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Paul Kossoff - Dor transmitida através das cordas

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Por Bento Araújo
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Nascido em 14 de setembro de 1950, filho de uma tradicional família inglesa (seu pai, David Kossoff, é um conceituado ator inglês), Paul começou estudando violão clássico durante nove anos - hábito esse rapidamente abandonado quando viu um concerto de Eric Clapton junto com John Mayall’s Bluesbreakers no inverno de 1965. Passado o baque, o garoto decidiu se juntar a uma banda de rock.

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Era 1966, e a psicodélica swinging London fervia com a explosão de tantas novas promessas, nessa época Kossoff trabalhava numa loja de instrumentos e eis que num belo dia, surge então um desconhecido guitarrista negro e canhoto que adentra o estabelecimento procurando por uma nova guitarra. O tímido Kossoff se aproxima oferecendo ajuda, mas não havia guitarras para canhotos na loja.

O guitarrista canhoto não se faz de rogado, agarra uma guitarra “normal” e a toca naturalmente! O garoto simplesmente não acreditava no que via. Em dezembro daquele ano é lançado o single “Hey Joe”; a Inglaterra fica de quatro com Hendrix. O jovem vendedor achava a maior inspiração de sua vida.

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A paixão de Kossoff por Jimi Hendrix era tanta, que ao saber sobre sua morte em 1970, Kossoff ficou desolado - quis largar tudo e partir para o funeral em Seattle. Coube a Simon Kirke fazê-lo desistir da idéia.

Em 1968, surge o Free, apadrinhado e batizado pelo guru Alexis Korner, um dos pais do blues britânico. Além de Kossoff, o Free tinha Paul Rodgers nos vocais, Andy Fraser no baixo, e Simon Kirke na bateria, esse último um velho conhecido de Kossoff, dos tempos do Black Cat Bones (outra seminal banda do blues inglês).

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O auge do Free acontece em 1970, com o lançamento do disco Fire and Water, que continha o hit “All Right Now” um dos mais certeiros singles já lançado na terra da rainha. No mesmo ano a banda se apresenta no lendário festival da Ilha de Wight, ao lado do Who, Doors, e de Jimi Hendrix.

Muitos desentendimentos internos terminam com o grupo em 1971. Kossoff forma junto com Kirke o projeto “Kossoff Kirke Tetsu Rabbit”, e lançam um álbum no ano seguinte. A saúde de Paul começa a deteriorar nessa época, devido ao abuso de drogas e anti-depressivos. O guitarrista tenta se manter ocupado fazendo jams e tocando em discos de amigos.

Em soliedariedade ao amigo, os ex-companheiros de Free resolvem voltar com a banda, acreditando essa ser a forma mais fácil e agradável de tirar Paul Kossoff daquela fase horrível que atravessava. Todos acreditavam que essa “volta” salvaria Paul.

É lançado em 1972, “Free at Last”, a mais amarga despedida que essa formação poderia esperar. Comparado aos anteriores, o disco soava arrastado. O clima entre eles na gravação do disco era o pior possível. Fraser abandona o grupo, e mesmo assim o Free ainda arruma forças para lançar mais um disco, “Heartbreaker”, em 1973, contando com Tetsu Yamauchi no baixo e Rabbit nos teclados. Impossibilitado de excursionar e de comparecer as gravações, Kossoff aparece como “convidado” no álbum.

O fim da banda é inevitável e em 1973 tudo acaba. Rodgers e Kirke formam o Bad Company, e Kossoff lança seu primeiro disco solo, “Backstreet Crawler”, que nada mais era do que uma compilação de jam sessions, pois o guitarrista estava impossibilitado de entrar no estúdio e gravar um disco inteiro nessa época. Pouco tempo depois, Kossoff toma emprestado o nome de seu disco solo e batiza sua nova banda de “Backstreet Crawler”, lançando o disco “The Bands Play On” em 1975.

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A saúde de Paul vai piorando cada vez mais. Ele não aceitava o fato do Bad Company ter estourado na América, e vendido milhões do seu disco de estréia. Para ele, Rodgers e Kirke o abandonaram. O Backstreet Crawler nunca sequer sonhou com um terço do sucesso e prestígio de que o Bad Company gozava.

No começo do mês de março de 1976, Paul Kossoff arranjou forças e conseguiu fazer quatro apresentações num clube chamado “Starwood” na Sunset Strip em Hollywood. Curiosamente o Bad Company estava na cidade tocando no Forum, e após essas apresentações eles vinham ao Starwood, e subiam no palco junto com Kossoff e seu “Backstreet Crawler”. Seu sonho estava finalmente realizado, voltando a tocar com seus velhos companheiros.

Numa trágica despedida, esses foram os últimos shows de Kossoff. Ele foi achado morto num banheiro de um avião durante um vôo de Los Angeles para New York, no dia 19 daquele mesmo mês. A causa da morte foi uma parada cardíaca induzida por uma overdose de heroína.

DISCOGRAFIA SELECIONADA:

FREE:

# Tons of Sobs (1968) – Estréia de Kossoff em disco, onde ele arrasa no blues “Goin’ Down Slow” e já dá mostras de seu inconfundível timbre de guitarra.

# Fire and Water (1970) – O maior clássico do Free, contém o mega hit “All Right Now”, seu mais conhecido riff de guitarra.

# Highway (1970) - Recheado de baladas, o disco mais sentimental e deprê do Free. Habitat perfeito para Kossoff brilhar em coisas como “Love you So” e “Be My Friend”.

KKTR:

# Kossoff/Kirke/Tetsu/Rabbit (1972) – Interessante projeto levado a cabo pelo guitarrista. Curiosidade: Kossoff canta na faixa “Colours”.

PAUL KOSSOFF:

# Backstreet Crawler (1973) – Primeiro disco solo de Kossoff, na verdade uma compilação de jams de estúdio. Destaque para a linda e emotiva balada “Molten Gold”, onde todos os integrantes do Free participam.

# Blue Soul (1986) - 17 faixas nessa ótima compilação recheada de raridades. Traz gravações de Kossoff junto com Jim Capaldi, e bandas obscuras como Uncle Dog e The Rumbledown Band.

BACKSTREET CRAWLER:

# Second Street (1976) – Derradeiro registro de Kossoff, que morreu durante as gravações do álbum. Amarga e bela despedida, bem no estilo de Paul, como fica claro na faixa “Blue Soul”.

As dez melhores atuações de Paul Kossoff

# Worry (do disco “Tons of Sobs” do Free) – O que poderia ser um monótono “traditional blues” se transforma num angustiante arrasa quarteirão.

# Moonshine (do disco “Blue Soul” de Paul Kossoff) – Feelin’ à flor da pele nessa fúnebre canção. Parece que o guitarrista transmite toda sua dor através das cordas.

# All Right Now (do disco “Fire and Water” do Free) – O mais certeiro riff criado por Paul; sujo, displicente e arrasador. Destaque também para o belo e original solo.

# Come Together in the Morning (do disco “Heartbreaker” do Free) – Mostra a tradicional pegada do guitarrista, num disco onde ele aparece junto de outros guitarristas convidados.

# Molten Gold (do disco “Backstreet Crawler” de Paul Kossoff) – Traz o Free inteirinho como banda de apoio. A guitarra literalmente “chora” nessa que é talvez a mais forte composição de Paul.

# Tuesday Morning (do disco “Backstreet Crawler” de Paul Kossoff) – Jam instrumental que ocupava o primeiro lado inteiro do vinil de estréia do músico. Com Alan White na batera e Rabbit nos teclados, Kossoff se sente à vontade para “voar” nessa imensa faixa que beira os 18 minutos de duração.

# Blue Grass (do disco “Kossoff/Kirke/Tetsu/Rabbit”) – Excelente trabalho guitarra-teclado onde mais uma vez a “pegada” do homem faz a diferença.

# Time Spent Time Away (do Box Set “Songs of Yesterday” do Free) – Versão na íntegra da jam ao lado de John Martyn, que aparecia editada no primeiro disco de Paul. Um verdadeiro deleite guitarrístico.

# Be My Friend (do disco “Highway” do Free) – Kossoff cria com sua guitarra, o clima perfeito para o lamento de Paul Rodgers, nessa marcante e emotiva balada.

# Love You So (do disco “Highway” do Free) – Muito delicada e sutil, é como soa a guitarra nessa faixa. Foi usada como uma póstuma homenagem ao falecido guitarrista num home vídeo da sua ex banda Free.

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Sobre Bento Araújo

Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)

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