O rock feito na Inglaterra somente conquistou respeito mundial após o surgimento dos Beatles. Todavia, muito antes do quarteto de Liverpool ser formado, já haviam algumas bandas tocando em Londres e arredores. Entre 1954 e 1963, quando finalmente "Please, Please Me" chegou a No.1 nas paradas britânicas, existe uma rica história de pessoas e lugares que de uma forma ou outra influenciaram e ajudaram a moldar o rock inglês como nós o conhecemos. Este texto tenta trazer à luz alguns desses personagens menos festejados e, na medida do possível, dar uma certa ordem cronológica aos eventos significativos e pertinentes à popularização do rock.

Com bandas de skiffle surgindo a cada esquina, a industria fonográfica evidentemente quis faturar com a nova moda, o que deu a oportunidade para algumas das primeiras bandas a aparecerem.

Todos estes acima gravaram material que tocava nas rádios, se apresentaram na televisão e alimentaram a mania skiffle em meninos como Roger Daltrey, John Lennon e Jimmy Page. Logo cada um também teria sua banda de skiffle, bandas estas que não tardariam a fazer a transição de skiffle para o rock.

Um dos primeiros grupos de skiffle a aparecer puxando um pouco mais para o rock foi o de Tommy Steele, descoberto em 1956 tocando no 2I's Club. Seu primeiro hit foi "Come On Let's Go" que lançou uma carreira respeitável e que durou até o surgimento da Beatlemania.
Uma das primeiras bandas a tocarem no 2I's foi The Vipers Skiffle Group, um conglomerado de cerca de oito rapazes dos quais quatro tocavam o violão e cantavam, um cuidava da bateria, outro do esfregão de roupa e dois no 'tea chest bass', um baixo improvisado feito de uma caixa de madeira, um cabo de vassoura e uma corda. Com o clube se tornando naquele mesmo ano o ponto musical alternativo da cidade, mais e mais bandas tiveram seu momento de glória tocando no 2I's.

Até então, havia uma total falta de mercado especificamente para o jovem, primeiro porque eles nunca tiveram autonomia financeira até depois da Segunda Guerra Mundial e, conseqüentemente, a tendência era do jovem ouvir e absorver os mesmos gostos de seus pais. Embora nenhum destes primeiros artistas mencionados sejam propriamente rock, o mero fato deles aparecerem contribuiu para o desenvolvimento do mercado jovem por parte da indústria fonográfica.


Surgiam também algumas big bands ou pequenas orquestras assumindo um repertório que inclui instrumentais de rock 'n' roll. Dois exemplos mais populares são o Lord Rockingham's XI e The John Barry Seven.

Este é o inicio da virada musical do rock inglês. Cliff Richard é uma história à parte pois foi o primeiro a lançar um compacto que chegou entre as dez mais vendidos da semana, um sucesso comercial que o rock inglês nunca tivera até então. Apesar de todo o sucesso de Tommy Steele ou The Vipers, estes nunca soaram tão bom quanto os roqueiros americanos. O primeiro compacto de Cliff Richard, "Move It", ainda estava longe de ser um sucesso internacional, mas é efetivamente o primeiro 'mega hit' dentro do gênero rock produzido pelos ingleses. Rapidamente a imagem de Cliff Richard seria comprada a de Elvis Presley, com costeletas largas e um violão na cintura. E como Elvis, não demoraria muito para empresários e produtores moldarem seu menino de ouro para cantar baladas e tocar o coração das mães e não só das filhas. Igualzinho ao Elvis.


A canção foi gravada no EMI Studios de Abbey Road. Embora o número fosse bastante popular nos shows da banda, a BBC jamais permitiu sua execução em televisão ou rádio. A canção falava em Cadillac e Ford, o que infringia uma política interna da emissora contra propaganda de produtos. Além do mais, a canção era cheia de observações agressivas, outro tabu da emissora. Ela se tornaria um sucesso internacional em 1979 com The Clash, o que demonstra quão a frente de seu tempo Vince Taylor & the Playboys realmente eram.
Vince Taylor acabaria tendo uma carreira de grande sucesso na França. Apesar de juntos por tão pouco tempo, the Playboys é lembrado por ter tido o melhor guitarrista e os dois melhores bateristas do rock inglês. O primeiro na batera foi Brian Bennett, deixando os Playboys para se juntar à banda de Marty Wilde. Para surpresa de muitos, ele foi substituído por um desconhecido Bobby Woodman, que logo seria votado como um baterista superior ao Bennett. Woodman foi o primeiro baterista inglês a tocar com dois bumbos. Ele seria uma das principais influências para um incontável número de bateristas do futuro, os mais notórios sendo Keith Moon e John Bonham. O nome Bobby Woodman seria considerado lendário e largamente respeitado na Inglaterra durante a década de sessenta.

Com a televisão dando seus primeiros passos na Inglaterra, o aparelho apenas ganhando popularidade após a coroação da Rainha Elizabeth II em 1953, o entretenimento familiar resistiu bravamente à invasão rebelde do rock. Teria resistido por mais tempo, não fosse o esforço de Jack Good. Seus programas musicais, sempre dirigidos aos jovens, permitiram uma maior divulgação para diversos artistas e bandas de vários gêneros, inclusive o rock 'n' roll. De fato, Good foi o primeiro a trazer o gênero para a BBC no programa "6-5 Special" em 1957, porém acabou demitido por não permitir que seu programa fosse confinado ao formato de magazine como queriam seus patrões. Na concorrente ITC, Jack Good acabou conseguindo ainda maior sucesso graças a uma série de programas como "Oh Boy" que foi depois seguido por outro pequeno sucesso, "Boy Meets Girl". Jack Good gravaria um compacto, "Hoots Mon" com o Lord Rockingham's XI, contratado como banda residente de seu programa.
Seu auge seriam os programas "Ready, Steady, Go", "Juke Box Jury", e "Thanks Your Lucky Stars", por onde passaram praticamente todas as grandes banda da primeira metade da década de sessenta. O prestígio trazido com o sucesso de "Top of the Pops" o levaria a ser contratado para produzir um programa similar nos Estados Unidos. Nasce então em 1965 o programa "Shindig", apresentando bandas e artistas americanos e ingleses. Jack Good também é responsável por trazer para a Inglaterra Gene Vincent e Eddie Cochrane em 1962, quando já estavam esquecidos pelos americanos. É justo dizer que muito da divulgação do rock 'n' roll no Reino Unido se deve a sua iniciativa.

The Wild Cats, após tocarem para Gene Vincente e Eddie Cochrane durante a passagem destes dois americanos em solo inglês, mudaram de nome para The Krew Kats, ainda gravando mais dois compactos antes de acabarem. Primeiro Bennett e depois Locking se juntariam ao Cliff Richard & the Shadows, enquanto Jim Sullivan se tornaria um guitarrista de estúdio de bastante sucesso. A vaga para uma nova cozinha (baixo e bateria) no Shadows surgiu com a saída de Tony Meehan e depois de Jet Harris, ambos resolvendo deixar a vida em uma banda para se tornarem produtores. Harris ainda manteria por algum tempo seu próprio conjunto, Jet Harris and the Jet Blacks.
A partir de 1959 o mercado para a música jovem estava de portas totalmente abertas. Como nos Estados Unidos, onde a indústria fonográfica estava inundando o mercado com cantores bonitinhos com lindos cortes de cabelo, o mercado inglês copiava a fórmula já acreditando em seu poder de sucesso. De uma hora para outra uma horda de 'teen idols', cada um mais lindo e penteado do que o outro, aparecem nas rádios e nos programas da BBC-TV. Entre estes, temos Craig Douglas e suas interpretações para "Only Sixteen" e "Ain't Nothin' Shakin' But The Leaves On The Trees" e Vince Eager e seus dois sucessos, "No More" e "Yea, Yea". Outros nomes da era incluem Al Saxon, Mike Preston, Keith Kelly, Little Tony, Ricky Valance, Jerry Lordan e Michael Cox. Havia também uma série de artistas promovidos pelo ex-cantor Larry Parnes que tiveram todos nomes artísticos tempestuosos. São eles Bill Fury, Duffy Power, Dickie Pride, Lance Fortune, Georgie Fame e Johnny Gentle.
Haviam poucas bandas integralmente investindo em rock puro, e uma excessão era The Tony Sheridan Trio. Porém até mesmo Tony cantava algumas baladas bonitas no melhor estilo Elvis Presley. Outros grupos que estavam neste limbo eram Cliff Bennett and the Rebel Rousers, Neil Christian and the Crusaders e Screaming Lord Sutch and the Savages, este último mais pesado, porém levado a sério graças à insistência pela temática de teatro de horrores. Havia ainda aqueles que uniram os dois caminhos. Eram os baladeiros que se unem a bandas roqueiras, que mantém parte de seu repertório romântico mas são capazes de interpretar ótimos rocks. O casamento dos dois gêneros acabou por ajudar a trazer mais atenção tanto para o cantor principal como para a banda adotada. Dois bons exemplos desta tendência eram Mike Berry & the Outlaws e Cudly Duddley & the Redcaps. The Outlaws ainda iria conseguir se manter após a saída de Berry, enquanto The Redcaps acabaria se juntando a Johnny Kidd na segunda formação de sua banda the Pirates.

Nem Cliff Richard conseguiu feito igual, embora a esta altura, em plenos anos sessenta, Richard já estava mais limpo, mais doce e mais interessado em vender para as mães do que para as filhas rebeldes. The Shadows, embora continuasse com Cliff Richard até 1968, conseguiria manter paralelamente uma carreira própria de sucesso com rocks instrumentais. Outras bandas fazendo rocks instrumentais competitivos no inicio da década seriam The Tornados e The Cougars.

Tony Meehan ainda seria lembrado como tendo participado junto com Mike Smith das sessões na gravadora Decca com os Beatles. Smith iria optar por contratar outra banda, Brian Poole and the Tremoloes, deixando os Beatles para encontrar refúgio em um selo de menor expressão, Parlophone. Em 1962 "Love Me Do" passaria quase despercebido em Londres mas em fevereiro de 1963, "Please, Please Me" chegaria a No.1 e daria a partida para uma total mudança de eixo e concepção no rock. Nasce a era dos Beatles e no vácuo, o chamado Mersey Beat, nome que a imprensa deu ao enxame de bandas vinda da região de Liverpool. Logo a competição seria desigual e bandas que reinavam nos primeiros três anos da década de sessenta seriam esquecidos e/ou desfeitos. Aliás, o assunto referente ao rock em Liverpool é sozinho um assunto interessante e que vale uma certa pesquisa.
Em 1964 os Beatles chegam à America e até o final daquele ano seriam uma unanimidade em dois terços do mundo. O Rock Inglês nasce com subseqüentes invasões de artistas que em doses variadas, passam sistematicamente a ser aceitos no mercado. Evidentemente estou me referindo aos Rolling Stones, Animals, Kinks, Them, Dave Clark Five, Spencer Davis Group, Manfred Mann, Zombies, Small Faces, Pretty Things, Moody Blues, Hollies e tantos outros que coloriram as noites de bailes de seus tios ou seus pais.
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Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.
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