The Mothers of Invention: Três Marinheiros e as Mães

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Por Márcio Ribeiro
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Entre as melhores histórias contendo a participação de Frank Zappa, uma das minhas prediletas é aquela ocorrida no Garrick Theater de Nova York em 1967. Tanto Frank Zappa, quanto a sua banda, The Mothers of Invention, eram ainda relativamente desconhecidos. Ou devo dizer, ainda mais desconhecidos do que são hoje em dia, principalmente das rádios e das massas. Entre 1966 e 1967, eles eram objetos de curiosidade dos jornais alternativos (ou underground) e motivos para deboche de jornais sérios. Quando deixaram sua cidade natal de Los Angeles para a costa leste de Nova York, encontraram uma imprensa um pouco mais receptiva (ou curiosa).

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The Mothers of Invention passou a ser vista pelos críticos do leste americano, como sendo os primeiros a combinar com sucesso a música negra e batida rock 'n' roll com Stravinski e outros considerados compositores de música séria. Em apresentações sempre inventivas e com espaço reservado para a intromissão do acaso, houve um evento que chegou a marcar mais, sendo talvez o mais simbólico de todos desta serie realizados nesta cidade, neste ano.

O Garrick Theater ficava em Greenwich Village onde a pouco tempo, os jornais noticiavam o aparecimento de um oficial da marinha encontrado morto. O zum-zum-zum nas ruas diziam que havia marinheiros rodando a área doidos pra arrumar uma briga com algum maluco que desse chance. Tudo em nome da vingança.

Mothers of Invention, circa 1966
Assim sendo, pode-se imaginar as incertezas que passaram pela cabeça de Frank Zappa e sua banda The Mothers of Invention, quando três oficiais da marinha, totalmente uniformizados entraram no teatro para assistir o ensaio da banda, à tarde. Para ser sincero, os três marinheiros assistiram o ensaio educadamente, quietos em seus assentos sem mostrarem nenhum interesse maior em criar confusão ou fazer baderna. Intrigado, já no final do ensaio, Zappa chama os rapazes para conversar. Disseram que compraram o seu disco e gostaram muito da música, por isto vieram vê-lo pessoalmente.

Zappa agradeceu, se disse feliz que eles tivessem gostado de sua música e aproveitou para perguntar se eles gostariam de cantar um número com a banda no primeiro show da noite (Os Mothers estavam apresentando no Garrick Theater, dois shows por noite, sete dias da semana, por quase quatro meses). O convite pegou os marinheiros de surpresa e logo se entrou na discussão do que poderiam cantar. Concluiu-se que conheciam a letra de "Rainy Day Woman #12 & #35" do Bob Dylan, mais conhecida pelo seu refrão, "Everybody must get stoned". Enquanto a banda jantava, os rapazes iam ensaiando o número.

Durante o primeiro show daquela noite, tudo fluiu normal e ao final, Zappa convida os três marinheiros para subir no palco para uma participação especial. Então ignorando a idéia inicial de tê-los a cantar um número do Dylan, Zappa instruiu os marinheiros que, a cada sinal dado, eles deveriam avançar sobre o microfone e urrar com voz de ataque, a palavra Kill (Matar). The Mothers of Invention então passou a tocar uma peça de jazz fusion, cheio de dissonâncias, à lá Archie Shepp. E com cada sinal dado, a música dava três segundos de pausa enquanto os três marinheiros, totalmente uniformizados, berravam a pleno pulmões o comando de “Matar!” para todo o público pagante. Má cena para ser vista. Queixos caíram. A garotada, a maioria universitária, não acreditava no que estava vendo. Muitos não quiseram acreditar que eram marinheiros de verdade, embora aquele corte de cabelo reco em pleno 1967 não deixava espaço para muitas dúvidas.

No final do número, o último da noite, a banda como de praxe individualmente agradecia ao microfone, a vinda do público. Quando foi a vez dos marinheiros, o primeiro chegou ao microfone e disse “Eat the apple and fuck the corps.” Essa frase tem em si um trocadilho e merece uma grande explicação. Apple - maçã, carrega consigo o peso bíblico, uma vez que foi ingerindo esta fruta, que a humanidade, representada na pessoa de Adão, escolheu sacrificar a inocência plena pelo conhecimento. A cidade de Nova York também é conhecida como “The Big Apple” - A Grande Maçã. Agora, a palavra chave da frase é Corps., diminutivo para Corporation - Corporação. Como bem sabem, a palavra significa um conjunto de órgãos que administram ou dirigem determinados serviços de interesse público. Em se tratando das Forças Armadas, esses conjunto de órgãos são o Exército, a Aeronáutica e a Marinha. Em inglês, o diminutivo corps. se pronuncia da mesma maneira que a palavra core. Core em inglês significa miolo, ou centro; e geralmente se refere a frutas.

Então é esse o trocadilho da frase. “Eat the apple and fuck the corps.” fica na tradução "Coma a maçã e que se foda o miolo." A frase também pode e deve ser traduzido como “Coma a maçã e que se foda a corporação.” O público no primeiro instante ficou mudo. Ninguém da banda também acreditava no que acabara de ouvir. O segundo marinheiro ao chegar no microfone repetiu a mesma coisa. E o terceiro marinheiro então chegou e falou “Eu me sinto exatamente como os meus colegas. Coma a maçã e que se foda a corporação. E tem alguns de nós que amam nossas Mães um pouco mais.” A casa veio abaixo. De fato foi um “gran finale”.

Enquanto o público se retirava, Zappa chamou os três num canto para perguntar se eles estavam cientes de que uma declaração dessas, em público, sendo membros da corporação e ainda por cima uniformizados, poderia levá-los a uma corte marcial. O sangue estava quente e os três estavam totalmente dentro da onda da música e sutilezas políticas que os shows do Zappa apresentavam. Responderam que sabiam das conseqüências mas não as temiam. Então Frank teve outra idéia, saiu correndo para o telefone e pediu a sua mulher para trazer uma boneca que o casal ganhara de presente até o teatro.

Os três marinheiros foram então convidados a participar do segundo show da noite onde eles poderiam finalmente cantar o número ensaiado. De fato, novamente perto do final do set, Frank Zappa chamou os três marinheiros à subir no palco para seu número especial. Desta vez a banda tocou “Rainy Day Woman #12 & 35” e os três rapazes cantaram sua letra jocosa, para a alegria e algazarra do público pagante que cantaram juntos o refrão “Everybody must get stoned” (Todo mundo tem que ficar doidão).

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Depois do número, Zappa conversando com o público, informou a todos que agora eles poderiam assistir uma demonstração de treinamento básico. Ele traz então para o palco a boneca que tinha o tamanho médio de uma criança de quase dois anos e comentou, “Isso aqui é um bebê asiático. Os marinheiros irão mutilá-lo diante de seus olhos.” Então, já se dirigindo aos três marinheiros, colocou o bebê de plástico no chão e ordenou “Kill it!”. Como cães treinados, os três marinheiros atacaram a pobre boneca, arrancando seus braços, e, basicamente, desmantelaram o pobre brinquedo, ou se preferir, mutilaram-na. Durante esta parte do evento, ao comando do Zappa, baixaram as luzes do teatro e a banda passou a tocar um tema suave e ameno.

No final, Zappa agradeceu o serviço, pegou a boneca e passou a relatar para o público as partes dilaceradas, em um tom, como se a boneca fosse mesmo uma criança, ainda viva, embora toda mutilada. Relatos dão conta de um soldado na platéia que começou a chorar. Ele acabara de voltar do Vietnã. Seria um caso de deja vu? Zappa conta que quando viu a reação daquele soldado, sabia que o melhor era encerrar o show ali, e deixar o público voltar para a casa com essas cenas na mente.

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Uma história e tanto. Isto aconteceu entre maio e junho de 1967. Com a chegada do verão, The Mothers deixam o Garrick Theater e Nova York, voltando provisoriamente para Los Angeles onde graças ao sucesso obtido na “Grande Maçã”, Frank Zappa passa a ser tratado pela imprensa de Los Angeles com muito mais respeito. Uma mini excursão pela Europa no outono o transformaria em uma estrela do rock. Mas isto já faz parte de outra história. Fica para uma próxima vez.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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