito do astral geral depois da chegada de Williamson, o saxofonista Steve McKay opta por sair. Tanto melhor, uma vez que as inspirações jazzisticas que os Stooges trilharam com relativo sucesso já estavam sendo questionadas em prol da direção mais rock and roll crua e simples.

O ponto preferido da casa para os rapazes se injetarem era o quarto de Scott, onde o banheiro passava a expor desenhos abstratos feitos de esguichos de sangue. A cada vez que se limpava a seringa, uma nova demão era adicionada ao teto, parede ou chão. Com o tempo, as manchas mais antigas ganham coloração mais escura de magenta, indo do vermelho vivo ao marrom fosco e encrostado. Mas morar no campo, distante da cidade e sem carro, agora passava a ser um problema.

Iggy primeiro tentou alugar um carro, para poder ir à cidade comprar heroína e voltar rapidamente. Foi então até uma agência de automóveis, escolheu um novo Ford Galaxy, pediu para fazer o chamado test drive, ou seja, uma volta para experimentar o carro e nunca mais volta, ficando com o veículo por praticamente um mês antes de devolvê-lo. Posteriormente, ao dirigir chapado, acaba colocando duas rodas na calçada, derrubando tudo que encontra pela frente. Acabou sendo detido pela polícia, ganhando uma multa. Como Iggy estava indo comprar drogas, ele não tinha flagrante com ele. Foi perdendo a posse do carro que Iggy optou por deixar o Fun House e ir morar no centro.

University Towers

Zeke Zettner
Iggy agora estava morando no único arranha-céus da cidade, o University Towers, que dividia com o baixista dos Stooges, Zeke Zettner. Trata-se de um pequeno apartamento na cobertura com aluguel pago pela Elektra. Seu apartamento era o 26G, que Iggy explicava pra amigos jocosamente se tratar de um ômen positivo, pois este era também a capacidade máxima da seringa descartável que ele seguidamente re-usava para injetar tóxico nas veias. Do outro lado da rua ficava Biff's, um dinner, misto de restaurante e lanchonete que ficava aberto vinte e quatro horas. De lá, conseguia seus contatos, comprava a droga, atravessava a rua e estava em casa injetando-se. Um esquema muito cômodo.

Para manter o seu consumo pessoal, Iggy passou a revender uma parte, com lucro. Assim, o seu consumo acabava saindo de graça. Para aumentar a rede e o lucro, acertou com Wayne Kramer uma espécie de sociedade onde Kramer trazia mercadoria de fontes de Detroit e Iggy por sua vez oferecia a Kramer suas fontes de Ann Arbor, de forma que não ficavam sem mercadoria (heroína).

Quando a necessidade de dinheiro vivo era extrema, Iggy roubava cheques de seus pais, falsificava a assinatura e trocava na Discount Records, uma falcatura que acabou na polícia. Esta brincadeira acabou custando aos pais de Iggy uma grana violenta, que fizeram questão de honrar cada um daqueles cheques, evitando assim que o filho ficasse preso como estelionatário. Alguns cheques foram passados em valores na casa dos mil dólares.

Mas nenhum destes incidentes curvou o apetite de Iggy pela química e destruição pessoal. Os Stooges faziam vinho se tornar água mais rápido do que podem supor. As drogas estavam destruindo qualquer possibilidade de sucesso na carreira. O uso indiscriminado de heroína fez com que Iggy caísse na cozinha da casa do baixista do MC5, Michael Davis, com uma suspeita de overdose. Desesperado, Michael conseguiu reviver o amigo com um banho gelado e respiração boca-a-boca. Um susto grande a todos.

Golf em Miami

Miami 1970
Seguindo a este incidente, Jimmy Silver e a Elektra entraram em um acordo para financiar um tratamento de desintoxicação para Iggy, em Miami. O tratamento consistia em doses de Metadona, uma droga criada para substituir e suprir a necessidade do organismo por morfina ou heroína. O nome completo da droga é Metadona Hidrocloreto, cuja composição química é C21H27NO HCI. Trata-se de um sedativo parecido com a morfina, que anestesia o paciente como um analgésico, porém não gera um vício tão difícil de largar.

Junto com a Metadona, doses regulares de Valium para deixar Iggy relaxado, uma vez que ele era dado a ataques histéricos quando ouvia a palavra "não". E para distraí-lo, muitas partidas de golf no Doral County Golf Club. O golfe é um jogo calmo e realizado em áreas bucólicas. Iggy descobre ter certa habilidade com os tacos.

O tratamento foi considerado um sucesso na medida do possível. Isto é, considerando que Iggy faria seguido uso de Metadona, demonstrando não abandonar totalmente a proposta de buscar uma alternativa menos letal para a ânsia do seu organismo por química.

Retornando a Ann Arbor, Iggy constata que sua mãe limpara o apartamento e dera ao cômodo aquele tratamento materno. Wayne Kramer, que estava excursionando, foi visitá-lo querendo a sua parte dos lucros, que evidentemente haviam partido, junto com toda a "mercadoria". Mais uma dívida a sanar.

Com mais esta crise contornada, Jimmy Silver resolve que chegara a hora de abandonar a banda. Dizendo ser impossível bancar o empresário de drogados, concordou em deixar nas mãos de Danny Fields o destino do grupo. "Em minha visão, não sou o empresário adequado para os Stooges. Sou apenas o amigo certo na hora certa, mas não sei exatamente quais coisas um empresário deve fazer. Eu apenas fico consertando os erros, mais nada", confessou Jimmy. Sua próxima atividade foi abrir um negócio de comida natural. Ainda viriam mais problemas pela frente: em Los Angeles, Paulette Benson, uma lésbica assumida que Iggy definia como "uma gata muito gente boa e de cabeça feita", está dando a luz a Eric Osterberg, primeiro e único filho conhecido de Iggy Pop.

Alcagüete

Iggy passou certo fim de semana no seu apartamento com o roadie John Adams, virando a noite injetando cocaína nas veias. Assistem o sol nascer enquanto aguardam a hora dos bancos abrirem, para sacar um cheque. O cheque foi passado por Jimmy Silver para pagar despesas e seguir, na segunda-feria, para Detroit com seu piano elétrico, de onde os Stooges seguiriam para Windsor em Ontario, Canadá.

Apesar do calor de verão, Iggy está na fila do banco de mangas compridas para esconder as marcas de agulha nos braços. Quem manja a coisa notaria que suas pupilas estavam enormes. Aguardando na fila e odiando por estar em pé tão cedo, é retirado dela por dois policiais enormes e fortes que literalmente o carregam para dentro de um camburão aguardando na rua. Iggy não tem a mínima noção do motivo pelo qual acabara de ser seqüestrado pela polícia e fica petrificado de medo.

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Ao chegar na delegacia, olhando o detento em outra luz, a polícia logo percebe que este não é o assasino que buscavam. Mas, para melhor se esquivar do engano, a julgar pela aparência de Iggy, levam-no para dentro de qualquer maneira. A polícia ameaça detê-lo por 72 horas caso Iggy não deixasse os policiais vasculhar sua residência. Em troca, eles o deixariam livre se nada encontrassem. Três dias em detenção policial é coisa demais para um junkie viciado em heroína, portanto não havia maneira de evitar a revista.

Levado para casa em um carro patrulha, acompanhado de um sargento e um tenente, que acabam encontrando apenas seringas, agulhas e metadona, uma droga legalizada e usada justamente em tratamento de viciados, Iggy e o comboio são vistos da janela por John Adams, que conclui o pior e resolve sumir. Sem ter como prendê-lo legalmente, e sem querer ter perdido tempo com este aloprado à toa, os policias passam as próximas duas horas fazendo terrorismo psicológico com Iggy, exigindo que ele dê o nome de um fornecedor. Depois de duas horas, desistiram, pois Iggy preferiu arriscar a enfrentar a cadeia do que trair um amigo. Por sorte, a polícia cansou e foi embora, enquanto Iggy saiu do pesadelo com certo orgulho de sua firmeza em defender seu próprio código de honra. Cagüete merece cacete.

Electric Circus

Scott, James, Jimmy, Iggy e Ron
No começo de 1971, Zeke Zettner, em uma aventura completamente maluca, se alistou no exército para lutar no Vietnã onde, acreditava, seria possível comprar heroína a preço baixo. Zeke acabaria morrendo em 1975, por overdose. Se foi devido à heroína vietnamita-da, ninguém soube dizer...

James Williamson convidou Jimmy Recca, antigo conhecido de Birmingham, para entrar em seu lugar. Recca não gostava de heroína e fez boa amizade com Ron Asheton. Também era muito melhor instrumentista e com isso, a formação com James e Ron nas guitarras, Scott, na bateria e Jimmy no baixo, pode ser considerada a formação mais sólida, músicalmente falando, dos Stooges.

Em junho, voltaram para Nova York, onde iriam se apresentar no Electric Circus, apresentação esta que pode ser considerada decisiva para o fim da banda. Enquanto Fields tentava negociar com Harvey, que o havia demitido da Elektra para a produção de um terceiro disco, Iggy promove um espetáculo grotesco no camarim. Ele estava com o braço apertado por um elástico, batendo em suas veias, berrando "saiam fora, saiam fora" enquanto procurava desesperadamente encontrar uma veia para se picar. Muitas pessoas achavam que o cantor fosse morrer ali mesmo.

Iggy deu um espetáculo tenebroso. Danny foi encontrá-lo depois desmaiado ao lado da privada com a seringa ainda presa em seu braço. Depois de alguns tapas na cara para acordar, Iggy foi pro palco, a banda já tocando um riff e aguardando seu vocalista. Mal Iggy entra em cena e sente enjôo, vomitando no palco e em parte da platéia. Muita gente foi embora, chocada. Dee Dee Ramone comentaria sobre aquela noite: "Foi a primeira vez que eu vi Iggy. Eles começaram bem tarde porque Iggy não conseguia encontrar uma veia para se picar e todos nós fomos obrigados a esperar. Quando ele entrou, disse 'vocês todos me deixam doente'. E então vomitou".

Elektra dispensa o terceiro álbum

Para piorar, Danny não conseguiu convencer Harvey a investir mais nos Stooges, com Harvey já buscando uma desculpa para rescindir o contrato ainda em vigor. Quando Fields finalmente consegue que Bill Harvey e Don Galucci viajem para Ann Arbor para ouvir as novas canções, Harvey o faz com pouca convicção. Em Ann Arbor, os Stooges ensaiavam e preparavam alguns demos para o novo álbum. Nelas, ouvia-se canções como "Pin Point Eyes", "Open Up And Bleed", "Johanna", "Rubber Legs", "I Got A Right" e "Fresh Rag."

Ron comentaria sobre este encontro: "Eles não conseguiam acreditar no que ouviam, especialmente Bill. Ele estava quase com medo, mas Don permaneceu calmo. Nós os levamos para nosso local de ensaio e eles esperavam ver pequenos amplificadores e nós tínhamos duplos Marshall. Eles ficaram parados e foi muito difícil tocar, porque eu ria muito. Bill estava vestindo um terno e Gallucci estava com um 'sport' italiano. Fiquei imaginando no que eles estariam pensando. Deviam nos achar os caras mais estranhos do mundo!"

Danny lembra o desprezo de Harvey ao ouvir algumas gravações das novas músicas: "Ficava perguntando no motel após assistirmos o ensaio se as canções novas não eram incríveis, mas Bill apenas disse que não via nada nelas. Acho que Harvey apenas não queria mais trabalhar com esta banda. De fato, eles nunca deram lucro". A Elektra acabou dispensando a banda que nem ficou tão surpresa ou chocada como Fields imaginara. Embora Danny trabalhasse para a Atlantic Records, ele tentou sem sucesso firmar um contrato com a RCA, achando que teria melhor chances por lá.

Findando um Ciclo

"Empresariar os Stooges foi um inferno!" - Danny Fields.

E os problemas continuavam galopando. Scott Asheton aos poucos vai vendendo partes de sua bateria para manter o seu vício, o som percussivo dos Stooges entrando lentamente em uma fase minimalista. Quando estiveram em Nova York, sem Ron saber, Scott e Iggy roubam sua guitarra, uma rara Stratocaster fabricado antes da CBS tomar conta, trocando-a no Harlem por $40 dólares de heroína. Depois lhe contaram apenas que a guitarra fora roubada: "... puxa que pena", "pois é...". Há até rumores que os Stooges ou pessoas ligadas à banda andaram assaltando postos de gasolina para pagar o aluguel da casa. Sendo assim, não é tão absurdamente idiota da parte de Scott a idéia de pegar dinheiro emprestado de gente ligada a uma gangue de motociclistas e nunca pagar. Isto deixou a Fun House de prontidão e armada com todas as portas e janelas lacradas com madeira, aguardando o inevitável duelo.

Analisando este periodo Danny Fields comentaria: "se alguém quer heroína, não se consegue que esta pessoa se interesse por outra coisa, não é mesmo? O que Iggy ainda conseguiu realizar enquanto heroína era uma prioridade em sua vida... bem... tem que se admirar como ele conseguira realizar qualquer coisa, chegar a qualquer lugar. Mas ele conseguiu. Ainda assim, era o grande monstro esmagando tudo. Tudo estava desmoronando. Não havia dinheiro, os discos não vendiam. Pouco adiantava serem considerados uma sensação pela crítica ou mesmo o talento que possuíam".

Em meio a isto tudo, os Stooges ainda estavam tocando sua tradicional média de duas vezes por semana. Retornando de uma destas apresentações, Scott, dirigindo o caminhão de equipamentos junto com os roadies Larry e Jimmy, sofrem um acidente em Detroit. Ninguem entendeu nada quando de repente todos foram jogados pelo pára-brisa, seguido de um estrondo. Quando foram ver, perceberam que o viaduto da rua Washington tem uma altura menor do que a do caminhão. Scott tomou pontos na testa e na língua, Larry perdeu dois dentes e também tomou pontos na testa e língua, enquanto Jimmy teve hematomas que resultaram em marcas por todo o corpo.

Ron Asheton veio buscá-los de carro e antes de irem para casa, passam novamente pela ponte, entram entre os arbustos e pegam de volta alguns barbitúricos que tinham como flagrante, que foram devidamente escondidos. Depois ligam para Danny para saber o que ele pode fazer por eles. O resumo da ópera era que haviam destruído o caminhão, portanto a firma que era proprietária os processaria. Acabaram também com os instrumentos que estavam no caminhão e eram alugados, portanto a loja de instrumentos também os processaria. E finalmente destruiram parte do viaduto, sendo então processados também pela prefeitura.

A esta altura, já era sabido que a Fun House seria demolida, pois a prefeitura comprara o terreno, já que por ali passariam uma estrada e um viaduto. Era apenas uma questão de tempo, e hoje em dia existem no terreno nada menos que uma auto-estrada e um banco.

Danny Fields chega em uma de suas últimas visitas ao local e despede John Adams. Aparentemente ele estava traficando enorme quantidade de entorpecentes durante as viagens da banda. Pouco depois, era a vez de Danny jogar a toalha. Cansado de tantos pepinos, desgastando o seu nome, seu próprio prestígio e o seu crédito, em uma banda que devia perto de US$ 80 mil para a Elektra, que cuidara dos recentes processos, enquanto a banda basicamente só queria saber de se drogar, liderada por um sujeito genioso com pouca ou nenhuma responsabilidade profissional e que basicamente vivia fazendo merda. Fields estava tão cansado de tudo que deixou a Atlantic Records e foi trabalhar para a revista teen "16 Magazine". Estava mesmo terminado um ciclo. A banda saldou sua dívida com a Elektra abrindo mão de toda futura grana que pudesse entrar pelas vendas dos seus discos com a gravadora.

"Quando o caminhão se espatifou me ligaram do hospital desesperados de madrugada e me contaram tudo. Eu não acreditava que eles tinham destruído tudo aquilo depois de tanto trabalho. O pior é que me perguntaram o que eu iria fazer. Apenas disse 'vou voltar a dormir' e tirei o fone do gancho. Eu já estava cheio deles", conta Fields.

Últimas apresentações

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Sem dinheiro, gravadora e mergulhado em drogas, Iggy anunciou a saída dos Stooges após o último show em uma temporada no Teatro Eastown, em Detroit. Porém, as últimas duas apresentações dos Stooges foram em julho. No dia 16 de julho no Hollywood Palladium, em Hollywood, seguido por uma apresentação em Wampler's Lake no dia 24 de julho. Era o fim da primeira fase musical de Iggy, que só voltaria ao cenário com a entrada e ajuda de um velho fã: David Bowie.

O cantor alegou que precisava se curar da dependência química. "Eu nunca quis parar, mas me senti obrigado porque estava lotado de problemas. Mais e mais pessoas vinham para assistir os nossos shows, ao mesmo tempo em que eu estava me apresentando cada vez pior. Eu queria fazer bonito para eles. Eu me sentia infeliz e a desintegração dos Stooges me parecia o único caminho. A única coisa que sabia é que eu e James (Williamson) estávamos mais unidos e que voltaríamos a trabalhar juntos em breve. Nós sabíamos que poderíamos fazer melhor do que vínhamos fazendo".

Sem Iggy, os Stooges ainda realizaram mais um único show, no clube Punch Andrew, em Ann Arbor, no final daquele mês. Ron sobe ao palco e explica para a platéia que Iggy não fazia mais parte do grupo. "Foi uma coisa estranha, porque eles ficaram desapontados, e em seguida, pareceu que se tratava de um show de uma banda amadora, até um garoto de 15 anos subiu ao palco e começou a imitar o Iggy melhor do que ele próprio faria. O desgraçado ficou atingindo meu joelho com o pedestal do microfone sem parar e durante o show, o espírito de Pop esteve sempre presente", conta Ron. Os irmãos Asheton acabariam voltando para Ann Arbor, morar novamente com a mãe, já que não tinham emprego ou dinheiro.

As sessões de gravação do Raw Power

Iggy Pop procurou se manter quieto, aparecendo pouco, em uma fase que ele chamou apenas de "descanso". Ocasionalmente visitava Williamson que vivia em Detroit, e acabou compondo "Penetration" que foi, segundo Iggy, a faísca inicial para começar a compor e vislumbrar uma nova banda, criada em torno de James Williamson. Iggy tinha plena noção que não havia como crescer em Detroit, e precisava sair de lá se desejasse uma banda com exposição nacional e, na melhor das hipóteses, internacional. Foi quando surgiu uma proposta para ele ir para Miami.

Iggy Pop Sem os Stooges

Em agosto de 1971, Iggy recebeu uma oferta de Steve Paul, empresário de Edgar e Johnny Winter. Steve queria que Iggy voasse para a Flórida e começasse a montar um grupo com Rick Derringer e alguns músicos. Sua intenção era de ter Iggy como homem de frente de uma banda montada com músicos sobre seus cuidados. Iggy percebeu de longe a intenção de amarrá-lo a um esquema onde ele provavelmente não teria controle sobre o trabalho. Mesmo assim, em parte como cortesia, em parte por curiosidade, Iggy foi conhecer Rick Derringer, passando uma tarde com ele falando sobre música.

Iggy diria "Eu gostei de Rick como pessoa e o respeito como músico pelo tipo de trabalho que ele faz. Mas eu logo percebi que a química não estava certa. Ele é um ótimo músico, porém sua visão estava em outro lugar e a minha visão era a minha, portanto eu declinei".

Iggy também recusou uma proposta que surgiu, por parte da Elektra, para produzir um álbum solo com o que a gravadora chamou de "músicos de verdade" e com canções que Iggy descreveu como "no estilo de David Cassidy" (The Partridge Family/A Familia Do-Re-Mi). Iggy resolveu então arriscar uma ida até Nova York para ver se arranjava algo, mas para chegar até lá precisou pedir inúmeras caronas pelo caminho. Chegando, ficou hospedado no apartamento de Danny Fields e de Gerald Malanga. Os dois não tinham nada para oferecer profissionalmente a Iggy que, a esta altura, chegou a cogitar seriamente em abandonar a música. E foi por um golpe de sorte que as coisas começaram a melhorar para ele.

O Teatro do Ridículo

Enquanto isto se passava na Flórida, paralelamente em Londres, Tony Zanetta conheceu David Bowie no dia 2 de agosto 1971, após uma apresentação de "Pork", do Andy Warhol. A peça foi escrita e dirigida por Tony Ingrassia, e seu enredo é basicamente sobre uma pessoa que passa o dia usando drogas injetáveis e conversando ao telefone, sendo que todo o resto gira em torno deste personagem, e Zanetta fazia o papel de Andy Warhol. O texto foi todo montado ao redor de conversações pelo telefone que Warhol teve com diversas pessoas e que ele gravara. Warhol depois entregou as fitas para Ingrassia que pincelou e costurou tudo em um formato de peça.

Bowie, que estava realizando algumas apresentações no Hampstead's Country Club, viu a peça, assim como vários integrantes do elenco da peça foram assistir Bowie, ainda desconhecido na América. Ele já tinha uma imagem de andrógino, que foi o que atraiu o pessoal do Pork para assistir o show. Mas todos ficaram desapontados vendo a interpretação da imagem de androginia na Inglaterra sendo um pouco diferente da de um hippie cantando folk com um violão sentado em um banquinho.

O pessoal do teatro estava com cabelos coloridos e com unhas e batom preto, coisa impensável de se usar e totalmente escandalosa. Quando Bowie anunciou a presença dos artistas na platéia e pediu para que se levantassem, Cherry Vanilla tirou sua peruca e mostrou os peitos. Foi um choque para alguns e engraçado para outros. Quase um ano depois, David Bowie acabaria compondo com Lou Reed a canção "New York Conversation" inspirado nesta peça. Todo o elenco de Pork, incluindo Zanetta, ficou amigo de David e Angela Bowie.

Max's Kansas City

Danny Fields foi a um jantar com Dennis Katz, chefe da gravadora A&M, que fazia parte da RCA. No jantar estavam presentes Tony Zanetta, Lou Reed, Mick Ronson, Tony DeFries, mais David e Angela Bowie. Bowie e DeFries haviam chego para fechar o contrato negociado com a gravadora RCA. Nesse jantar, Bowie chegou para Fields e disse que gostaria de conhecer Iggy Pop. Rapidamente, Danny ligou para sua casa e mandou que Iggy fosse imediatamente para o Max's Kansas City, local do encontro.

Iggy conta sua reação: "Eu estava na casa de Danny assistindo 'Mr. Smith Goes to Washington', na televisão e quase dormindo, quando Danny me ligou perguntando se eu lembrava de David Bowie, que tinha dito anos atrás à Melody Maker que eu era seu cantor favorito. Disse que sim e ele mandou pegar um táxi imediatamente e ir até o Max's Kansas City. Eu disse que ia, mas não consegui sair de casa, porque entrei em lágrimas vendo a fantástica performance de Jimmy Stewart no filme da televisão. Danny ligou novamente furioso e mandou que eu fosse até lá. Obedeci e fui correndo. Quando cheguei, Bowie e DeFries me convidaram para um café da manhã, e eu estava tão faminto que comi seis refeições e ficamos conversando por horas e horas".

Iggy Pop, Jackie Curtis e Lou Reed no Max
Bowie tem outra versão: "Eu estava em uma festa da RCA no Max's Kansas City e tinha acabado de conhecer Lou Reed. Ele imediatamente passa a me contar uma história de um cara que tinha injetado herô na testa, uma coisa tipicamente dele de dizer. De repente, chega esse maltrapilho engraçado com um dente quebrado e Lou falou, 'não converse como ele, ele é um junkie.' Tratava-se de Iggy. Você não conseguia deixar de ser atraído por ele. Ele era tão vulnerável".

Danny Fields lembra-se bem da primeira vez que percebeu a paixão de Bowie por Iggy: "Sempre que alguém ia me visitar na Elektra fazia a mesma pergunta: 'oh, me fale algo de Jim Morrison, oh, eu amo tanto os Doors!'. Pois David foi o único que chegou a mim e disse 'me fale sobre Iggy'".

Bowie, neste ponto de sua carreira, não era ninguém na América e representava quase nada na Inglaterra. Ele tivera apenas um sucesso mediano no Reino Unido com "Space Oddity" em 1969 e mais recentemente, a canção "Changes", de sucesso também moderado, e mais nada. Ambas seriam redescobertas após o estrondoso sucesso de seu próximo álbum e sua nova imagem. Mas naquele momento sua carreira ainda buscava direção. A imagem nova, aqui ainda não aperfeiçoada, seria em larga escala baseada no que ele absorvera destes travestis nova-iorquinos que conhecera em Londres apresentando a peça Pork. Quando Bowie foi para Nova York para a assinatura de contrato com a RCA, foi justamente com estas pessoas que ele procurou se encontrar.

Iggy Pop por sua vez, naufragando em Nova York no final de 71, estava freqüentando o bar e restaurante Max's Kansas City, ponto underground chic e reduto favorito de artistas de todas as esferas. A opção de um homem em ser um travesti, embora não fosse algo inteiramente novo, principalmente na Europa, era ainda para os Estados Unidos, um país sexualmente repressivo, algo inconcebível para a sua população em geral.

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Intrigado por este povo extremamente, ou melhor, sexualmente alternativo, Iggy podia ser visto conversando com toda esta turma, que tinham entre eles, nomes hoje conhecidos como Holly Woodlawn, Candy Darling, e Jackie Curtis, todos mencionados na canção "Walking On The Wild Side" de Lou Reed. Iggy também estava absorvendo um pouco da criatividade destas pessoas que escolhiam, digamos, serem diferentes do padrão. Lou Reed, que igualmente estava tentando reiniciar sua carreira apos o fim do Velvet Underground, igualmente estava sendo influenciado por este grupo de pessoas com quem encontrava religiosamente no Max's Kansas City.

Leee Childers Black, analisando a carreira destes artistas, comentaria que tanto Iggy quanto Bowie estavam artisticamente sem direção e quando se encontraram, acabaram salvando um ao outro. De uma tacada só, Bowie conheceu dois de seus maiores ídolos, Reed e Pop. Bowie tinha adorado os dois discos dos Stooges e se impressionado com a apresentação de Iggy no Festival de Cincinnati, que havia sido transmitido na televisão da Inglaterra. Aliás, Bowie confessaria mais tarde que a fórmulação de seu personagem Ziggy Stardust ficaria completa após assistir um show de Iggy Pop.

MainMan

As mentes de Bowie, Iggy e DeFreis engrenaram harmoniosamente neste primeiro encontro no Max's Kansas City, que terminou com um café da manhã no restaurante do Warwick Hotel. O papo e troca de idéias artísticas virou a noite e David convenceu Iggy a assinar com Tony DeFries. Mas para isso Iggy precisaria estar limpo, ou seja, livre da dependência de heroína.

Assim que Iggy estivesse totalmente livre da metadona (usada contra a dependência da heroína), DeFries iria arranjar um contrato e uma viagem até Londres para montar uma banda e gravar um disco. DeFries queria que o disco fosse gravado na Inglaterra de qualquer maneira, já que a reputação de Iggy e os Stooges era a pior possível na América. A intenção de DeFries e sua firma, a MainMan, girava em torno de Iggy Pop, já que ninguém queria saber dos Stooges.

Bowie tinha dado como sugestão associar Iggy à banda inglesa Third World War (não confundir com a banda Américana World War Three), que era liderada por Edgar Broughton. Como Iggy temia ser obrigado a cantar as composições de Broughton, rapidamente rejeitou a idéia, alegando que queria trabalhar com seu guitarrista James Williamson. DeFries imediatamente se viu obrigado a incluir Williamson em seus planos, que por sua vez estava com hepatite, devido ao uso de seringas sujas, em Detroit. Tanto Iggy quanto James estavam desesperadamente procurando resolver seus problemas com a dependência de heroína fazendo tratamento com metadona.

CBS

Praticamente no dia seguinte DeFries conseguiu um lucrativo contrato de dois discos para Iggy com Clive Davis, da CBS. Sabendo que o encontro entre o diretor da gravadora e o artista seria de extrema importância, DeFries incutiu em Iggy o espírito de que era a hora da verdade em termos de sua carreira futura. Orientou-o também para o fato de que Clive Davis era o tipo de homem que iria gostar de conhecer um rapaz bonito e inteligente.

Iggy lembra da entrevista para assinarem o acordo da seguinte maneira: "Clive Davis pediu para que eu cantasse algo de Simon and Garfunkel, mas recusei. Perguntou se poderia ser mais melodioso e respondi que não. Ele me pediu então para cantar algo, então mandei bala em 'The Shadow Of Your Smile', depois sapateei um pouco no estilo 'soft shoe' e Clive disse 'ok, ok, é o bastante'. Então ele ligou para o departamento jurídico. Eu tinha conseguido um contrato".

Steve Harris e Iggy Pop
Steve Harris, que promovia os discos dos Stooges para Elektra dois anos antes, trabalhava agora para a CBS como vice-presidente. Ao ser procurado por Clive Davis a respeito do novo contratado, Harris destaca para o diretor a necessidade de promover Iggy Pop da forma correta, pois, segundo suas palavras, "ele não é nenhum Barry Manilow".

Animado, Iggy voltou para Ann Arbor e contou as boas novas para o amigo James Williamson, e começam a planejar um novo grupo. Os dois estavam mais íntimos do que nunca, pelos problemas em comum com as drogas. Em uma festa promovida por Scott Richardson no estúdio do SRC, Ron Asheton encontra com Iggy e Williamson depois de muitos meses. Somente agora é que ele fica sabendo que os dois estão a caminho de Londres e com um contrato com a CBS. Ron conta: "Foi como se alguém tivesse me dado um soco na boca do estômago. Eu sempre achei que eventualmente a gente acabaria voltando a tocar juntos novamente. Eu saí de lá zonzo, abraçei uma árvore e chorei por meia hora. E a maneira tão casual que ele me contou; 'Aliás, consegui um contrato, James e eu vamos para Inglaterra.'"

Em dezembro daquele ano, DeFries voltou para Nova York, seguindo então para Ann Arbor acertar os detalhes para a viagem trazendo Iggy e Williamson com ele para Nova York, onde se hospedaram no hotel Warwick. DeFries deu US$ 500 para os dois e contratou Zanetta para cuidar do cantor, enquanto ele DeFries cuidava de fazer alguns contatos.

Nova Carreira em Nova Cidade

Keith Moon & Iggy Pop
Desta forma, o ano de 1972 começou para Iggy e James da melhor maneira possível. Teoricamente livres da dependência química e morando em Londres, tudo que faziam era ensaiar, ensaiar e ensaiar. Os dois foram colocados inicialmente no hotel Royal Gardens, mas para diminiuir as despesas foram relocados para uma pequena casa em St. John's Wood. Durante os meses de abril e maio, os dois testaram vários músicos para o grupo, procurando um baixista e um baterista. Uma das primeiras experiências foi com Trevor Bolder e Woody Woodmansey, a cozinha da banda Rats, que se tornariam The Spiders From Mars. Depois vieram Twink Alder, baterista conhecido no circuito com passagens por bandas como The Fairies, Tomorrow e Pink Fairies. Com ele veio Overend Watts, do Mott the Hoople, que também ensaiou com o pessoal, mas nenhum deles se mostrou agressivo o suficiente para o gosto musical de Iggy e de James. No fundo, eles queriam era encontrar alguém com o som de Detroit, algo que simplesmente não existia em Londres.

James lembra que quanto mais testavam, mais desanimados ficavam, até que decidiram ligar para Ann Arbor e convidaram Ron e Scott para irem até a Inglaterra. Segundo se conta, James comentara que não iriam encontrar um baterista tão violento quanto Scott Asheton e Iggy rapidamente concluiu que se fosse para chamar um, seria melhor chamar os dois. Scott adorou a idéia, mas Ron, não. "Então Iggy me liga dizendo que não encontrou ninguém bom suficiente (por lá) para tocar baixo e bateria. Valeu cara, vocês foram para outro lugar, não me convidaram e agora porque estão desesperados, precisam da minha ajuda, então me ligam?"

Além do mais, Ron não queria tocar baixo e sim guitarra. Mas ir para Inglaterra era melhor do que continuar parado em Ann Arbor morando com a mãe. Ron queria fazer alguma coisa. Qualquer coisa. E o convite de remontar os Stooges agora sob patrocínio de uma produtora inglesa era uma ótima opção. Sobre a MainMan, Ron comentaria, "Nós éramos tratados muito bem, porém de forma diferente. (O contrato com) Mainman não era com a banda, era com Iggy. Ele que assinou e tomou para si a responsabilidade pela criação (dos Stooges). Nós eramos apenas os ajudantes odiosos do monstro que ele criou".

Os dois irmãos chegaram no dia 6 de junho de 1972, e logo conheceram David Bowie, a esta altura já uma grande estrela, que apareceu na casa com duas jamaicanas. Ao ir embora, Bowie supostamente agarrou a bunda de Ron Asheton e lhe deu um beijo. A reação instintiva de Ron foi armar o braço para lhe aplicar um soco na cara, mas não o soltou. Sabiamente lembrou que se tratava de David Bowie, um artista e sócio da MainMan, firma que pagou sua passagem e o aluguel da casa que ele agora reside. No dia seguinte começaram a ensaiar, geralmente trabalhando entre meia-noite e seis da manhã.

The Stooges em Londres

No começo de junho de 1972, "The Fall And Rise of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" foi lançado, e é justamente por causa de Ziggy Stardust que DeFries não se arriscava em marcar um show para o grupo de Iggy, temendo que uma atração tirasse atenção da outra. Com os Stooges montados novamente, Ron e Scott finalmente dando a Iggy e James o peso que eles tão desesperadamente desejavam, passam a ensaiar intensamente o novo material composto por Iggy e James. Aliás, uma das grandes mudanças desta versão dos Stooges em comparação com a antiga era a facilidade com que Iggy e James conseguiam criar, montar e estruturar uma canção nova.

James Williamson
James Williamson não só era um guitarrista mais virtuoso do que Ron Asheton, mas tinha uma enorme facilidade para estruturar uma idéia musical em uma canção. E Iggy rapidamente aprendeu com Williamson como compor uma letra que encaixasse nesta estrutura musical montada, até que, em pouco tempo, os dois estavam compondo juntos, em verdadeira parceria. Iggy e James centralizavam todo o trabalho de composição e não permitiam que Ron e Scott opinassem. Apesar disso, Ron anos depois acusaria os dois de usarem idéias sugeridas por ele embora nunca cedendo-lhe crédito. Nem mesmo um obrigado.

Havia brigas entre Ron e James, o baixista acusando o guitarrista de arrogante por tratarem a cozinha da banda como músicos contratados durante os ensaios, e não como integrantes de um grupo. No entanto, James Williamson era tambem o mais violento e o melhor lutador entre eles, a ponto de até Scott Asheton se sentir intimidado por ele. Neste clima, os irmãos Asheton assumiram o lugar de coadjuvantes em uma banda que ambos achavam que eles haviam criado, afinal, para os irmãos Asheton, The Stooges foi uma extensão natural do The Dirty Shames, com Iggy substituindo a irmã Kate Asheton nos vocais.

Sobre a mão de Iggy e James, a banda trabalhou duro durante semanas, ensaiando todos os dias da semana até estarem coesos, sólidos como uma boa banda precisa ser. Sem drogas pesadas, só fumo (haxixe trazido semanalmente à casa) e um pouco de birita, pode-se cogitar que, possivelmente, o melhor momento musical do novo Stooges nunca foi visto ou gravado. Ensaiaram tanto sem terem nada marcados que quando a MainMan mandou o fotógrafo Mick Rock para registrá-los, ele encontrou um grupo extremamente cooperativo. Deram toda a atenção ao fotógrafo, simplesmente porque estavam entediados ao extremo e era uma coisa nova e diferente acontecendo.

A estréia ao vivo de Ziggy Stardust and the Spiders From Mars foi no Rainbow Theatre, onde os Stooges e Lou Reed foram convidados de honra para assistir. Tendo assistido o ensaio geral à tarde, de noite, durante o primeiro terço do show, Ron e Scott levantam e vão embora, entediados. Foram até o bar do teatro onde encontraram Lou Reed, já embriagado. Os três enchem a cara e Reed, ainda por cima, oferece um Mandrax para cada um e terminaram a noite ali mesmo no bar. No dia seguinte, Ron e Scott foram chamados ao escritório da MainMan, com Tony DeFries dando um esporro por terem abandonados os seus lugares à vista de todos na terceira música do show. Ron mandou Tony para aquele lugar e este seria o perfeito exemplo de como andariam as relações entre DeFreis e os Stooges, no futuro.

Show No Scala

Aquele era um tipo de público. Pareceu bem mais velho.

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Tony "importou" alguns jornalistas dos Estados Unidos para assistirem um show de Bowie no Aylesbury Park em Londres, marcado para o dia 15 de julho. Após o show, foram colocados em um ônibus à disposição para assistirem uma apresentação do reformado Stooges em Pentonville Road perto de King's Cross. O local era um velho cinema poeira chamado The Scala, agora sendo usado como casa de espetáculo. Este é o mesmo local onde Lou Reed havia feito uns shows, dias antes. Acabaria sendo o único show da banda na Inglaterra, na Europa, como também, o único no ano de 1972.

The Flamin' Groovies abriram a noite começando sua apresentação pouco depois de meia noite, seguidos então pelos novos Stooges. Os críticos ingleses só conheciam Iggy e Stooges de nome e sua reputação de doidos. Iggy entra no palco usando uma calça prateada lamé e cabelo loiro, mais selvagem do que nunca. Com uma performance maluca e insana, chamou e grudou a atenção dos presentes. Após uma apresentação de 40 minutos, onde só tocaram canções novas - "Gimme Some Skin", "I Got A Right", "I Need Somebody", "I'm Sick of You", e "Scene of the Crime", ou seja, nenhuma de seus dois álbuns pela Elektra. Quando o microfone teve uma pane, Iggy não se abalou e fez uma versão muito bem humorada de "The Shadow Of Your Smile", imitando Frank Sinatra, que a havia gravado.

A casa estava bastante cheia e praticamente todos saíram de lá embasbacados ou chocados. A grande maioria do público era composta por pessoas na casa dos 30 anos e não adolescentes, sendo a maioria de jornalistas ou de gente que trabalhava no meio. Como de costume, primeiro a banda e depois Iggy vêm ao palco, com o cantor encarando o público, analisando-o antes de começar a cantar. Nesta noite ele roda por todo o palco, olhando fixamente às pessoas presentes, todos sentados em suas poltronas de cinema. Quando finalmente chega ao microfone, insulta todos, dizendo que não sente inspirado pela platéia. Nick Kent, do jornal New Musical Express, diria em seu review, "O efeito era mais assustador do que todos os discos de Alice Cooper e o filme Laranja Mecânicas somados". Hoje, ouvindo um disco como "Raw Power", ele soa até melódico; mas naquela época não havia nada que chegasse perto da agressividade da música que os Stooges estavam tocando.

Iggy comentaria assim sobre aquela noite, "Aquele era um tipo diferente de público. Pareceu bem mais velho. Eu gostaria de provar (aqui na Inglaterra) um público verdadeiramente adolescente. Eu vi várias meninas bonitas na platéia. Eu vi algumas meninas realmente lindas andando por Londres, mas parece que eu nunca consigo conhecê-las".

Dorchester Hotel

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No dia seguinte, MainMan marcou uma entrevista coletiva no suntuoso hotel Dorchester, em Londres, com David Bowie, Iggy Pop (vestido com uma camiseta do T. Rex) e Lou Reed. Lou Reed estava acabando de gravar o álbum "Transformer", sobre os auspícios de Bowie. O mesmo se esperava acontecer em relação ao novo álbum que Iggy Pop iria começar a gravar. Pelo menos estes eram os planos da MainMan.

David Bowie, fazendo as honras como anfitrião, apresenta Iggy para os jornalistas, definido sua imagem de imprevisível como um artista que possui um dom teatral natural. "É algo todo seu, um teatro de Detroit que ele traz consigo, e que vem diretamente das ruas". Concluindo, Bowie elogia Iggy dizendo que ele possuía todo o gestual teatral necessário de uma grande estrela. Sobre Lou Reed, Bowie diria: "Qualquer sociedade que permite pessoas como Lou e eu a se tornarem estrelas, está realmente perdida".

A entrevista foi um happening, embora para apenas uma dúzia de jornalistas ou pouco mais, e foi realizada durante a hora do chá, com o evento sendo servido de champagne, caviar e morangos frescos. David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop fizeram cada um, uma versão teatral de si mesmo para a mídia. Iggy era o junkie, Lou Reed era o americano sarcástico atraído pelo anfitrião, Bowie, que nesta tarde era a duquesa desta corte. Era um teatro totalmente estruturado acontecendo na vida real.

Angela Bowie anos depois, comparando as diferenças entre Iggy Pop e Lou Reed, diria: "Suponho que Lou era um pouco mais sofisticado do que Iggy, porém, onde Lou Reed não fez a leitura, Iggy leu de tudo. Os pais do Iggy eram professores de escola, e ele realmente leu Dostoievsky e todas aquelas merdas. Lou tinha aquela onda Nova Yorquina, onde ele fazia como se tivesse lido mesmo não tendo. Ele entrava na conversa cobrindo aspectos de um dado assunto superficialmente de uma forma que você não ficava com dor de cabeça ao final do papo. Com Iggy, caso você se aventurar a ter uma conversa realmente seria com ele, Iggy te mostraria que você é um ignorante e burro e que ele era esperto e afiado feito um chicote. Uma vez isto tenha sido dito e estabelecido, ele vai passar a te usar de todo modo possivel para comer, arrumar drogas, ou conseguir enrabar alguém".

Concebendo Raw Power

Passada a noite de show e entrevistas, Iggy e os Stooges voltam aos ensaios, sem data marcada para outro show ou iníio das gravação do prometido disco. A MainMan, ocupada demais com David Bowie, não dava sinal verde para os Stooges, pois temia o perigo de uma banda tirar o brilho da outra. Os eternos ensaios passam a ter seu propósito questionado e o tédio passa a tomar conta. Uma coisa que ninguém fala sobre aquele único show dos Stooges em Londres é que a vizinhança era ponto para prostituição e venda de narcóticos. Assim, naquela noite, os Stooges descobrem onde comprar heroína em Londres quando quiserem.

Apesar de serem proibidos pela MainMan de usarem drogas, Iggy e James, seguidos por Scott, voltariam a usar heroína. Iggy havia se esforçado muito em realizar um bom trabalho e vendo DeFries como seu salvador artístico. Mas, com o sucesso de David Bowie, a MainMan insistia em segurar Iggy & os Stooges, não permitindo a eles nenhuma exposição. A rotina de ensaios sem propósito começou a deprimir todos, o que inevitavelmente levou os músicos a buscarem prazeres externos.

A banda então foi autorizada a registrar uma demo do material que seria preparado para o novo disco e uma audição da tal fita foi realizada na MainMan. Marcharam todos para o RG Studios, em Wimbledon, onde gravaram a grande demo para a produtora, que apareceria posteriormente em vários discos piratas dos Stooges. O repertório desta demo é, em essência, o disco a ser lançado como visualizado pelos Stooges, com as canções "Scene of the Crime", "Hard To Beat", "I Got A Right", "Gimme Some Skin", "I Need Somebody", "I'm Sick Of You", "Nigger Man", "Fresh Rag", "Tight Pants", e "RG Jones At Wimbledon".

O disco estava mais ou menos montado na cabeça dos dois compositores até mostrarem para DeFries, que odiou todo o repertório. Furioso, mandou que escrevessem novas canções, dizendo-se envergonhado com aquele material. DeFries havia gostado apenas dos riffs de "RG Jones At Wimbledon" e "Tights Pants", que depois de ter a letra alterada virou respectivamente "Search And Destroy" e "Shake Appeal". Mas DeFries não sabia o que fazer com Iggy e com sua falta de cooperação.

Estava óbvio que deixando o disco em sua mão, MainMan jamais teria um produto comercialmente viável. DeFries então pede a Bowie que tente negociar com Iggy uma forma de "ajudar" na realização do novo disco. Mas Iggy dispensa a ajuda de Bowie também, não querendo que se faça com os Stooges a mesma estratégia feita com Mott The Hoople, grupo que ganhou uma composição exclusiva do Bowie - "All The Young Dudes" - que tocou bastante nas rádios, empurrando as vendas do álbum, além de ajudar consideravelmente a vender ingressos para seus shows. Iggy simplesmente não queria desvirtuar seu sonho musical para acomodar uma fórmula popularesca e também não queria abrir mão do controle de todo o álbum. Então, David Bowie retornou a DeFries aconselhando-o a simplesmente deixar Iggy fazer o que quiser.

As Canções

Sobre as canções, "Death Trip", propositalmente colocada como a última do álbum, seria diretamente relacionada com a recusa de DeFries do material original para o disco oferecido na fita demo. "Eu sabia que o álbum estava predestinado ao fracasso, que a nossa relação com a MainMan estava predestinada ao fracasso. Eu sei que eu estou predestinado ao fracasso por lançar música assim, pois sei que ninguém vai promovê-la. Sei que não vai tocar nas rádios e um monte de gente não irá gostar dela. Mas por outro lado, estou totalmente convencido que esta é a melhor música, portanto é isto que eu vou fazer. É sobre isto que eu estou cantando".

Iggy comentaria ainda que a letra de "Search And Destroy" foi escrita baseada em uma reportagem na revista Time sobre o Vietnã, que lia no parque de Kensington Gardens, debaixo de um carvalho enquanto raspava uma pedra de China White, heroína chinesa de grande pureza. Também sobre a canção, Iggy comenta "Eu sempre achei que 'Heart Full of Soul' (dos Yardbirds) era uma boa canção e fiquei pensando do que o meu coração seria cheio? Eu decidi basicamente que ele é cheio de napalm". James Williamson reaproveitou o núcleo e riff de "RG Jones At Wimbledon" somando-a com a nova letra e assim nasceu "Search And Destroy".

"Penetration" teria sido inspirado em certas passagens de dois livros de William Burroughs, "Soft Machine" e "The Ticket That Exploded". Já "Gimmie Danger" é supostamente uma análise autobiográfica, com Iggy procurando interpretar a canção com uma voz barítona no melhor estilo Jim Morrison. "Your Pretty Face Is Going To Hell", cujo título original foi "Hard To Beat", ele escreveu para uma menina que ele andou traçando enquanto esteve em Londres e que o enchia o saco de tão presunçosa.

Política Interna da Mainman

No verão de 1972, a MainMan foi oficialmente batizada. Tony DeFreis era o chefe-executivo e Tony Zanetta, presidente da filial nos Estados Unidos. Leee Black Childers era o seu vice e Cherry Vanilla, diretora de publicidade. Na Inglaterra, ficava Corinne Schwab, que anos depois seria o braço-direito de Bowie, após este romper com DeFries. Os artistas contratados eram, além de Bowie e os Stooges, o Mott the Hopple e Annette Peacock. Todos recebiam um salário semanal.

O salário, aliás, foi motivo de várias brigas. Uma passagem interessante é relatada por Ron: "Um dia, conversando com Trevor e Woody, que eram baixista e baterista do Spiders from Mars, banda de Bowie, começamos a falar sobre dinheiro. Trevor perguntou quanto eu ganhava por semana e eu disse que era US$ 150. O homem ficou maluco e começou a gritar que eles ganhavam apenas US$ 75, sendo que eram integrantes do espetáculo mais quente do momento. Descobrimos que Mick Ronson (guitarrista do Spiders) ganhava US$ 2.000, e que David uma porcentagem da bilheteria de cada show. Isso foi o mesmo que DeFries tentou fazer conosco: um salário fixo para nós e uma porcentagem para Iggy a cada show. Ele queria fazer com James o mesmo que acontecia com Mick, mas Iggy não permitiu e todos nós recebíamos a mesma quantia". Mesmo assim, Iggy ganhava um extra da MainMan, que também pagava o aluguel dos instrumentos, aluguel da casa, além de um carro com motorista para o grupo.

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Todos os ganhos de seus artistas eram pagos em cheques nominais para MainMan, com DeFries retendo o dinheiro para despesas internas enquanto pagava a seus artistas salários fixos. E para manter o esquema, quando as queixas aconteciam, jogava a culpa para outro artista. Para Bowie, DeFries dizia que Iggy precisara de tratamento dentário. Para Iggy que queria tocar para um público, dizia que não havia a mesma demanda para a sua banda, como havia para Mott the Hoople.

Ziggy Stardust Versus The Stooges

Enquanto David Bowie excursionava, Iggy, James e Scott compravam codeína líquida na farmácia da esquina e Ron fumava haxixe escondido pelas ruas de Londres. Codeína é um alcalóide narcótico, sem odor ou cor, cuja composição química é C18H21NO3. Trata-se de um derivado da morfina (que por sua vez vêm do ópio), e é usado na medicina como um analgésico para fortes crises de tosse. Sua sensação de bem estar é altamente hipnótica.

Todo este uso consumia quase metade do salário semanal de cada um. Ron Asheton também passou a manter um relacionamento sexual com Angela Bowie, funcionária da MainMan cuja função era de atender as necessidades dos Stooges e de Lou Reed. Em setembro, DeFries e toda a cúpula de sua empresa viajaram para os Estados Unidos, com a finalidade de trabalharem na parte americana da turnê de Ziggy Stardust, deixando os Stooges por conta própria em Londres. O grupo se sentiu neglicenciado e, em represália, começou a quebrar a casa alugada em que viviam e brigando com os vizinhos.

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Foi um período duro para o grupo, já que Bowie era a estrela de 1972 e ocupava toda a atenção da MainMan. "Uma vez Tony foi na nossa casa e desceu até o porão. Me viu construindo algo e perguntou o que era. Disse que era a ponte do Rio Kwait e que me sentia como Alec Guiness. Ele perguntou porque eu a tinha construído e disse que era para destruí-la depois. Eu estava cheio de tédio e vontade de tocar e comecei a berrar com ele, chamando-o de cretino e implorando por uma apresentação. Ele só pensava em David e em Ziggy".

Mas a ascensão de Bowie foi lenta, já que Ziggy foi crescendo gradualmente, pois David não era uma grande estrela até o advento de seu mais emblemático personagem. Pensando assim, Iggy foi falar com DeFries usando o argumento que se investissem nele e em seu grupo, poderia acontecer o mesmo. Ron relata uma reclamação geral do grupo: "Nós vivemos nessa casa bacana, cheio de conforto e não fazemos outra coisa a não ser ensaiar. A banda está afiada e nada acontece. Nós chegamos para o Tony e imploramos para fazermos alguns shows, mas o desgraçado nos ignorava. Ele só pensa em Bowie, Ziggy, América e dinheiro. Ele estava cagando para nós, se quiser saber minha opinião".

E Ron não estava longe da verdade, pois para a MainMan o artista principal precisa ser melhor aproveitado e para isso, deve ostentar uma grandeza e riqueza imensas. Portanto, David poderia viver na ostentação, enquanto os Stooges eram desprezados. Uma das razões para o esquecimento da banda era que Tony não queria que os dois grupos fizessem shows ao mesmo tempo, com medo de que Iggy e David fossem alvos de comparações.

Gravando o Disco

A intenção original da DeFries e Bowie era de se ter Iggy Pop com uma banda inglesa, que eles poderiam monitorar e controlar. Bowie produziria o disco e certamente daria uma canção como fez com Mott the Hoople, que provavelmente seria o sucesso comercial que daria ao grupo validade pop e impulso para vendas de ingressos e exposição na mídia. Iggy não quis nada disso, recusando tudo que era oferecido.

"Não queremos David toda noite no estúdio conosco. Ele vai acabar querendo o controle do que estamos gravando". Sendo assim, resolveram que Iggy seria o produtor e que David cuidaria da mixagem, já que David era talentoso e saberia como melhorar o som do grupo. Ele ajudaria muito as vendagens com seu nome estampado no encarte, já que Bowie era a estrela do momento como Ziggy Stardust. DeFries estava arrependido de ter se metido com Iggy e aparentemente foi Bowie quem, exercendo sua força, fez DeFries dar o sinal verde para o grupo gravar o seu álbum.

Stooges 72: Ron, Iggy, Scott, James
A MainMan garantia que eles teriam um sem-número de horas para trabalharem nos estúdios da CBS. Os quatro ficavam de cinco a seis horas diárias tocando. Iggy e os Stooges entram no estúdio e sozinhos gravaram em setembro o que acabou se tornando o último álbum dos Stooges, tudo feito rapidamente, já que todas as sessões levaram apenas doze dias.

Nenhum representante da MainMan apareceu durante este tempo e Iggy é o primeiro a dizer que foi melhor assim, sem o uso de drogas durante este período, Iggy apenas bebericando um Vermute para manter a voz aquecida. Nem para groupies ou namoradas foram permitidas acesso ao estúdio durante as gravações, regras impostas por Iggy e respeitadas pelos demais.

Uma vez gravado, Iggy imediatamente começou a mixar o disco, e já cansado de tanto ouvir o material, não conseguiu dar um som adequado. Segundo ele mesmo admite, a mixagem soava muito amadora. DeFries, que já não gostava das composições, da banda e muito menos de seu exigente e irritante artista principal, não admitiu lançar o disco mal mixado desta maneira e como única opção, deu a Iggy o ultimato de confiar no trabalho de Bowie.

Dispensando os Stooges

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Enquanto Iggy esperava David Bowie poder encontrar tempo para mixar o seu disco, e o outono já chegava, a ordem foi dada para o resto dos Stooges retornarem para Detroit. DeFries estava cansando de aturá-los e imaginava ser mais fácil lidar apenas com Iggy. Eles tinham destruído a casa, incomodado todos os vizinhos e a MainMan simplesmente não tinham mais aonde colocá-los.

E sendo assim, sem intenção de lidar com os Stooges mais do que estritamente o necessário, manteve Iggy em Londres e dispensou a presença dos outros três. Com receio de que, com as passagens nas mãos, Williamson e os irmãos Ashetons provavelmente as venderiam para comprar drogas, colocou alguém responsável por segurar as passagens e levá-los até Ann Arbor.

Esta pessoa foi Angela Bowie, que uma vez em Ann Arbor, resolveu permanecer na cidade para verificar as maravilhas da cena musical do lugar, que tanto seu marido David Bowie falava. Enquanto em Ann Arbor, Angela acabou tendo um caso com James Williamson. Como ela ainda não fazia uso de heroína, achou tediosa a companhia, sintetizando a relação como momentos de prazer seguidos por horas de tédio esperando o namorado sair do banheiro onde se trancava para injetar a droga. Angela largou Williamson e voltaria a ter um romance relâmpago com Ron Asheton, com quem ficou por mais algumas semanas até este lhe apresentar ao amigo Scott Richardson.

Angela diria que estava quase pronta para retornar a Londres quando conheceu e acabou se apaixonando por Scott Richardson, vocalista da banda SRC. Richardson gostava de cocaína, uma droga muito mais social e de seu agrado. Angela e Scott ficariam juntos pelo o resto da estação, onde, a esta altura, de tão ligados, passariam, como tantos outros, a misturar cocaína com heroína para ajudar a acalmar. Logo, Richardson também estará viciado em heroína e Angela igualmente começaria a criar uma dependência. Com o inverno prestes a chegar, Angela retorna para a Inglaterra levando consigo Scott para sua casa em Oakley Street, Londres, onde encontra David Bowie e Mick Jagger dormindo juntos em sua cama de casal. Scott Richardson acabaria morando em Londres por um ano, circulando com Angela e David.

Desafiando DeFries

Durante meados do mês de outubro, Iggy voou para Los Angeles com todas as fitas de "Raw Power" para encontrar todo o staff da MainMan e Bowie hospedados no hotel Beverly Hills. A ostentação era imensa, pois todo os integrantes viveram em luxuoso bangalôs durante os dez dias que lá ficaram. No mês seguinte, chegaram a Los Angeles todos os demais integrantes dos Stooges para se juntar a ele. Enquanto Bowie continuava sua turnê pela América, Leee Childers ficou de arranjar uma casa para os Stooges em Los Angeles.

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Leee conta que Iggy não quis nenhuma que lhe foi oferecida e saía com uma limousine do hotel, com todas as despesas pagas pela MainMan por toda Beverly Hills procurando um canto, até achar um no alto de Hollywood Hillls, subindo a Mulholland Drive, que acabou sendo alugada ao custo de US$ 900 mensais, sendo uma casa de quatro quartos com piscina no alto dos morros de Hollywood, em Torrenson Drive. Ron comenta sobre como era viver naquela casa, "No inicio era ótimo, voltávamos dos ensaios e havia mulheres nuas na piscina. Uma vida clássica de rock'n'roll: groupies nuas na piscina, um Cadillac na garagem, sendo pagos, empregadas e maconha à vontade".

Os Stooges tocaram no Whiskey A-Go-Go, com direito a boquetes no banheiro entre os sets. Puro rock'n'roll, no melhor estilo Dionístico que Los Angeles tinha para oferecer no início da década de setenta. Várias das groupies mais conhecidas desta era, como Miss Christine da GTO's, Sable Stark e Laurie Maddox, circularam entre os Stooges durante este período.

Leee tinha sido incumbido por DeFries de ser uma espécie de babá do grupo, passando a morar no apartamento em cima da garagem da casa, o que seria a casa do motorista particular. Dentre suas obrigações estava a de vigiar as despesas e estrepulias do grupo. organizar e agendar ensaios e gravações e só fariam algumas apresentações se o chefe assim mandasse. Mas Tony estava preocupado com a segunda parte da turnê de Ziggy, aberta no suntuoso e elegante Rádio City Music Hall, em Nova York, no dia 14 de fevereiro de 1973. Iggy estava cada vez mais irritado com a situação e um dia reclamou para Childres. Leee conta que o cantor se sentia um bibelô de David, que nunca o via e estava ficando cada vez mais inseguro e aborrecido. "Ninguém de nós ousava desafiar DeFries, que era uma espécie de Deus e eu não ia aborrecê-lo com isso. Iggy percebeu a inutilidade em se queixar comigo e resolveu não falar mais sobre suas frustrações".

Enquanto isto, as loucuras em Hollywood envolvendo os Stooges continuavam. Iggy, de tão chapado, invariavelmente caía na piscina e quase morria afogado, enquanto os demais viam e sequer se importavam com o que acontecia com ele. Leee Childers, que nunca aprendeu a nadar na infância, acabou aprendendo depois de adulto de tanto ter que entrar na piscina para salvar Iggy antes de morrer afogado.

Por outro lado, Childers havia se apaixonado por um rapaz que ele trouxe para casa certa noite e deixou ficar morando lá com ele. Assim, a regra pré-estabelecida de que as mulheres que os Stooges arrumavam não poderiam mais passar a morar lá foi por água abaixo. Como sua assistente havia a belíssima Cyrinda Foxe, que andou com David Johansen dos New York Dolls antes de vir para Los Angeles. Ficou por um tempo com David Bowie até ser dispensada, então foi procurar Leee e a residencia dos Stooges. Ela foi a primeira a passar a morar com James Williamson, pessoa que hoje ela despreza e com o qual se arrepende de ter dormido. Cyrinda voltaria para Nova York e os braços de David Johansen. Mais tarde, ela iria casar com Steve Tyler, do Aerosmith.

Foi durante o show no Whiskey A-Go-Go que os Stooges conheceram Sable Stark e Laurie Maddox. As duas chegaram para Iggy e Ron e casualmente pediram permissão para fazerem sexo oral com eles. Sable era uma groupie de quinze anos de idade que passou a ser conhecida no circuito depois de ser vista aos sarros com David Bowie. Ela também passou a viver na casa dos Stooges, alternando suas atenções ora para com Ron, depois com Iggy, voltando para Ron, depois Iggy, de volta para Ron, mudando para o Scott e voltando novamente para Ron.

Um dia Sable traz consigo Corel Starr, sua irmã, uma menina dita menos volátil que Sable, que acabou ficando de vez com Iggy Pop, até que suas loucuras ficassem insuportáveis. Existem inúmeras histórias de estripulias variadas que tem Iggy Pop em seu enredo durante sua estada em Los Angeles em 1973. Por exemplo, Iggy e Corel passeando com Rodney Bingerheimer, figura influente em Los Angeles, DJ e mestre de cerimônias no Whiskey A-Go-Go, com Iggy e Corel no banco de tras e Rodney ao volante, conversam em seu conversível a caminho do Lava-A-Jato mais proximo. Uma vez o carro passa ser lavado automaticamente pela maquinaria, Rodney é surpreendido ao ver Iggy e Corel transando no banco de trás sem maiores pudores. Diria ele: "eu já vi muitas coisas, mas nunca tinha visto aquilo".

A Mixagem de Bowie

Em março de 73, David Bowie voltou para Los Angeles para dois concertos (Long Beach e no Hollywood Palladium) e como havia uns dias até o início da turnê pelo Japão, trancou-se com Iggy em um estúdio no Hollywood's Western Sound Studio para trabalhar na mixagem do novo disco. Este era um estúdio velho com uma mesa de mixagem de quase dez anos de idade. Sozinhos, Bowie e Iggy, acompanhados apenas de um assistente de Bowie chamado Stewart, mixaram o novo disco, já chamado de "Raw Power."

Bowie teve um certo trabalho com as gravações e começou a orientar para algumas mudanças que acreditava serem necessárias. Iggy começava a brigar com David dizendo que ele estava desperdiçando boas idéias gravadas e querendo sabotar o disco. Ron reclamaria anos depois sobre o que foi feito na mixagem: "Nós tínhamos uma mixagem que era muito melhor do que a que Bowie havia feito, com o baixo e a bateria mais presentes. Todo mundo falava que a mixagem dele tinha ficado estranha porque David e Iggy estavam chapados de cocaína, mas na verdade foi Bowie que fodeu com tudo".

Sobre sua mixagem original, Iggy comentaria: "eu queria que as músicas saíssem dos alto falantes agarrando o ouvinte pela garganta, jogar sua cabeça contra a parede e basicamente matá-lo. Era o que eu queria, mas não importa o quanto eu tentasse, nunca conseguira fazer os agudos machucar o suficiente, nem o baixo ou fazia o bumbo ser forte o suficiente, e assim por diante, mixagem após mixagem. Basicamente eu perdi a perspectiva - artistas fazem isso. E provavelmente as drogas também deixaram tudo fora de proporção".

Por conta da reedição para CD em 1996, Iggy comentava sobre o trabalho de Bowie já com outra perspectiva: "ele ouviu cada instrumento de cada canção e conversava comigo a respeito. Eu lhe explicava o que eu queria e tentava colocar isso dentro da devida perspectiva adicionando seus retoques. Em retrospecto, acho que os pequenos retoques dado por Bowie na mixagem ajudaram".

Fazendo Seu Papel

Iggy no Henry and Edsel Ford Auditorium
No dia 27 de março de 1973, a banda finalmente realizou um show, em Detroit, onde foram recebidos como grande entusiasmo, no Henry and Edsel Ford Auditorium, local normalmente usado apenas pela Orquestra Sinfônica da cidade. Iggy deu várias entrevistas em rádios locais e, em uma delas, aprontou mais uma das suas. Sua imagem ainda é o de homem louco e dentro de seu papel de artista, existe a necessidade de manter a imagem, o que o público espera de você. No caso de Iggy, se esperam loucuras inimagináveis.

Iggy, como um artista perdido dentro de seu papel, muitas vezes acaba seguindo seu instinto animal e fazendo bobagem nos lugares menos apropriados. Durante a transmissão, Iggy ficou completamente nu, comentando no ar que estava sem roupa, coçando o saco e tocando uma punheta. Depois, para coroar o evento, se trancou no elevador da emissora com a cantora Cherry Vanilla e tentou estuprá-la. DeFries estava presente e quase o demitiu, mas foi acalmado e a apresentação dos Stooges foi memorável, com Iggy dando um grande espetáculo.

Ainda Em Detroit
Típica produção Tony DeFries, limousines e muita badalação - James Williamson

O show de 40 minutos teve basicamente o repertório de "Raw Power", mas por ordem de DeFries não voltaram para o bis. Quanto ao show, os Stooges foram novamente suberbo no que se propõem. O crítico Glenn O'Brein escreveria: "Iggy continua sendo o nome. Ele projeta perigo como nenhum outro roqueiro. Ele caminha pela fina lâmina que divide o entretenimento do ataque, trazendo as raízes violentas do rock a mostra(...)o que assistimos em Detroit foi um dos melhores shows de rock de todos os tempos".

Dali foram para duas festas, uma atrás da outra. Apesar de MainMan providenciar uma mesa farta para os jornalistas, a banda foi retirada rapidamente do local, proibidos de serem entrevistados após o show. Enquanto as pessoas da produtora MainMan comiam e bebiam com jornalistas para promover Iggy, os Stooges e a empresa, o quarteto de músicos que compõem os Stooges ficaram trancafiados em seus quartos de hotel.

Tony DeFries queria novamente se livrar dos Stooges, achando que assim, poderia passar a controlar Iggy Pop melhor. Ele era radicalmente contra o uso de drogas, ainda mais heroína, que via como um elemento nefasto para a imagem do artista no mundo dos negócios. Desta vez ele começou com o guitarrista James Williamson. Procurando semear discórdia interna, Tony havia dito a Williamson que Iggy queria substituí-lo. Houve uma pesada discussão entre James e Tony, que desprezava o uso de drogas pelo guitarrista, e deu um ultimato para que parasse com tudo ou seria demitido.

O Novo Integrante

Os Stooges obviamente ignoraram as ameaças de DeFries e retornaram para Los Angeles com algumas novas idéias para colocar em pratica. James Williamson começa a fazer a cabeça de Iggy para arrumar um pianista para melhorar o som da banda. Juntos, concordam com um nome, Bob Scheff, pianista do The Prime Movers, com quem Iggy tocara no início de sua carreira.

Iggy telefona para Scheff, que usava o nome artístico de Blue Gene Tyranny, e o convida a vir a Los Angeles para conversarem. Alguns dias depois, durante este papo, Iggy fala sobre sua vontade de buscar as boas sensações que a música lhe proporcionava ainda nos velhos tempos em Ann Arbor. Que ele estava tentando se livrar da dependência das drogas e da situação de seus negócios com a MainMan, e que gostaria de tê-lo como novo integrante. Bob Scheff concordou em princípio e começaram a ensaiar juntos. A nova formação gravaria números para o que seria o quarto disco dos Stooges, segundo com a gravadora CBS. Alguns dos títulos gravados nesta época dão uma amostra da realidade de excessos que Iggy Pop e os Stooges estavam vivendo: "Pin Point Eyes", "Johanna", "Open Up And Bleed", "I Got A Cock In My Pocket", "Rubber Legs" e "Head On".

A Demissão

A casa em Hollywood Hills era um antro de groupies e junkies. Havia copos quebrados dentro da piscina, nego se injetando à luz do dia no quintal, problemas com roubo, um aborto, e mais uma série de outros problemas até certo ponto rotineiros que incluíam as ocasionais tentativas de suicídio para chamar atenção por parte da Sable. Ninguém queria mais ficar sistematicamente cuidando e resolvendo estes transtornos que os Stooges viviam trazendo para a empresa MainMan. Apesar de Leee Childers implorar que a banda mantesse uma certa discrição, rolava de tudo, menos isto.

Quase dois meses depois da briga em Detroit, DeFries voltou a bater na tecla de que a MainMan não manteria em seu catálogo nenhum artista que faça uso de entorpecentes. E ficou então o impasse onde ou James Williamson saía da banda ou a MainMan anularia o contrato vigente com Iggy Pop e os Stooges. James não aceitou a chantagem e pediu demissão. A banda começou a trabalhar então com um músico de estúdio chamado Sky Warnklein, que usava o nome artístico de Tornado Turner.

Portanto The Stooges têm agora uma formação com Iggy Pop nos vocais, Tornado Turner na guitarra, Blue Gene Tyranny nos teclados, Ron Asheton no baixo e Scott Ashton na bateria. Um show foi marcado com a nova formação em Tennessee, em uma casa chamada Mother's. Seria a primeira vez que os Stooges tocariam em Nashville, porém não a última. Depois deste show, Iggy ficou incontrolável e começou a rugir e beber e abusar com drogas novamente. Ele queria a volta de James Williamson e só conseguiu desagradar ainda mais DeFries.

Mesmo estando no Japão, Tony DeFries deu a ordem por intermédio de Leee Childers para que se vasculhasse o quarto de Iggy a procura de provas que eles estariam usando entorpecentes, pois assim a MainMan teria como romper o contrato por justa causa. Childers encontrou uma colher queimada, naturalmente utilizada para cozinhar a heroína antes de injetá-la, e depois só lhe restou informar Iggy e a banda. O acordo entre a MainMan e os Stooges estava desfeito. Quando Bowie soube do ocorrido, ficou apreensivo, mas percebeu que Iggy só seria Iggy à sua maneira. Em menos de três anos, ele também iria deixar a MainMan e Tony DeFries de lado e seguir sua carreira sozinho.

O fim dos Stooges

O disco foi aclamado como uma obra-prima, chegando a ficar no Top 100 e com boa vendagem em Detroit, Los Angeles e Nova York. A "Creem Magazine" chamou-o de o melhor disco da década e Lenny Kaye, crítico da Rolling Stone (e que depois tocaria no Patti Smith Group), rasgou em elogios, dizendo que finalmente a banda tinha capturado, em vinil, sua essência ao vivo.

Raw Power

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"Raw Power" foi lançado em maio, quase um ano após sua gravação. O disco chega às lojas com a seguinte relação de músicas, todas compostas pela dupla Pop/Williamson:

Lado A
1. Search And Destroy
2. Gimmie Danger
3. Your Pretty Face Is Going To Hell
4. Penetration

Lado B
1. Raw Power
2. I Need Somebody
3. Shake Appeal
4. Death Trip

Talvez o que mais chama atenção é a boa voz de Iggy, não apenas esgoelando, mas realmente cantando suas canções. A abstinência de entorpecentes, mesmo que relativa, lhe fez muito bem à garganta e isto é mais facilmente percebido nas duas baladas do álbum, "Gimmie Danger" e "I Need Somebody." A qualidade das letras também receberia elogios e, conforme os anos vão se passando, a relevância do disco vem aumentando.

Mas por ocasião de seu lançamento, havia algo no disco que irritara Iggy; a concepção gráfica da capa, que foi imposta a ele. Quando viu o disco creditado a Iggy and the Stooges pela Columbia, o cantor ficou fulo da vida, sem contar a foto na capa, que o irritou ainda mais. "A Elektra era melhor do que eles. Aquela capa era uma merda", diria Iggy. Mas isso aconteceu porque a MainMan havia feito um acordo vendendo-os como Iggy and the Stooges, ao invés de Stooges, somente. Hoje em dia, Iggy concede ao fato que o trabalho gráfico desta capa trabalhou a seu favor. A arte gráfica, com as letras pingando e até mesmo a foto da capa que ele inicialmente detestara, Iggy hoje elogia, reconhecendo que serviram positivamente para sua imagem como artista solo.

Difícil de Vencer

Minha única alternativa foi comer um conhecido publicista em troca de um teto por alguns dias. Isto foi bem baixo. - Iggy Pop

Com ordens expressas de deixarem a casa imediatamente, eles saíram com o dinheiro que Ron Asheton conseguiu poupar secretamente, cerca de cinco mil dólares. Por indicação de James Williamson, os irmãos Asheton e Iggy se hospedam no modesto Riviera Hotel, Ron pagando $75 por semana adiantado e cobrando de Iggy e Scott $10 por dia, cada. Iggy Pop, de início, pernoitava, mas não ficou por muito tempo. Bob Scheff, por sua vez, já concluíra que ficar em Los Angeles não era negócio para ele e retornou à Detroit. Enquanto isto, James Williamson estava sondando o circuito musical, vendo se havia um lugar para ele em alguma outra banda. Visitando o estúdio da Capitol Records ele conhece Scott Thurston com o qual imediatamente percebe uma forte ligação musical. Trocaram telefones e deixaram o tempo passar e a oportunidade se apresentar.

Costumam dizer que neste período Iggy dormia na rua, mas isto é mais uma forma de se dizer que ele não tinha endereço certo de residência. Iggy passou a ser visto com certa freqüência no Sunset Strip tão chapado de tudo que acabava batendo em algo, uma porta, um poste, e ficando por lá mesmo, estirado na rua, cheirando à sarjeta. As pessoas viam, reconheciam quem era, e então riam seguindo os seus caminhos.

Profissionalmente, naquele momento, Iggy Pop e os Stooges estavam acabados. Iggy estava em franca decadência saúde e mental. Vomitava verde, expelindo bílis. Outras histórias dão conta de Iggy rolando de escadarias imensas. Felizmente, ele tem uma constituição de um touro e aparentemente nunca se machuca seriamente. Iggy passou a ter relações com uma conhecida figura do meio musical em troca de acomodações e assistência financeira imediata. Foi neste cenário que Steve Harris apareceu como socorro.

Jeff Wald

Iggy foi apresentado a Jeff Wald, empresário poderoso e então marido da cantora em ascensão, Helen Reddy. Wald acreditou que, com as boas críticas do álbum "Raw Power", os Stooges seriam capazes de gerar interesse e, assim, ainda render algum dinheiro em bilheteria. Em um acordo verbal, fechado com um aperto de mãos, Wald acertou uma série de shows que iria reativar os Stooges e deixá-los ocupados pelo resto do ano. Para cuidar da banda na estrada, Wald contratou Danny Sugarman como gerente de excursão.

A primeira destas datas, já com a imediata volta de James Williamson na banda, foi no Santa Monica Auditorium em Santa Monica, Califórnia, não muito longe de Los Angeles. Depois foram para Ann Arbor passando primeiro em Chicago onde fizeram uma apresentação no Aragon Ballroom. Ao chegar em Ann Arbor, se apresentam no St. Clair Shores Civic Auditorium, e permanecem na cidade onde realizam uma série de ensaios em preparação para uma série de importantes datas, que incluem Nova York e Vancouver no Canadá.

Como formação, os Stooges agora conta com Scott Thurston em substituição ao velho Blue Gene Tyranny. Ex-integrante da banda Hokus Pokus, Thurston é o mais habilidoso musicalmente do grupo. Multi-instrumentista, ele prova ser igualmente bom na guitarra, teclados e percussão. Embora esta formação jamais tenha a oportunidade de gravar e lançar um disco decente por uma gravadora, várias gravações demos surgiriam através dos anos, demonstrando esta ser talvez a mais selvagem versão dos Stooges. Certamente é esta versão da banda que a maioria dos futuros punk rockers irão assistir por já terem idade para freqüentar sozinhos os clubes.

Entre 06 de julho, show no St. Clair Shores Civic Auditorium em Ann Arbor e no dia 30 de julho, a primeira noite dos Stooges no Max's Kansas City em Nova York, vários desses ensaios acabaram sendo registrados em fita. Entre o novo material que a banda havia montado, estão canções como "She Creatures Of Hollywood Hills", "My Girl Hates My Heroin", "Jesus Loves The Stooges" (instrumental com um jeitão gospel), "Hey Baby", "Born in A Trailer", "How It Hurts" e "Johanna". Algumas destas canções são só idéias iniciais, com letras ainda em formação e que nunca chegarão a ser realmente trabalhadas. Outras como "Johanna" e "I Got The Right" terão uma vida útil maior.

Max's Kansas City

Durante o decurso de 1973, James Williamson vai se tornando a pessoa para arrumar alguém para tampar algum buraco dentro da banda. Em um tempo relativamente curto, todos os novos roadies eram contatos dele. Chegando em Nova York, The Stooges estavam prontos para mais uma série de apresentações que teoricamente definiriam seu futuro imediato como banda rentável. Jeff Wald conseguira marcar quatro noites seguidas, com os Stooges tocando sempre à meia-noite no Max's Kansas City.

Ao Vivo no Max
O lugar estava no seu auge chique em 1973, e como diria John Lennon, "qualquer pessoa que fosse alguém freqüentava o local". Os primeiros dois shows dos Stooges foram excelentes e fazem parte das histórias mais gloriosas do rock'n'roll daquela cidade. Presentes à primeira apresentação estavam nomes como Alice Cooper, Todd Rundgren, Bebe Buell, Wayne County, Dee Dee Ramone e vários membros dos New York Dolls. Até mesmo Leee Childers e Tony Zanetta da MainMan apareceram para rever o Iguana.

O set dos Stooges dava ênfase para o "Raw Power", com versões da faixa-título, "Gimme Danger", "Search & Destroy" e "I Need Somebody." Porém o repertório também já incluia números novos como "Open Up And Bleed", "Wet My Bed" e o ainda menos sutil "Rich Bitch".

Após o show da primeira noite, Iggy Pop foi bater na porta de Robert Plant, hospedado no Drake Hotel. Led Zeppelin estava na cidade por conta da "House of the Holy Tour" e embora Plant estivesse na gandaia, havia o roadie Lynn Edelson vigiando o quarto. Ao reconhecer que se trava de Iggy Pop permitiu sua entrada. Edelson conta que Iggy estava estrebuchando e vermelho feito um tomate e com febre alta. Iggy foi logo contando que sua cocaína acabara e então ele se injetara com Niacin.

Esta droga, mais comumente conhecida com vitamina B3, tem por função ajudar o seu organismo a converter alimento em energia, auxiliando o sistema digestivo e o sistema nervoso. Em dose excessiva, causa danos ao fígado, úlcera, e alteração na pigmentação da pele. Edelson o fez tirar a roupa e deitar na cama, o cobrindo com toalhas até a temperatura baixar. Com isto, Iggy caiu em um sonho profundo. Quando Plant chegou, ficou puto ao encontrar alguém dormindo em sua cama. Contudo, uma vez entendendo o que se passara, até elogiou Edelson pela ajuda prestada ao colega.

Para a segunda noite, quase toda a equipe do Led Zeppelin teve uma mesa garantida para assistir os Stooges. O que se passou nesta noite é até hoje cercado de mistério e com várias versões. Uma diz que Iggy estava tentando andar sobre as mesas, uma vez que o palco era bem pequeno, quando acabou caindo violentamente, quebrando copos de vidro e se cortando no peito. Outra diz que alguém da platéia gritou que sua avó dançava melhor do que Iggy. O Iguana prontamente pegou um caco de vidro que havia espalhado pelo chão e passou a se cortar todo. Existe outra que diz que Jackie Curtis, em dado momento, falou bem alto que queria ver sangue no palco e Iggy prontamente lhe atendeu. Outra ainda sugere que Iggy ficou apaixonado pela Bebe Buell que estava acompanhada de Todd Rundgren e não quis ou não pode lhe dar nenhuma atenção. Nesta versão, dizem que Iggy anuncia que seu coração fora quebrado e então passa a se cortar todo com o vidro.

Em todas as versões, um detalhe continua o mesmo, que era o sangue esguichando e deixando os espectadores extremamente preocupados com o artista, pedindo a ele para parar e ir até um hospital. Contudo, com a adrenalina correndo solta e sem dar muita importância ao líquido pulsando fora de seu corpo, Iggy continuou até terminar o set. Iggy novamente tinha dado, literalmente, sangue pelo espetáculo. Outra versão dá conta que antes de terminar de anunciar a próxima canção, ele desmaiou. Jeffery Brendam, o porteiro da casa, procurou carregá-lo para fora do palco. Ele contou que Iggy estava todo ensangüentado e desmaiou em seus braços, e suas últimas palavras teriam sido "há algum fotógrafo na casa?"

Todd Rundgren, Bebe Buell e Alice Cooper
Contam que o conterrâneo Alice Cooper conversou seriamente com Iggy, fazendo-o levar seu corte a sério e ir até um hospital colocar uns pontos. Enrolou-o em uma toalha e tentou levá-lo pessoalmente para o hospital. Mas Iggy saiu dali, supostamente para a casa de uma mulher que estava lhe esperando, indo pro hospital somente no dia seguinte, levado por Steve Harris. Ele precisou de dois dias para se recuperar, antes de poder voltar a se apresentar. Acabaram tocando seis dias depois, no fim-de-semana seguinte, dias 6 e 7 de agosto de 1973.

Vendo Estrelas no show do NY Dolls

Neste ínterim, Iggy e os Stooges são vistos no Felt Forum, para assistirem o show dos New York Dolls que com seu primeiro disco recém saído, estavam vivendo o que seria seu auge comercial. Abrindo para eles estava Mott the Hoople, show que Iggy assistiu na íntegra. Iggy tomara algumas pílulas de Valium e estava naquele estado quando acerta uma porta na casa, criando um galo enorme e novamente sangrando na cabeça. Ficou tão tonto que acabou novamente caindo e sem boa coordenação motora, graças ao Valium, não conseguia se pôr novamente de pé. Novamente, como em Los Angeles, pessoas passavam, reconheciam quem era, e riam dele.

Bebe Buell o viu e veio socorrê-lo, amarrando um pano na cabeça do pobre Iggy que se mostrou surpreso que alguém tenha se importado. Iggy passou o show do New York Dolls no ambulatório do Felt Forum ganhando pontos na testa. No dia seguinte, Iggy apareceu na casa que Bebe dividia com Todd Rundgren, que estava prestes a viajar em uma excursão. Extremamente carismático e de uma simpatia ímpar quando lhe convém, Iggy conquista Bebe Buell com seu misto de animal selvagem e menino vulnerável. Durante o período de ausência de Todd, Iggy se muda para a casa e por aproximadamente duas semanas, se torna o novo caso da Bebe. Neste curto período Iggy apresenta Bebe à heroína.

Bebe conta um pouco sobre o incidente: "eu vi Iggy todo arrebentado no chão e pedi para que alguém o socorresse, mas as pessoas apenas olhavam e riam. Então peguei um lenço meu e comecei a limpá-lo. Iggy ficava balbuciando 'oh, você se importou comigo, muito obrigado...'. Depois disso, o ajudei a levantar e ele pediu meu endereço. Eu dei porque tinha certeza que, no estado em que estava, ele jamais iria se lembrar. Não é que no dia seguinte ele estava batendo à minha porta. Eu não acreditei quando o vi!"

Retornando ao Max's

Retornando ao Max's Kansas City para as duas noites finais de seu contrato, os Stooges novamente fizeram apresentações convincentes. Nestes dois shows a canção "Open Up And Bleed" passa a ter sua letra definida e é considerada pronta por Iggy. Na última noite, Iggy estava novamente fora de si de tão entorpecido. Deitado no chão do vestiário, pedia para Clive Davis mijar sobre ele.

Jornalistas fazem reviews elogiando a banda e seu carismático crooner. As revistas Creem, After Dark e Rock Scene publicam longos textos sobre o show, a banda e a influência que eles já percebiam em outras bandas. Iggy chegou a dar uma longa entrevista para a After Dark onde fala sobre alguns dos problemas encontrados dentro da MainMan. E queixa-se abertamente de como David Bowie, Alice Cooper e The New York Dolls visivelmente tiraram e absorveram idéias para o seu som e suas letras, ouvindo e assistindo Iggy Pop e os Stooges.

Vexame e Sarjeta

Com a boa receptividade do disco "Raw Power", mesmo que apenas no underground, os Stooges passam a ter uma média de seis a oito shows por mês. Porém, os Stooges continuam sendo uma banda que, além de executarem um rock cru e selvagem, era essencialmente composta por integrantes extremamente desorganizados e irresponsáveis.

A excursão segue com duas noites em Vancouver no Canadá, situado perto da costa oeste do país, retornando em seguida para os Estados Unidos, tocando no meio oeste na cidade de Phoenix, no estado de Arizona. A programação os obriga a seguirem leste para St. Louis, Missouri, terra de Chuck Berry, chegando então à Costa Leste, onde tocam primeiro em Washington DC., a capital Americana, e depois em Philadelphia. Com o fim do mês de agosto, descansam quinze dias e se mandam de volta para a costa oeste onde tocam por cinco noites consecutivas, de 15 à 19 de setembro, no Whiskey A-Go-Go situando em Hollywood. Neste primeiro mês de excursões seguidas, Iggy já havia enlouquecido e os vexames passaram a fazer parte do cotidiano.

Em Philadelphia, por exemplo, cidade sede de um fã clube dos Stooges, a CBS havia preparado o palco para gravar os Stooges ao vivo, cumprindo assim as obrigações da gravadora segundo seu contrato com a banda. Teria sido uma ótima idéia que resolveria o problema tanto da CBS quanto dos Stooges, registrando a banda ao vivo tocando um misto do repertório do novo álbum e já algumas novas canções. Mas Iggy estragou tudo com seu comportamento irresponsável, prejudicando a si e a toda banda.

À caminho, a banda conseguiu como contato umas meninas vindas de Nova York que ofereciam uma droga nova para ele e para muitos, chamada então de Cristal, por apresentar-se em forma de pó cristalizado. Iggy acabou cheirando uma carreira cavalar de uma droga que ele nunca havia tomado antes e do qual não tinha nem a mais remota noção sobre a extensão dos efeitos sobre o seu corpo. E ele o fez pouco antes de ir para o show, numa demonstração de irresponsabilidade e falta de profissionalismo. Como resultado, entrou engatinhando no palco. Totalmente fora de si, sem conseguir coordenação motora para ficar de pé, mal conseguiu balbuciar uma palavra antes de desmaiar.

O que Iggy cheirou naquela noite foi PCP (Phencyclidine - Fenociclidina), uma droga que farmacêuticos costumam chamar de um anestésico dissassociativo, com propriedades alucinógenas e analgésicas. Porém nas ruas a droga é mais conhecida hoje em dia como "Pó de Anjo".

Pó de Anjo

Pó de Anjo foi desenvolvido durante a Primeira Guerra Mundial para servir como anestésico cirúrgico, porém logo foi deixada de lado, isto é, até que o laboratório Parker-Davis voltasse a experimentá-la em 1957. O problema da droga é que dentre seus efeitos colaterais constam delirium tremens, alucinações e fala acelerada. Mesmo assim, a Parker-Davis chegou a colocar a droga no mercado, que era vendida como um tranqüilizante para animais sob o nome de Sernylan por volta de 1966-67, época de experimentações químicas, principalmente com ácido, daí não tardou a ser tomada por jovens a procura de viagens alucinógenas. Porém logo ganhou má fama de só oferecer viagens ruins, e a procura secou rápido.

A PCP ataca o seu sistema nervoso central e cria uma variação de efeitos que inclui euforia, perda de inibições, ansiedade, desassossego, desorientação, dificuldade de organizar pensamentos, noção distorcidas de tempo e espaço, leveza de corpo e outras alterações relacionadas a sensações físicas. Efeitos também incluem paranóia, desconexão com o meio-ambiente, alucinações audiovisuais, salivação excessiva, suor, dormência, fala arrastada, gagueira, febre e rigidez muscular.

Utilizando em uma dosagem considerada tóxica, o consumidor tende a se tornar hostil e até violento, agindo de forma bizarra ou psicopata. Em caso de overdose, a pessoa pode ter amnésia, ficar catatônica, entrar em coma, ter convulsões e até morrer. Muitas vezes são aplicados tranqüilizantes no usuário para acalmá-lo. Usuários reportam após a "viagem" sentirem efeitos como depressão, confusão, paranóia e insanidade. Segundo consta, estes sintomas podem continuar por anos após a primeira experiência. Hoje é uma substância considerada perigosa e ilegal praticamente no mundo todo, e os médicos são unânimes em afirmar que a droga, mesmo em pequenas doses, causa danos psicológicos que podem durar meses.

Os Stooges chegaram ao local do show com uma hora de atraso e ao chegar, logo se percebeu que Iggy mal conseguia ficar de pé. Ele estava completamente fora de órbita. A banda entra para tocar enquanto três roadies o agarram pelos braços e pernas e o jogam no palco na esperança que as luzes e a música exercessem alguma influência sobre seu psique. Mas, Iggy cambaleou até a beira do palco e caiu no chão entre as mesas da platéia. Foi cambaleando de um lado à outro, entre as pessoas que o empurravam pra lá e pra cá reclamando. Alguém esfaqueou Iggy no peito com um sanduíche de pasta de amendoim com geléia. Quando Iggy finalmente conseguiu virar e se encostar contra o palco, os roadies pensaram que ele estava todo ensangüentando e que fora realmente atacado. Foram buscá-lo e o ajudaram a subir de volta pro palco. Nisso, os Stooges já havia começado e parado a mesma música três vezes, mas Iggy estava completamente imprestável e após a terceira música o clube mandou a banda sair, acabando assim com o show.

Mas não era só Iggy que perdera as estribeiras. Scott Asheton também começou a demonstrar que ele realmente estava enlouquecendo de verdade. Passou a não trocar mais a roupa, e por conseqüência, não tomar mais banho como uma forma de ficar mais próximo a Deus. Passou a andar com uma toalhinha como amuleto, toalha esta que ele usava para enxugar o suor durante os shows, e que agora se tornara um defletor de vibrações negativas para ele e a banda. Com o tempo, ele passa a cobrir sua cabeça com a toalha, inicialmente só durante os shows, depois, onde quer que ele fosse e sentisse um karma ruim.

Whiskey-A-Go-Go

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As cinco noites no Whiskey-A-Go-Go foram em si um tour de force. A banda não só teria que tocar cinco dias seguidos, mas ainda por cima teria que apresentar dois shows, um de tarde e outro de noite. Nunca duas apresentações eram exatamente iguais. Na estréia, um grande show, com Iggy fazendo suas loucuras no palco de sempre, esgoelando as letras enquanto a banda manda ver. No segundo show da noite, o público estava cheio de artistas famosos. Iggy não pensou duas vezes e foi se chegando de mesa em mesa avisando que só iria fazer o show se o ajudassem com um caixinha para que ele pudesse pagar seu fornecedor que estava esperando a grana nos bastidores. E assim ele foi juntando uma bolada pedindo contribuições nas mesas de gente como Jack Nicholson e Warren Beatty. Quando foi hora de começar o show e a banda começa o riff de "Search And Destroy", Iggy entra totalmente chapado e completamente fora de si. Consegue chegar até o microfone antes de desmaiar.

A essa altura, as pessoas já estavam questionando a qualidade do show que os Stooges estavam trazendo para o palco. Verdade que ainda se rasgavam em elogios pelo trabalho do trio de instrumentistas. Mas já se criticava o desempenho de Iggy Pop no palco como um todo, questionando a falta de esforço do cantor para cuidar da voz, de ficar no tempo, de não errar a letra das canções que ele mesmo escrevera. As cinco noites em seguida no mesmo local também deixaram claro que a banda tinha apenas um repertório ensaiado e que, embora as apresentações mudassem show a show, as canções eram sempre as mesmas sem muitas mudanças na ordem.

The Stooges ainda tentaram gravar algo enquanto em Los Angeles, em uma sessão no LA Workshop, estúdio onde The Doors gravaram muito de seu material. Iggy estava nas nuvens por estar trabalhando onde Jim Morrison gravara. A produção da sessão estava sob o comando de Todd Rundgren e apesar da banda aparentar que estava em um bom dia, o compacto almejado acabou não se materializando. Deixando Hollywood de lado, seguem para Memphis.

Macaquice

No caminho, Iggy estava cheirando discretamente na bandeja da sua poltrona no avião, e depois, fumava um baseado dentro do banheiro durante o vôo. Uma vez o avião tendo aterrizado, enchia a cara até a hora de começar o show. Na grande maioria das noites, quando finalmente subia ao palco, já estava fora de si e com a voz baleada. Quem abriu para os Stooges nesta ocasião foi The New York Dolls que, após uma hora de show, teve David Johansen preso por beijar um homem que tentava subir no palco. Homossexualismo, como também travestir-se de mulher era proibido no estado de Tennessee em 1973. Os integrantes dos NY Dolls não são presos, mas Johansen acabou na cadeia da delegacia por conduta inapropriada.

James Williamson olha espantado o gorila (Elton John) enquanto Iggy está ocupado cantando
Durante o show do Stooges, surge uma surpresa para toda a banda, já que em pleno set aparece um homem vestido em uma roupa de gorila! E para complicar, Iggy havia sido jogado na noite anterior nos arbustos em frente ao seu hotel onde acabou por dormir só se dando conta onde estava quando acordou. O resultado da noite ao relento foi a perda da voz pela manhã, e como remédio, Iggy se entope de barbitúricos além de uma boa injeção de metadrina, dada por um médico para ele poder ter alguma voz para o show. Iggy diria: "eu estava enxergando triplicado, me segurando no pedestal do microfone para manter o equilíbrio e não cair, quando de repente aparece um gorila vindo na minha direção, me agarrando enquanto eu ainda estava cantando. Eu estava alucinado de medo, pensava que era um gorila de verdade!" No final, se tratava de ninguém menos do que Elton John querendo fazer uma brincadeira com um artista cuja música ele admirava.

Elton comentaria no final da noite: "eu simplesmente não consigo entender como ele ainda não é uma grande estrela". Davey Johnstone, guitarrista da banda de Elton John, também presente na ocasião, rasga enormes elogios ao trabalho de James Williamson. Iggy riria e comentaria posteriormente que Elton é "um cara muito bacana".

Iggy estava a esta altura da excursão tomando muitas doses de vodka e tranqüilizantes, combinação que geralmente faz a pessoa rolar os olhos para trás e desmaiar. Em Atlanta, Iggy tomara tantos tranqüilizantes que não conseguia ficar de pé. Tiveram que injetar anfetamina e cocaína para que ele pudesse subir no palco e se dependurar no microfone. Fecharam a semana de shows em um clube chamado Poor Richard's. A banda toda se encheu de Pó de Anjo e fizeram todos uma apresentação lembrada não pela música mas pelos eventos bizarros que aconteceram, já que em momento algum Iggy e os Stooges conseguiam coordenar a fala com a música.

Pegaram então um trem para Washington DC para um show com bastante promoção local, no que seria a segunda passagem dos Stooges pela cidade nesta excursão, desta vez em show a ser realizado no Kennedy Center For Performing Arts, onde o grupo abriria para Mott the Hoople. A noite seguinte acabaria com uma garota digamos... meio grande, pesada, e que provavelmente namorava um motoqueiro de alguma gangue, no quarto com os irmãos Asheton. Ela se deixou ser amarrada na cama pelos pés e braços com cintos, totalmente nua. Ron e Scott, com a ajuda de uma caneta, desenharam todo o corpo da mulher como um açougueiro marcaria um boi. Então a imagem seria de um corpo que estava com as delineações devidamente marcadas e rotulados: contrafilé, maminha, lombo, etc.

Dezembro 1973

Começando o último mês do ano, The Stooges tocariam ainda nas cidades de Jacksonville e Daytona, fazendo excelentes apresentações na Flórida. Tanto que o roadie Chris Ehring, que depois passaria a ser o gerente de excursão da banda, levantou a teoria que os Stooges se apresentam melhor nos lugares de pouca representatividade, em cidades pequenas. Em cidades cosmopolitas onde os bastidores estavam cheio de pessoas dizendo para Iggy que o amavam, eram os lugares onde Iggy ferrava com tudo. Ele ficava com medo de palco, se entupia de alguma coisa e sua apresentação ficava uma merda ou simplesmente acabava pelo meio. A teoria certamente condiz com eventos ocorridos em certas noites, se não todas. Irresponsabilidade e completa falta de profissionalismo também tem sua parte nesta história de tragédias cômicas.

O grupo segue para Nashville, Tennessee, onde se apresentam em um bar chamado Mother's, casa em que eles já tocaram antes, embora com outra formação. Adentram o local do show, na hora que a banda de abertura estava passando som. A banda era composta por roadies do Allman Brothers, todos caipiras sulistas extremamente musculosos que, ao ver os integrantes dos Stooges, os confunde com uma banda meio gay, e começam a fazer comentários obscenos, prometendo estuprá-los. Os Stooges imediatamente se trancam no banheiro até a hora do show. Mais tarde, fazem uma apresentação primorosa a ponto dos caipiras se desculparem: "nós não sabíamos que vocês podiam tocar assim".

Em Nova Jersey, no penúltimo show da banda no ano, Iggy momentos antes de entrar encontra uma menina que ele define como "alguém com pinta que estava doida pra fuder". Então mesmo contra o seu melhor julgamento, leva ela até o banheiro, a deita no chão e transa ali mesmo. No meio para o final, os irmãos Asheton estão batendo na porta rindo e avisando que já foram chamados ao palco. Iggy então sai pingando, enquanto a garota no chão do banheiro suplicava entre gemidos que ele fique. Ron vestido de nazista faz uma introdução em alemão que para alguns acaba ficando como o grande destaque da noite. Tanto que a JDL (Liga em Defesa Judaica) termina por expulsar os Stooges da cidade.

BAM - Brooklyn Academy of Music
O último show do ano foi no Academy of Music em Brooklyn, realizado no reveillon. A noite foi dividida entre Kiss, New York Dolls e The Stooges, tendo o Blue Oyster Cult como banda principal. Steve Harris, presente esta noite, foi visitá-los nos bastidores antes do show. Iggy estava bem, a banda estava quicando, doida para entrar e tocar. Harris conta que saiu para sua mesa e quinze minutos depois o mestre de cerimônias anuncia os Stooges, mas nada da banda aparecer.

Quando a banda finalmente entra em cena, com um atraso considerável, o fizeram sem Iggy, levando aquele riff de introdução repetido ad infinitum até o vocalista aparecer, o que levou mais tempo do que seria normal. Quando Iggy finalmente aparece, ele estava completamente chapado e todo mundo imediatamente sabia que seria mais um daqueles vexames. Iggy vomita, arrota, esquece aonde ele deveria entrar, tropeça e cai do palco. A banda precisa parar e recomeçar, mas apesar de cantar com alguma fúria e autenticidade, Iggy não se lembra da letra de nada e portanto nenhuma versão fica boa. Um gran-finale catastrófico para a mais longa excursão que a banda tenha realizado em todos os seus anos de atividade. Este show também foi gravado para posteridade com intuito inicial da CBS de lançar um disco ao vivo. Ao final da noite, Iggy estava estirado no chão frio do vestiário, rolando em cerveja derramada e pontas de cigarro. Seus sonhos, como sua vida profissional, estavam a caminho da sarjeta.

Últimos Eventos

A esta altura, o embalo inicial do disco "Raw Power" já perdera efeito e as loucuras despirocantes de Iggy já o transformaram em uma piada de mau gosto. Jeff Wald se afasta e os Stooges começam eles mesmos a cuidar de seus negócios. O roadie Chris Ehring passa a exercer as funções de gerente de excursões enquanto Iggy cuida ele mesmo de fechar datas para a banda tocar.

Ao final de 1973, Clive Davis deixa a CBS e mais tarde funda a Arista Records. Perdendo o empresário que os bancavam, e sem nenhum peso dentro da CBS, uma vez que Steve Harris e Clive Davis já tinham deixado a casa, não havia quem se interessasse em ajudá-los. Muito pelo contrário, muita gente dentro da CBS queria se livrar da associação com Iggy e os Stooges o quanto antes.

No início de 1974, em um de seus momentos menos infeliz, durante um festival em Wisconsin, Iggy conhece a cantora Buffy Saint Marie, com quem teve um caso relâmpago de uma noite. É interessante notar como Iggy Pop, quando careta e relaxado, conseguia ser extremamente educado e encantador, atraindo seguidamente as atenções de todas estas pessoas bonitas e interessantes, um artista charmoso e cavaleiro. No entanto, uma vez chapado, já que ele nunca demonstrou maiores considerações por dosagens, passa a agir como o Diabo da Tasmânia, totalmente fora de controle, com a mente orbitando outro planeta - bem, bem longe, possivelmente em outra galáxia.

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Durante o final de 1973 e o início de 1974, os Stooges ainda fizeram algumas gravações em estúdio a título de demos. Os shows já incluíam várias canções novas que, em muitos casos, tinham uma letra que mudava de show em show, com partes murmuradas e ininteligíveis. O repertório incluía "I Got Nothing", "Cock In My Pocket", "Johanna", "Rich Bitch", "She Creatures of Hollywood Hills", "My Girl Hates My Heroin", "Jesus Loves The Stooges", "Wet My Bed", "Born In A Trailer", "Open Up And Bleed" e "How It Hurts."

Algumas destas letras são de mensagens diretas. Como por exemplo em "Ritch Bitch" (Puta Rica) onde diz "e sua vagina é tão grande que se pode passar um caminhão e todo cara que você encontra sabe que você já foi comida". Uma memorável dedicatória para aquela garota de Nova Jersey comida no banheiro as vésperas de subir ao palco, talvez? Ou mesmo "Cock In My Pocket" (Pau No Meu Bolso), onde declara, sem meias palavras: "eu quero apenas foder, não quero nenhum romance. Eu tenho um pau no bolso, yeah baby, e eu gosto dele".

Sem empresário, sem gravadora, sem dinheiro, pois tudo ia para pagar quarto de hotel e comida, o que sobrava ia pras veias. Não é à toa que Ron Asheton era o único que conseguia guardar alguma coisa para emergências. Ron conta: "estávamos perdidos quando não estávamos na estrada. Vivíamos em hotéis baratos ou apartamentos alugados. A roupa de palco era tão suja que ficava em pé sozinha no canto, escondida no banheiro por causa do cheiro. E no dia seguinte, a vestia novamente, nunca ficando em um lugar tempo suficiente para poder fazer a lavanderia".

Mas os Stooges era uma banda que se recusava a morrer. Iggy passava a marcar os shows sem nenhuma estratégia. O que pintava ele aceitava, obrigando a banda a ir de um lado para o outro do continente seguidas vezes. E nessa, acabaram tocando também em lugares muito barra pesada.

O Iguana Versus os Escorpiões

Já jogaram de tudo em mim. - Iggy Pop

O ano de 1974 para os Stooges confere três apresentações em janeiro e seis em fevereiro, a última sendo possivelmente a mais lendária, graças em parte a um disco pirata chamado "Metalic KO", que passou a circular registrando o evento, onde o público literalmente joga de tudo em cima da banda, mirando principalmente seu vocalista.

Iggy fez um levantamento humorado sobre o assunto: "já me cuspiram, me socaram, já me acertaram com ovos, dinheiro, com clipes de papel, máquinas fotográficas, sutiãs, cuecas, trapo velho, vestimentas mais caras como cintos e coisas assim. Já me acertaram com uma atiradeira, frutas diversas, uma garrafa de Johnny Walker Black Label. Eu sei que foi um Johnny Walker Black Label porque a banda depois pegou a garrafa e me mostrou. Jogaram uma garrafa de Whiskey em mim! Passou muito perto da minha cabeça, não tive nem tempo de reagir, e por pouco não me acerta. O vidro era tão pesado que a garrafa não quebrou. Eles realmente fazem uma boa garrafa."

Mas esta história na verdade começa no show anterior, realizado em Wayne, Michigan, em um barzinho barra pesada chamado Rock And Roll Farm. Uma boa porção do público daquela noite eram membros e amigos de uma turma de motoqueiros chamado Scorpions. Entre eles tinha um sujeito em particular que chamou atenção do Iggy. O Iguana por sinal, estava vestido com um chapéu de mulher com três flores, um saiote e sapatos de bailarina como roupa de palco desta ocasião.

Durante todo o show, o motoqueiro estava jogando ovos em sua direção. Chegou um ponto que o Iguana resolveu confrontar o seu rival. Então podem imaginar a cena esdrúxula do baixinho Iggy Pop, descendo do palco e indo na cara e coragem para encarar o motoqueiro. O homem era três vezes o seu tamanho com um braço mais grosso que a coxa de Iggy. Em uma das mãos ele usava uma luva de couro com taxas pontiagudas.

Iggy sabia que ia apanhar, mas não podia mais continuar a ignorar o cara jogando ovos, portanto, em sua cabeça, era melhor resolver a coisa do que deixá-la se estendendo a noite toda. O cara deu a primeira e Iggy não caiu, deu a segunda, terceira, quarta e assim por adiante. Iggy não caiu, mas estava em um estado de estupor que em momento algum conseguiu reagir.

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Havia tanto sangue jorrando pela cara que o motoqueiro cansou. Iggy não caiu, não pediu arrego, só ficou ali como um João-Bobo esperando o cara matá-lo ou respeitá-lo. O cara cansou e de certa forma, respeitou o cantor nanico vestido de bailarina. Iggy então retorna para o palco e canta "Louie, Louie." Diria Iggy: "quando tudo mais falha, vá de 'Louie, Louie', tocado bem alto, que ela irá tirar você de qualquer situação".

No meio da briga, alguém do bar chamou a polícia que acabou chegando e ajudando a tirar Iggy de lá. Durante o dia seguinte ele veio a saber que o que se passara na noite anterior nada tinha a ver com a maneira que a banda estava tocando, era apenas a noite de batismo daquele motoqueiro na gangue, e sua missão era passar a noite jogando ovos em Iggy Pop. Ao invés de deixar o ocorrido como assunto morto, Iggy vai até uma rádio e convida todos os Scorpions a freqüentar o próximo show para jogarem o que quiserem, se tiverem coragem.

E assim se sucedeu o que acabou se tornando o histórico último show dos Stooges. Realizado em Detroit no Michigan Palace, praticamente uma casa para os Stooges; os Scorpions em peso apareceram e encontraram a banda no palco cercada de guarda-costas, todos membros de outra gangue de motoqueiros chamados Child's Children. Então os Scorpions ficaram na platéia do meio para trás apenas jogando coisas na direção do Iguana. Coisas neste caso incluíam frutas e legumes estragados, mudando depois para garrafas de cerveja e vinho. Iggy por sua vez, contratara alguns amigos para zunir essas coisas de volta para o público. Algumas das meninas da frente jogaram algumas calcinhas que Iggy entendeu como uma demonstração de carinho.

Momentos humorísticos incluíam Scott Asheton implorando para que Iggy não fique na sua frente e colocando um prato estrategicamente situado de forma que seu rosto fosse protegido durante toda a noite. Felizmente não houve nenhum incidente maior, afora a quantidade de garrafas sendo jogadas em cima do artista principal. Ninguém sabia aquela noite, mas esta seria a última apresentação dos Stooges.

O show foi registrado para a posteridade em um gravador de quatro canais por Michael Tipton, amigo de Ron Asheton que morava em Detroit. Sem fins lucrativos, Tipton fez uma cópia para cada integrante da banda. Aí Ron conta: "Iggy, James e Scotty perderam as suas cópias e eu era o único a manter uma porque eu guardo tudo. Aí James Williamson em 1976 me pede a fita emprestado porque ele dizia ter um projeto de engenharia de som para fazer. Nunca recebi a fita de volta e de repente aparece o disco com aquele show. Iggy e James venderem a única cópia para a Skydog por $2.000. Michael Tipton ficou furioso, foi ele quem gravou o show e eles não lhe deram um centavo pelo seu trabalho".

Iggy conta uma história um pouco diferente, dizendo que James Williamson vendeu a fita para Marc Zermuti, dono da Skydog, sem ninguém saber. Zermuti foi então para França onde Iggy não poderia encontra-lo e lançou o disco primeiramente por lá, em julho de 1976, sob o título "Metalic KO". Na época o Punk estava no auge do interesse popular, e o disco tornou-se um registro de certa importância.

Os Stoges então retornam para Ann Arbor para o que seria uma semana de descanso. Ron conta que recebeu um telefonema de Iggy dizendo que estava exausto tanto física quanto mentalmente: "me desculpa Ron, mas eu preciso deixar a banda. Eu não consigo continuar, simplesmente não consigo lidar mais com a situação". E foi desta forma relativamente simples que os Stooges acabaram de vez em fevereiro de 1974.

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Ron Asheton analisa assim a opção de Iggy: "Havia muita coisa acontecendo. A comparação entre Iggy e Bowie, para começar. Iggy estava sempre nos jornais, onde escreviam sobre ele como uma nova estrela do rock que estava a caminho de uma carreira solo fantástica. Iggy foi lendo sobre quão grande ele era, e como ele poderia se dar melhor sem os Stooges. Alguns shows levavam apenas o seu nome sem menção aos Stooges. Tudo isso criou uma distância entre Iggy e a banda. Ele estava mental e fisicamente esfolado de verdade, e acabou se tornando tão nervoso e tenso que precisava tomar tranqüilizantes para relaxar".

Fim de uma Etapa

Iggy Pop, James Williamson, Ron Ashton e Scott Asheton iriam se reencontrar em Los Angeles, porém não mais como uma banda em um projeto Stooges. Ron e Scott viajaram para LA apostando que lá Iggy acabaria aproveitando os dois para novamente trabalharem juntos, mas não foi assim que a coisa transcorreu.

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Dave Alexander

Morando com a mãe desde sua saída da banda, Dave Alexander recebeu parte de uma herança e investiu na bolsa de valores, aparentemente conseguindo uma pequena fortuna, que segundo alguns relatos, era da ordem de centenas de milhares de dólares. Continuou amigo de Ron Asheton, inclusive levando-o ao aeroporto quando Ron seguia para Los Angeles. Duas semanas depois ele estava morto. Encontrado morto em casa em 10 de fevereiro de 1975, Dave Alexander era um alcoólatra sem responsabilidades e morreu em decorrência de uma úlcera, graças a seus excessos inebriantes.

Scott Thurston

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Com o fim dos Stooges, Scott Thurston continuou trabalhando com Iggy Pop e James Williamson no álbum que acabou sendo lançando com dois anos de atraso, "Kill City". Thurston depois iria tocar com Ron Asheton em uma segunda formação de New Order, sua banda nova. No entanto, nenhum destes trabalhos iria render muitos frutos.

O trio Thurston, Williamson e Pop voltaria a tocar junto novamente durante a gravação de "New Values", álbum de Iggy Pop a ser lançado em 1979. Thurston colaborou tocando baixo, guitarra, harpa, teclados, vocais, além de escrever todos os arranjos de sopros. Levaria outros dois anos para surgir um convite de Brian Glasscock, com quem trabalhou junto em "Kill City", para participar de outro grupo, The Motels, que vivia um bom momento na década de oitenta. Seu envolvimento com eles durou três anos, e dois LPs, justamente o período auge do grupo.

Deste ponto em diante, Scott Thurston seria conhecido como um excelente músico de estúdio e seria contratado por vários artistas, participando até hoje em discos de nomes como Melissa Etheridge, Jackson Browne, Glenn Frey, Tom Pety e Bonnie Raitt.

James Williamson

Morando junto com Iggy Pop em Los Angeles por boa parte do ano de 1974 e 75, obviamente investindo na parceria, James Williamson tenta gravar e produzir o álbum definitivo de Iggy Pop. Financiado por Bob Edmonds, as sessões finalmente aconteceram no estúdio particular de Jimmy Webb durante o mês de março e abril de 1975. O material resultante acabaria sendo finalmente lançado em novembro de 1977, com o titulo de "Kill City". O álbum é ainda bem próximo ao som dos antigos Stooges, mais do que qualquer outro disco solo que Iggy passaria a gravar, mas têm suas diferenças, já que consegue um pouco mais de equilíbro entre o esporro e a melodia.

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Ajuda o fato da maioria dos músicos serem da última formação dos Stooges, salvo os irmãos Asheton. Temos Iggy Pop nos vocais, James Williamson nas guitarras e Scott Thurston que pode demonstrar todo o seu talento em vários instrumentos, participando não só nos teclados como também na guitarra, baixo, gaita de boca, e efeitos variados. Também convidado a participar é o baterista Brian Glasscock, ex-Toe Fat, irmão do baixista John Glasscock do Uriah Heep, que além de fazer a maioria das percussões, também contribui com alguns vocais no álbum. John Harden aparece no saxofone enquanto James Williamson produz e mixa todo o disco.

No repertório podemos ouvir também duas canções remanescentes do repertório ao vivo da última formação dos Stooges, mas que jamais tiveram uma gravação oficial lançada. São elas "I Got Nothing" e Johanna". "Open Up And Bleed", que também fez parte destas sessões acabaria de fora. As outras faixas, todas composições novas da dupla, são "No Sense Of Crime", "Kill City", "Sell Your Love", "Beyond The Law", 'Lucky Monkeys", "Night Theme" e "Consolation Prizes."

Depois de passar o restante daquele e praticamente todo outro ano tentando vendê-lo para alguma gravadora, James Williamson aparentemente sentiu a necessidade de se afastar totalmente da cena musical para curar de sua dependência com heroína, condição básica para conseguir focalizar suas energias no futuro. Sumindo totalmente do circuito, Williamson voltou à escola, fazendo um curso técnico e tornando-se um engenheiro elétrico. Morando em Los Angeles, acabou se envolvendo com computadores no parque industrial existente na região conhecida pelo nome de Silicon Valley. Seu hiato dos estúdios sofreria uma rápida interrupção em 1979, quando participa do disco "New Values" de Iggy Pop, junto novamente com outro ex-Stooges, Scott Thurston. Depois de casar, em algum período da década de oitenta, James Williamson acabaria trabalhando como executivo da CBS gravadora, que depois se transformaria na atual Sony Records.

Ron Asheton

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Preso em Los Angeles sem dinheiro para retornar de imediato a Detroit, Ron Asheton acabou formando uma nova banda e fazendo de Los Angeles seu quartel general. Constituída por amigos de Detroit, nasce a banda New Order, com Ron Asheton na guitarra, Jimmy Recca no baixo, ambos ex-integrantes dos Stooges, Dave Gilbert nos vocais e Dennis Thompson, ex-integrante do MC5, na bateria. Durante sua estada em LA, ele veria Iggy e James Williamson em algumas ocasiões, mas não havia mais nenhum resquício de amizade.

Outros músicos a participar de algum momento da banda New Order foram Ray Gun na guitarra, Jeff Spry nos vocais e Scott Thurston, outro ex-Stooges, nos teclados. New Order teria sua grande chance de gravar um álbum em outubro de 1976. O disco, lançado pela RCA, não foi promovido e acabou totalmente ignorado. The New Order acabaria antes da chegada do ano novo. Este conjunto americano nada tem a ver com a banda inglesa com o mesmo nome, oriunda do Joy Division.

Retornando para Ann Arbor e freqüentando novamente o circuito musical de Detroit, Ron Asheton acabou se unindo à banda Destroy All Monsters, formada em 1973, mas que da formação original mantia na época apenas os namorados Cary Loren e a ex-modelo Niagara. Seguindo a entrada dos irmãos Larry e Ben Miller, respectivamente na guitarra e saxofone, vieram Ron King na bateria, Ron Asheton, e o Michael Davis, ex-baixista do MC5. Este fato traz maior exposição da banda para a mídia local, e o grupo acaba gravando e lançando seu primeiro compacto em outubro de 1976.

Diferente de qualquer outra banda da época, Destroy All Monsters fazia um som mais próximo ao que na década de oitenta seria chamado de rock industrial, tendo atuado no circuito de Ann Arbor por um ano e meio entre 1978 e 1979. Neste período lançaram apenas dois compactos "Bored" com "You're Gonna Die" e "Meet The Creeper" com "Nov. 22nd, 1963", que por sinal é a data em que o Presidente John F. Kennedy foi assassinado. Quando Niagara e Ron Asheton começaram a ter um romance, Loren deixa o conjunto, seguido pelos irmãos Miller. Destroy All Monsters continuaria com apresentações ocasionais até meados de 1985.

Em 1981, Ron Asheton ainda passaria pela banda The New Race, de Deniz Tek e Rob Younger, ambos ex-integrantes do The Radio Birdman, conjunto com algum respaldo dentro de Michigan. A banda gravaria um álbum ao vivo intitulado "The First And The Last". Asheton sumiria durante o restante da década, reaparecendo nos anos noventa tocando com a banda The Empty Set. O resultado desta colaboração se traduziu no álbum "Thin, Slim and None". Animado, Ron gravaria novamente um álbum com sua companheira Niagara, chamado "The Last Great Ride", a banda agora sob o nome de Dark Carnival.

No final da década de noventa, Ron foi convidado a compor e gravar músicas para a trilha sonora de Velvet Goldmine, um filme sob a era Glitter, que se prende a personagens que são claramente baseados em Marc Bolan fase T. Rex, Iggy Pop fase Stooges e David Bowie fase Ziggy Stardust & the Spiders of Mars. No filme, a banda em questão seria chamada de Wilde Rattz, e em sua formação temos Ron Asheton dos Stooges, Mark Arm do Mudhoney, Thurston Moore e Steve Shelley do Sonic Youth.

Scott Asheton

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Em 1975, Scott estava morando com Ron em um apartamento próximo ao Hyatt Hotel. Ainda nutrindo um hábito por heroína, numa bela ocasião desmaia junto à janela e quase cai do quinto andar. O que o salvou foi Ron agindo rápido e conseguindo segura-lo pelos calcanhares. Era hora de mandá-lo de volta para a casa dos pais. Scott diria: "Eu fui pra casa lamber as feridas". Levaria quase dois anos para que Scott pudesse se considerar realmente limpo dos tóxicos em seu corpo.

Após um considerável período de recuperação, Scott Asheton se juntaria a um grupo de amigos, todos ex-integrantes de alguma banda com algum prestigio dentro do eixo Detroit - Ann Arbor. Com o imponente nome de Sonic's Rendezvous Band, temos um grupo formado por Fred 'Sonic' Smith, ex-MC5 na guitarra; Scott Morgan, ex-Rationals na guitarra e vocais; Gary Rasmussen, ex-Up no baixo; e Scott 'Rock Action' Asheton, ex-Stooges na bateria.

A banda continuaria junta durante o restante da década de setenta, tocando basicamente dentro do circuito de Ann Arbor e Detroit. Muito em função de seus integrantes, Sonic's Rendezvous conseguiu atrair interesse e efetivamente dar lucro, mesmo que marginal. Com Fred Smith freqüentando a casa dos Ashetons com maior regularidade, foi uma questão de tempo para o velho fogo entre Fred e Kate Asheton voltar a queimar.

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O grupo chegou a lançar um compacto, "City Slang". Interesse através dos anos, mais as facilidades da era digital, trouxeram à tona um pequeno número de discos piratas com apresentações ao vivo além de material de estúdio, que até o momento não foram lançados oficialmente.

Seria por volta de 1979, com o namoro entre Patti Smith e Fred Smith levando à casamento, que as respectivas bandas de cada um seria extinta, aparentemente os dois queriam cuidar de uma etapa diferente de suas vidas, longe dos palcos. É o fim do Patti Smith Group e Sonic's Rendezvous.

Sumido durante a década de oitenta, Scott se reúne com seus ex-colegas do Sonic's Rendezvous em 1989, sob o nome de Scotts Pirates. Sua formação incluía Scott Morgan na guitarra e vocais, Gary Rasmussen no baixo e Scott Asheton na bateria. Outros músicos passam pela banda que lança pelo menos dois álbuns: "School Kids" e "Revolutinary Means", respectivamente em 1994 e 95. Scott reapareceria com o grupo Sonny Vincent's Rat Race Choir no álbum "Pure Filth" em 1997.

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Iggy Pop

Já Iggy Pop, como todos sabem, continuou com uma carreira solo cheia de altos e baixos. Sua vida estava uma loucura tão grande, totalmente imerso em depravação e alienação química, que Iggy acabaria o ano se internando no Instituto Psiquiátrico da Universidade de Los Angeles Califórnia (UCLA) em uma tentativa de passar a se alimentar corretamente e parar com as bebidas e drogas.

Uma vez de volta para as ruas, participou de inúmeros projetos que só o trouxeram de volta para a vida de sexo e drogas. Em tempo, ele se associaria a David Bowie, se mudando para Berlim e gravando o primeiro de uma série de álbuns que abriria sua carreira solo para a geração punk e iniciaria sua redenção financeira e re-estruturaria sua autoconfiança profissional. O primeiro álbum, apropriadamente intitulado "The Idiot", e o disco a seguir, "Lust For Life", foram promovidos por uma excursão européia de grande sucesso crítico e financeiro. Iggy estava novamente na crista da onda; mas isto fica para outra biografia; aqui estamos fechando o assunto com os Stooges.

Um Novo Milênio com os Stooges

Seria somente depois do novo milênio que Ron Asheton, Scott Asheton e Iggy Pop voltariam a tocar juntos novamente. Isto ocorreu quando Mike Watt, ex-baixista das bandas Minuteman e Firehose, apresentou Ron Asheton ao J Mascias, guitarrista de sua nova banda The Fog. Mascias adorava o material dos Stooges e convidou Ron para excursionar com eles como convidado especial, fazendo ao final do show um set com The Fog tocando material dos Stooges. O resultado foi de agrado de todos, músicos e público, tanto que estendeu-se um convite para Scott Asheton assumir a bateria se ele assim o quisesse. Scott na mesma hora aceitou dizendo: "eu não conheço Watt ou Mascias mas se meu irmão gosta deles, devem ser boa gente".

Então foi no ano de 2001 que se iniciou a série de excursões nos Estados Unidos e Europa promovidas como J. Macias & The Fog with Special Guest Ron Asheton. E ao unir Ron e Scott Asheton, tocando material dos Stooges, tem-se no palco uma explosão visceral que até então só se ouvira falar, mas que havia trinta anos ninguém mais ouvira. Steve McKay, saxofonista da era Funhouse, acabou se juntando à troupe e as casas passaram a encher ainda mais. Havia cantores de outras bandas se convidando a cada noite para fazerem o papel de Iggy no set. Sabe-se de participantes como Evan Dando do Lemonheads e Bobby Gillespie do Primal Scream.

E enquanto tudo isto estava acontecendo Iggy Pop, vendendo relativamente poucos discos, estava excursionando durante o ano de 2002 com The Trolls e ouvindo em tudo que é cidade na América e na Europa que os irmãos Ashetons estavam na estrada tocando só material dos Stooges e que era um sucesso fenomenal. Finalmente Iggy fez a chamada telefônica e o resultado foi umas sessões de gravações realizadas entre 13 e 23 de janeiro de 2003, no Criteria Studios em Miami.

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O álbum resultante, intitulado "Skull Ring", seria lançado em setembro na Inglaterra e novembro de 2003 nos Estados Unidos, marcando fonograficamente a parceria de Iggy Pop com os Stooges. "Skull Ring" tem apenas quatro faixas com os Stooges, mas gerou interesse o suficiente para uma excursão americana iniciada em 27 de abril de 2003, seguida de outra Européia, a primeira fora dos EUA na história da banda. No repertório, apenas material dos Stooges vindo dos primeiros dois discos, Ron Asheton tendo sua vingança contra James Williamson, fazendo questão de sua ausência tanto em pessoa quanto em repertório.

Mas apesar deste retorno com os Stooges, Iggy ainda é um artista solo e continua paralelamente excursionando com a sua banda atual, The Trolls. Em momento algum lhe interessava andar para trás em sua carreira e voltar a trabalhar exclusivamente com seus antigos amigos do velho bairro. E a excursão com os Stooges passa a ser ocasional, assim como integrantes do The Who ocasionalmente tiram um ano qualquer para excursionarem juntos. The Stooges já viajaram por todo o mundo tocando inclusive no Brasil no final do ano de 2005.

Iggy optou por continuar trabalhando primeiramente com um grupo de músicos jovem que queiram o prestígio e a experiência adquirida ao tocarem com ele, como é o caso de sua atual banda, The Trolls. Todavia, ao final do ano de 1975, poucas pessoas apostariam que Iggy Pop viveria para ver o final da década de setenta, quanto mais ver chegar à virada do milênio. Contudo, no melhor estilo Stooges, Iggy Pop é um cara que simplesmente se recusa a passar despercebido. Ele se recusa a enferrujar, e se recusa a morrer esquecido. Kudos para quem tem tamanho Tesão Pela Vida!

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Esta matéria vem através de informações de fontes diversas. Segue então uma lista de livros e websites importantíssimos para a sua realização:

Websites:

- All Music Guide (http://www.allmusic.com)
- The Art Shack (http://www.artshack.com/iggy2.html)

Livros:

I Need More – Iggy Pop
Gimmie Danger: The Sotry of Iggy Pop – Joe Ambrose
Please Kill Me: The Uncensored Oral History Of Punk – L. McNeil e G. McCain
Iggy Pop: The Wild One - Per Nilsen e Dorothy Sherman
Bowie - Loving the Alien - Christopher Sandford
David Bowie - A Chronology - Kevin Cann
Backstage Passes – Angela Bowie

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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Sobre Rubens Leme da Costa

Rubens Leme da Costa, 34 anos, é jornalista intrometido desde 1994. Já escreveu para vários lugares, falando não só de música, como também de futebol, xadrez, e esportes menos conhecidos. Colaborou em revistas, cd-roms, vídeo, sites, e já foi até cameram-man de uma televisão boliviana. Já que ninguém o contrata para nada, fica pentelhando o João Paulo com textos e mais textos até que uma alma caridosa arranje algo para ele fazer. E avisa: caso não role nenhum trampo, o João é que pagará o pato!

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