Por trás das asas dos besouros

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Por trás das asas dos besouros


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Há alguns anos atrás, me deparei com aquela notícia nos jornais, de uma tal banda britânica de uns tais irmãos Gallagher, do sucesso que estavam fazendo com o seu disco ‘What’s the Story? – Morning Glory’ e seu estrondoso êxito obtido com o single Wonderwall, e logo comecei a ler os primeiros arroubos de egocentrismo de Liam, se auto proclamando o “novo John Lennon” e comparando o Oasis aos Beatles de minuto em minuto. Fui conferir e - apesar de achar o som dos caras legal, pasmem! – aquilo não era igual a Beatles, não é e nunca será. Então, o que é que há? Sem querer soar muito redundante, apesar disso já haver sido levantado e perguntado por inúmeros outros críticos e curiosos: por que os garotos de Liverpool ainda são o parâmetro pelo qual se medem todas as outras bandas de pop e rock? Neste artigo, procurei responder a esta pergunta, analisando tudo o que contribui para isto – exceto o óbvio. Veremos que existem inúmeros fatores, não muito claros ou perceptíveis para muitas pessoas, e alguns marcados por incríveis suposições e fatos “obscuros”, que influíram sobremaneira no fato dos Beatles ainda carregarem esse cetro de “melhor banda” e “maior fenômeno musical do século XX”.

Recentemente, mais uma vez, o nome deles apareceu na mídia com grande alarde, como costuma acontecer, praticamente, uma vez por mês quase. Dessa vez, porque estiveram no centro das atenções os dois ex-integrantes tidos como os maiores responsáveis pela “magia” do grupo – John Lennon (in memoriam – pra valer!) e Paul McCartney – e a pretensa rivalidade que ambos nutriam um pelo outro, no momento da composição dos maiores clássicos do grupo, retumbou quase que de forma herética para muitos dos seus admiradores, especialmente aqueles mais chegados a Lennon, quando de repente, sem mais nem menos, deu na telha de McCartney, em seu último CD ao vivo – em que, obviamente, ele toca músicas dos Beatles – trocar a ordem natural dos nomes na maior parceria musical do século XX, e ao invés de colocar “Lennon-McCartney”, como normalmente vemos impresso em discos, revistas, cartazes etc., ele inverteu para “McCartney-Lennon”, sob a alegação de que algumas das composições realmente tiveram uma maior dedicação dele e tal, blá-blá-blá... Yoko Ono ficou de cabelo em pé, fãs chiaram, outros concordaram, mas a polêmica ainda vai longe.

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Mas o interessante a se notar, em tudo isso, é: puxa, como os Beatles estão sempre em voga mesmo! É incrível! Qualquer coisa é motivo para, vez ou outra, voilá – lá estarem eles novamente nas páginas do noticiário internacional. Forçosamente, através de golpes publicitários? Definitivamente, não: uma pesquisa feita na década de 1980, por encomenda da EMI, constatou que, num momento em que nenhum produto novo da banda havia sido lançado, de 100% do lucro que se arrecadava naquele momento com o nome ‘Beatles’, 34% não estavam indo para ela – e isto é um sinal de que esta considerável fatia de mercado não estava sendo impulsionada por nenhuma campanha promocional da tradicional gravadora dos Beatles, mas estava sendo, simplesmente, gerada por um mercado paralelo e espontâneo: um mercado naturalmente saudosista e interessado (souvenirs, bugigangas, revistas dos Beatles...). Isto prova que os Beatles provocam fenômenos econômicos e sociológicos exatamente correspondentes àqueles que acontecem em decorrência dos grandes mitos e lendas que, pelo próprio peso imagético e cultural que carregam, possuem a própria e peculiar natureza de estarem sempre sob alguma forma de evidência – mesmo que não muito evidente, às vezes, mas sempre onipresente e implícita, quando são espécies de qualquer gênero (Picasso, para a pintura; Guevara, para a revolução; ou Woodstock, para qualquer evento contracultural ou pan-cultural de grande porte).

É exatamente assim com os Beatles em relação ao rock e à música pop, não é mesmo? E especialmente depois da verdadeira febre beatlemaníaca do final do século passado, que foi o projeto Anthology, seguido, dois anos depois, por mais um relançamento de hits remasterizados pela EMI (a coletânea One), e mais uma série de DVDs (a nova versão de A Hard Day’s Night), vídeos, souvenirs e bugigangas e etc., toda a sorte de produtos que remonta à verdadeira parafernália que o mercado da arte popular de consumo, que atinge as grandes massas, costuma despejar pelo globo terrestre). Enfim: os Beatles nasceram, existiram, se foram, permanecem, e sempre continuarão na moda. Invejável, não? E mesmo a ocorrência de fatos trágicos – como a estúpida morte de Lennon, assassinado em 1980, ou a mais recente perda (para a batalha contra o câncer, aliás) de George Harrison, em 2001 – gera ainda mais divulgação, mais interesse, mais promoção e bajulação em torno de um nome tão singular, tão simples e comum, que viria a soar como uma ode barulhenta a insetos tão mundanos – sim, se você não sabe ou não se lembra, beatles é besouros, com “a” no lugar do “e” normalmente dobrado no original em inglês (beetles).

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Esta era uma das estórias preferidas do guitarrista, cantor e letrista John Winston Lennon, que ocupou a posição de líder da maior banda de todos os tempos até meados de 1967, quando sua supremacia no grupo começou a ser ameaçada tanto pela maior ocupação de espaço, nas decisões, pelo seu colega Paul McCartney, bem como pelo seu crescente interesse por duas paixões distintas: drogas e Yoko Ono. Mas voltemos ao que Lennon gostava de dizer. Em uma entrevista de rádio no início do sucesso do grupo, em 1963, Lennon começaria a divulgar a folclórica versão de que a decisão pelo nome “beatles” com um “a”, ao invés do “e”, teria se dado após uma visão que ele teve, em que um homem aparecia voando, “em uma torta flamejante. Então ele veio e disse: sejam ‘beatles’ com ‘a’. E assim foi feito”. Nada a ver com a versão oficial espalhada pelos biógrafos da banda – de que tudo havia sido um jogo de palavras, um trocadilho, feito por John e Stu Sutcliffe, ex-baixista do grupo, numa aposta entre ambos. A tal estória da “torta flamejante” entraria para a mitologia pop, e renderia uma bela homenagem de Paul, concedendo tal nome a um disco solo seu da década de 90 (Flaming Pie) – e, na verdade, esta brincadeira é uma das muitas estórias que ajudaram a tecer uma singular aura de misticismo em torno dos Beatles, como veremos logo adiante.

Antes que comecemos a discutir qualquer influência psicológica que os quatro príncipes de Liverpool estenderam sobre seus súditos, lembremo-nos de que há, acima de tudo isso, a música. De nada adiantaria, realmente, toda a imagem e a mitologia em volta da banda se realmente não tocassem bem, não fossem competentes e extremamente criativos, especialmente juntos – eram, como bem lembrou um crítico de arte certa feita, desses grupos em que a soma dos potenciais conjuntos é absurdamente maior do que o potencial individual de cada um – juntos, são magníficos, insuperáveis. Separados, podem ter seus momentos isolados de brilhantismo, mas se tornam comuns, apagados.

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Mas o grande segredo mesmo por trás da incrível produção musical dos Beatles, que fascinou a humanidade no curto período de oito anos (de 1962 a 1970, enquanto existiram como a banda que todos conhecem), talvez seja a sua formidável versatilidade musical. Isto será sempre difícil de superar, se não impossível. Os Beatles foram destes fenômenos que aconteceram no momento certo, e no lugar certo. O próprio panorama cultural e musical que existia no início dos anos 60, na Inglaterra e nos EUA – pólos da grande produção cultural de massa, até hoje – privilegiou imensamente aqueles rapazes pobres de uma mediana cidade portuária do Reino Unido. Os EUA viviam um de seus momentos culturais mais críticos – exatamente aquele vazio deixado pelo fim do primeiro grande período áureo do rock and roll (a geração de Elvis, Chuck Berry, Little Richard etc.), demarcado pela trágica morte em um acidente de avião dos ícones Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper, e que tentava ser preenchido por várias formas de danças e ritmos impulsionados pela mídia, tentando capitalizar em cima de tal vão – twist, calypso, doo-woop etc. Da antiga rebeldia e originalidade do rock, mesmo, só se encontravam resquícios nas canções da nova geração folk que estava surgindo, gente como Joan Baez e Bob Dylan. Mesmo assim, as mudanças trazidas pelos novos tempos, com a conscientização política dos jovens, a sua discussão em torno do perigo das armas nucleares e da Guerra Fria, e a tensão que envolvia o mundo antes e depois do assassinato de John F. Kennedy – tudo isto exigia, na verdade, uma música mais dinâmica e que servisse como um comentário mais ágil desta sociedade em período de transformações e ebulição.

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De repente, irrompem os Beatles na Inglaterra, trazendo de volta todas aquelas raízes sonoras e regurgitadas, cheias de inovações e misturas rítmicas – eles eram capazes de tocar até mesmo operetas em ritmo de rock com pitadas de rumba (“Besame Mucho”, presente no Live at BBC), ou mesmo bom e velho country & western (“I Forgot to Remember to Forget Her”, anteriormente gravada por Elvis e também presente em Live at BBC, ou a balada “I Don’t Want to Spoil the Party”, do álbum Beatles For Sale, de 1964). Esta ampla diversidade musical – como eu já disse, irrepetitível nos dias atuais – era fruto de um extenso background sonoro que os ouvidos de John, Paul, George e Ringo possuíam. Eles cresceram ouvindo de tudo – de Sarita Montiel a Roy Orbison, toda uma plêiade de artistas pop que vinham desde os tempos do pós-guerra - e podiam tocar de tudo, sempre revertendo para o ritmo que eles mais apreciavam – o rock and roll. Hoje em dia, se um grupo se arriscar a fazer isso, provavelmente vai ser chamado de pretensioso, ou alternativo demais, e não conseguirá fazer sucesso, pois o que existe hoje é o estabelecimento de nichos no mercado de música. Quem não pertence a uma tendência ou rótulo, não tem vez. O rock, como o conhecíamos, acabou, já era – como uma vez sabiamente disse Tom Petty. Esfacelou-se, multi-dividiu-se em um sem número de sub-gêneros, que hoje fica até difícil você tentar convencer um cara mais radical, que acha que Stratovarius ou Iron Maiden é que é rock, de que U2 e Radiohead também fazem rock. Como se vê, o tal do preconceito, um dos maiores inimigos do rock em seu surgimento, acabou tomando conta até do próprio, e é difundido pelos seus seguidores – preconceito este que não existia na época dos Beatles (sorte deles...).

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Assim, podemos dizer que este ecletismo dos Beatles é um dos grandes motivos pelos quais ainda são tão ouvidos, admirados e comentados até hoje. Há de tudo para todos, como tão comumente se pode dizer: do pop desvairadamente romântico de McCartney (principalmente ele...), em “And I Love Her” ou “Til There Was You”, para os mais quarentões ou para os mais apaixonados; da batida rock minimal e adolescente de “Twist and Shout” ou “A Hard Day’s Night”, para os teenagers FM e molecadinha festeira em geral; do rock pesado vigoroso e intenso de “Revolution”, “Helter Skelter” ou “I Want You” (do disco Abbey Road), para os roqueiros mais radicais; e, ainda, até o experimentalismo sensorial de coisas como “Revolution n. 9”, “I Am the Walrus” ou “A Day in the Life”, faixas totalmente dentro do conceito artístico de desconstrução dos padrões, tão caro aos vanguardistas e admiradores de música conceitual. É fácil notar que ninguém, até hoje, conseguiu alcançar tantas áreas, invadir tantas praias, com tão admirável êxito e longevidade, e eis aí um dos principais motivos para o contínuo grande sucesso dos Beatles.

Mas, lembrando-nos de coisas como as citadas “Helter...” e “Revolution n. 9”, é inevitável, também, nos lembrarmos de um aspecto também marcante dos Beatles – este, bem menos alegre, e um tanto quanto macabro e sombrio. Nos lembramos de Charles Manson, o notório carniceiro hippie, o grande serial killer dos anos 60, que alegou, na época de seus famosos crimes, ter matado as suas vítimas todas sob a influência das músicas dos Beatles. Manson provou, de uma das maneiras mais feias e horrendas, que, onde residiam a popularidade e a histeria, moravam também a loucura e a paranóia.

Para quem não conhece direito a estória, ou não se lembra, vale mencionar que Manson era, em 1966, um aspirante a cantor e compositor medíocre, cujas canções de cunho deslavadamente pop e comercial (como pode-se comprovar por “Look at your Game, Girl”, uma composição sua regravada nos anos 90, pelos Guns N’ Roses) não conseguiram impressionar famosos produtores musicais de Los Angeles ou mesmo gente conhecida de Manson no meio artístico – como os Beach Boys. Entretanto, alguns deles, como Mike Love, se tornaram grandes amigos de Manson – ou, pelo menos, grandes discípulos de sua fala envolvente e enigmática, repleta de referências místicas à Bíblia e premonições fantásticas. Se Manson não tinha um talento nato para a música, pelo menos tinha para o visionarismo charlatão – aquele mesmo que faz a grana de gente como Walter Mercado e outros hoje em dia – e, notando isso, ele não tardou a tornar-se uma espécie de “guru” hippie do jetset californiano, tendo conseguido impressionar vários artistas e empresários da indústria do cinema e da música pop com sua conversa calma e seus gestos suaves. A delirante fauna pop dos anos 60 apenas o auxiliou em sua jornada: as festas promovidas por músicos e produtores endinheirados, nas quais Manson inevitavelmente comparecia, regadas a drogas alucinógenas e jovens fugidos de casa, sob o signo do libertarismo contracultural daquela época, forneceu ainda mais situações favoráveis a que Manson arregimentasse um grande rebanho de fiéis e seguidores de suas palavras anti-convencionais. Esta “seita” de Manson passou a ser chamada pelo próprio de “Crianças da Flor”, ou, em outras vezes, “A Família”, e a partir dali, o estrago que seria feito já estava muito próximo.

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Manson relacionava, em suas alucinadas pregações, ouvidas em “cultos” em que rolava muito LSD e sexo, passagens explosivas da Bíblia – como a que se refere à grande batalha de Armagedon, do livro do Apocalipse – com versos de músicas dos Beatles. Desse modo, “Blackbird”, do Álbum Branco, se transformava, na atordoada mente de Manson, numa alegoria sobre uma grande guerra entre negros e brancos, que ocorreria justamente na batalha das batalhas: “You were only waiting for this moment to arise” (Você estava apenas esperando por esse momento para se levantar) seria um chamamento à guerra, feito aos negros por Paul McCartney, em código. Outra faixa do Álbum Branco, – tido como a transcrição musical da Bíblia em metáforas, segundo Manson – “Helter Skelter”, continha em seu título uma referência a desordem, confusão, numa gíria que estava sendo muito utilizada na Inglaterra, na época, para descrever passeios de montanha russa. Pois Manson referiu-se a esta helter skelter como a eclosão da grande guerra, e neste confronto todas as parcelas da sociedade iriam se enfrentar: negros contra brancos, jovens contra velhos, pais contra filhos, inconformistas contra toda a ordem estabelecida. As teorias sedutoras de Manson abarcavam várias vertentes, arrebatando todo e qualquer adolescente que tivesse um pouquinho de revolta na cabeça pronta a ser detonada.

Os loucos da ‘família’ Manson
Mas a demência de Manson não parava por aí. Várias outras faixas do Álbum Branco – como “Piggies” e “Revolution n. 9” – conteriam mensagens secretas que haviam sido decifradas pela família Manson, e o próprio, constatou-se depois, havia gastado mais de 200 dólares em fichas telefônicas, quando o Álbum Branco dos Beatles saiu, tentando ligar para os próprios em Londres, na desesperada tentativa de um contato pessoal. Invariavelmente, ele apenas conseguia deixar recados desconexos no escritório dos Beatles na Apple Corporation, a empresa que eles haviam fundado – “diga a John e Paul que eu entendi tudo, que eu já peguei toda a mensagem!”.

Quando a polícia inglesa verificou a existência de tais chamadas, o clã de Manson já havia cometido as duas chacinas que tristemente dividiram a era dos sonhos hippie em duas fases: a fase da utopia, da alegria e da exuberante tentativa de se acreditar em uma sociedade jovem melhor, e a fase negra do medo, do ódio e da perversão, da alucinação em massa gerada pelas drogas e pela loucura em mentes mais frágeis e despreparadas para viver neste novo tipo de “sociedade” imaginada pelos pensadores da contracultura. Foi em 1969, em dois dias que se seguiram, um após o outro, exatamente uma semana antes da realização do Festival de Woodstock, que celebrava a “paz e o amor” – no sábado, os Manson celebraram um banho de sangue na casa da atriz Sharon Tate, então casada com o cineasta Roman Polanski (que teria também morrido, caso não estivesse viajando para promover um filme). Eles mataram, com requintes de crueldade, Sharon e convidados seus, e espalharam o sangue das vítimas pelas paredes da casa, com ele escrevendo, justamente, os títulos das músicas dos Beatles, - “Piggies”, “Revolution”. – e também slogans fazendo referência ao Apocalipse segundo Manson – “pigs!”, “death to all the pigs”, “rise!” (porcos!, morte a todos os porcos!, levantem-se!) Detalhe: Sharon estava grávida.

No dia seguinte, um domingo, novo massacre: desta vez, na residência do casal LaBianca, também amigos de vários produtores musicais e de cinema de Los Angeles. Desta vez, os fanáticos deixaram escrita, na porta da geladeira da casa, também com o sangue das vítimas, a frase “helter skelter”.

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Não é preciso dizer que os crimes deixaram os Beatles chocados, e que, se já havia algum tempo, eles andavam tentando se pronunciar politicamente sobre várias questões (desde 1966, John Lennon tentava falar para a imprensa algo sobre a Guerra do Vietnam, por exemplo, mas era impedido pelo empresário da banda, Brian Epstein), a partir dali, eles resolveram calar suas bocas, pressentindo que sua nefasta influência sobre mentes jovens mais distorcidas poderia provocar novos desastres, e tiveram muito de seu potencial criativo esgotado. Além de vários outros fatores, este desgaste emocional por se sentirem porta-vozes de uma geração dourada, que agora despertava para o medo de suas próprias neuroses, fez com que os Beatles logo se separassem, acuados pelas indagações de imprensa, jornalistas, TV – de tudo e de todos. Lennon, por exemplo, passou, a partir de então, em todas as suas novas músicas e declarações, a fazer uma apologia da paz interminável – como se pode notar por músicas como “Give Peace a Chance” e o grande hit “Imagine”; pelas campanhas pela paz promovidas por ele e Yoko em vários países. Talvez, tentando realmente expurgar, da melhor forma possível, todos os fantasmas da ambigüidade que os Beatles haviam gerado na cabeça de gente como Manson.

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Na verdade, os Beatles não gerariam fantasmas ou ilusões sobrenaturais apenas na mente perturbada de Manson, mas o fariam também com grande parte da população mundial – um dos pontos a serem discutidos aqui é justamente sobre como uma certa “aura” de misticismo que permeia toda a trajetória dos Fab Four sempre veio a calhar como mais um dos motivos da grande fascinação que passaram a exercer no imaginário pop do século XX.

A tal estória do “homem na torta flamejante” citada por Lennon, no início da fama da banda, por exemplo, ilustra bem uma das grandes cismas que sempre deixaram encucados místicos e seitas fundamentalistas acerca do caráter sobrenatural na carreira da banda – para alguns, mais acentuado até mesmo que o da carreira do Led Zeppelin!

O fato é que circulam especulações sobre uma das várias excursões que a banda, em seu duro início de carreira, teria feito à Alemanha, quando ainda faziam cinco shows por noite, lutando para sobreviver de sua música e desenvolver seu estilo, e o acontecimento relatado por Lennon teria ocorrido nesta época, quando os Beatles se hospedaram em uma antiga mansão nas proximidades de Hamburgo, que passara a ser um albergue. O problema é que esta antiga casa, uma velha construção aos moldes vetustos do séc. XIX, haveria pertencido, segundo burburinhos locais, a um tal de Dr. Pepper (isso mesmo que você leu! – Dr. Pepper... algo a ver com o personagem criado anos depois pelos Beatles em um de seus mais célebres LPs, o Sgt. Pepper?). O pior de tudo: o tal Dr. Pepper, um médico de renome nos velhos tempos, teria sido um estudioso de ciências ocultas e magia negra, segundo muitos, havendo feito parte até mesmo da sociedade secreta desenvolvida e mantida, por muitos anos na Europa, pelo lendário Aleister Crowley – coincidência ou não, outra figurinha tarimbada no mundo sobrenatural, que teria um lugar de honra garantido... ehr... bem, justamente na capa do disco Sgt. Pepper’s Lonley Hearts Club Band.

Mas não pára por aí. Os boatos e suposições vão mais fundo e, para uma boa parte de gente que estuda essas relações assombrosas, o tal “homem na torta flamejante” que teria aparecido para Lennon, provavelmente embriagado de bebida e bolinhas em mais uma madrugada infernal, cansado daqueles shows vagabundos em Hamburgo e à espera de um sucesso com sua música que nunca vinha, seria o próprio Dr. Pepper, em uma aparição etérea, que vinha agora propor a Lennon um acordo irrecusável...

É a partir daí que surgiriam 90% das estórias sobre como os Beatles fizeram sucesso e subiram incrivelmente rápido nas paradas mundiais, encontrando as pessoas certas nos momentos certos (Brian Epstein, George Martin), escolhendo as músicas certas (a estória da insistência deles para lançarem “Please Please Me” já faz parte há muito da mitologia do rock), aparecendo nos locais certos nas horas certas, para enfim subir incrivelmente rápido nas paradas de sucesso e alcançar um sucesso mundial e um prestígio nunca antes experimentados por nenhum artista - lembre-se: na época de Elvis, anos 50, a divulgação em alta escala de sucessos do mercado fonográfico ainda não era tão desenvolvida quanto nos anos 60, e o nascente rock n’ roll ainda era tido, pura e simplesmente, como “som tribal” ou “música de rebelião”, ou seja, o preconceito era bem maior.

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Teria sido este repentino êxito da banda alavancado, então, por um pacto de Lennon com o diabo naquele dia fatídico, como tantos acreditam haver ocorrido? Para muitos, todas as respostas partem daí: o próprio “coisa ruim” haveria sugerido o nome da banda, de sonoridade fácil e contagiante (Beatles também aludia a “beat” – batida, ritmo quente, uma mensagem chave para a juventude da época sobre o som do grupo). E com Lennon tendo vendido a sua alma ao demônio em troca do sucesso, tudo se explicaria:

1) A amplamente difundida “morte publicitária” de Paul McCartney em 1966 – quando um programa de rádio sensacionalista e alguns jornais e revistas passaram a divulgar a possibilidade de Paul estar morto e um sósia seu estar participando das gravações dos discos dos Beatles imitando-o: um “truque” sugerido pelo próprio Lennon, para apaziguar a sanha do diabo, que estaria cobrando uma vida em troca de sua parte cumprida no pacto. A partir daí, surgiriam todas as famosas pistas, pretensamente deixadas pelos Beatles nas capas de seus discos, de que o verdadeiro McCartney estaria morto.

2) Lennon dá aquela sua famosa e caótica declaração: “Os Beatles são mais famosos que Jesus Cristo”...

3) O cada vez mais crescente envolvimento de Lennon com as drogas no período beatle – fruto não só de uma grande infelicidade e isolamento pessoal em virtude dos problemas com a fama e o matrimônio imperfeito (seu casamento com Cinthia havia se dado por causa da gravidez dela), mas também, da grande neura que Lennon teria por causa do acordo “celebrado” anos antes, obcecado com a idéia do diabo vir buscar a sua recompensa a qualquer minuto! Por causa disso, Lennon teria passado quase um mês imerso na leitura do “Livro dos Mortos” tibetano, – ainda que sob o efeito extasiante de bolinhas e LSD – o que resultou, diretamente, na composição da clássica “Tomorrow Never Knows” (do álbum Revolver, 1966). O relacionamento com Yoko abrandaria, em parte, mas não resolveria totalmente este problema – o complicado envolvimento de Lennon com a heroína o levaria, por exemplo, a gravar a desesperada “Cold Turkey”, em 1969, e a tentar uma radical terapia de regressão com o Dr. Janov – a famosa “terapia do grito”, que tanto influenciou o primeiro disco solo de Lennon.

4) Para abrandar os seus fantasmas pessoais e, mais uma vez, tentar se acalmar de suas obsessões sombrias, Lennon entra de corpo e alma na onda do guru Maharischi, por influência de seu companheiro de banda George Harrison. Por conseqüência, irá arrastar o resto da banda e mais uma nau de amigos para a Índia, para as sessões de meditação do guru – onde terá aquela sua famosa decepção com o velhinho, mais interessado nas “vibrações” das belas garotas inglesas do que nas vibrações cósmicas.

O famoso Rolling Stones Rock and Roll Circus
5) Em inúmeras músicas, Lennon teria tentado deixar, nas entrelinhas, por meio de mensagens secretas e figuras de linguagem, repletas de duplo sentido, o seu desespero e medo por causa do tal pacto – mas nenhuma é tão clara e assustadora quanto a pesada “Yer Blues”, do Álbum Branco (“De manhã quero morrer / De noite quero morrer... Se não estou morto até agora / Garota, você sabe bem o porquê”). Seria, para muita gente que estuda a imagem de ocultismo ao redor dos Beatles, uma declaração de Lennon feita diretamente ao diabo. E quando este foi convidado, no final daquele ano de 1968, para gravar o especial de TV dos Rolling Stones Rock and Roll Circus, qual música ele escolheu para cantar? Abracadabra... justamente “Yer Blues”. Ali, por sinal, o clima satânico rolou alto – no documentário do especial de TV, lançado recentemente após muitos anos engavetado por Jagger e cia., está lá Lennon se sacolejando, alucinado, durante a performance dos Stones para, adivinhe... “Sympathy for the Devil”!

Lennon, com Yoko, Brian Jones e o filho, Julian
6) Em 1969, nova mensagem, clara e evidente, na composição “The Ballad of John and Yoko” – em que Lennon, inclusive, mostra dons premonitórios, prevendo sua morte! “The way things are going, they’re gonna crucify me” (Do jeito que as coisas vão indo, eles ainda vão me crucificar). Lembremo-nos que a morte de Lennon é até hoje vista, no subconsciente coletivo, como uma grande crucificação – o ato final de expurgação dos exageros do rock e de suas conseqüências trágicas em um momento de despertar, atentando a todos para o quanto a maldade poderia estar entremeada em seus corações sem se aperceberem disto. Ironia das ironias: e pensar que, como um moderno mártir da era pop, Lennon dissera que seriam (ele e os Beatles) “mais famosos que Cristo”...

7) Os macabros acontecimentos envolvendo Manson e os Beatles deixam o líder do grupo cada vez mais encucado – Manson seria, de fato, um “mensageiro do mal”, enviado para lembrar Lennon do quanto a música de sua banda estaria sob o domínio das forças das trevas.

8) Mais tarde, em sua carreira solo, várias outras pistas do suposto pacto de Lennon seriam deixadas: o seu envolvimento com política e a desesperada luta pela paz, justamente para abrandar a imagem alienada e negativa deixada pela música dos Beatles no caso Manson – vide canções como “Give Peace a Chance” e “Imagine”; também, os sintomas de possessão demoníaca na música “N. 9 Dream” (Ah Bouwakawa... pousse, pousse), diretamente relacionados com a obsessão de Lennon pelo número “9” – um número bem místico, justamente o “6” virado de cabeça para baixo, de “666”, o número da besta, de acordo com referências bíblicas. Por sinal, “9” também havia sido usado por Lennon no Álbum Branco, justamente em uma colagem de sons pra lá de sombria, “Revolution n. 9” - e, se para os conhecedores de bom rock, essa ligação mística não vale, o que dizer de Jimi Hendrix, outro alvo dos grupos fundamentalistas, ele próprio a denunciando em “If Six Was Nine” (Se o Seis Fosse Nove)?

9) Finalmente, em 1980, aconteceria o que todo mundo já sabe. O resgate da recompensa, enfim? Bem, a única certeza de que se tem é a de que foi num momento dos mais inesperados – afinal, finalmente Lennon estava em paz com a sua vida e a sua carreira artística. Finalmente livre das drogas, dos medos e do fantasma dos Beatles que cerceara o amadurecimento de sua arte durante um bom tempo, mostrava-se um cara extremamente articulado e tranqüilo, cuidando com leveza e desprendimento de sua vida pessoal (família, filhos) e musical (preparando-se para lançar uma grande coleção de novas canções com Yoko – divididas entre os álbuns Double Fantasy e Milk and Honey). Segundo os entendidos em assuntos de ocultismo, é em momentos extremamente inesperados como estes que as almas cedidas em pactos são buscadas...

Realmente, não adiantou nada o próprio Lennon ter desmentido aquela sua ambígua declaração sobre a torta flamejante – por causa disso tudo que foi dito aqui. Os fatos mostrados são, a bem da verdade, muito fortes para serem esquecidos ou desprezados. Podem, com toda a certeza, ser refutados – mas existem e estão aí. E não são invenção minha ou de qualquer outra pessoa – fazem parte, simplesmente, destas “lendas urbanas” e suposições que se desenvolveram ao longo de muitos anos, discutidas à exaustão por curiosos e fãs de música pop. Como eu já disse várias vezes no decorrer deste ensaio, fazem parte do imaginário pop, do inconsciente coletivo sobre a aura mística dos Beatles – aura esta que é, inclusive, atestada pelos próprios Beatles. Senão, por que cargas d’água o próprio Paul McCartney batizaria um dos seus melhores discos solo com tão sórdido nome, envolto em tantas especulações famosas ao redor do mundo inteiro? Como dizia o grande Raulzito, realmente, o rock parece ser filho do diabo...

Suposições ou não, verdades ou mentiras... não importa.

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A música dos Beatles ainda continuará sendo, por um bom tempo ainda, acredito (possivelmente, enquanto este imenso globo azul sobre o qual estamos continuar girando sob sua órbita), o retrato perfeito de uma era, de toda uma geração, e mais do que isso: um painel denso e completo dos relacionamentos e tragédias humanas, com todas as suas neuras, alegrias, fúrias, medos, mistérios... justamente por conter um pouco de tudo isso – e aqui procuramos discorrer bastante sobre o panorama fantástico, de mistérios, em que está envolta – é que a música e a trajetória dos Beatles ainda fascina e fascinará a tantos. Mas, ainda conforme algo importante que eu mencionei já anteriormente: acima de tudo isso, esse painel firma-se, básica e simplesmente, em boa música. Simples, direta, eclética e bem tocada. Não fosse ela, nada disto tudo que mostramos aqui haveria. Parece que, por mais satânicos, degenerados, tolos, inconseqüentes ou lascivos que o rock e, por conseqüência, os instintos humanos possam ser, nada consegue, no final das contas, falar mais alto do que a idílica felicidade humana, este verdadeiro Éden pessoal que pode durar apenas alguns minutos, mas que valem por toda uma eternidade. E alguns minutos conseguidos em uma boa canção pop.

É boa música – simples, direta, eclética e bem tocada. Tocada com o coração. Música que fala por si mesma: música dos Beatles.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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