Rock Brasileiro da Década de 50

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Rock Brasileiro da Década de 50


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Em meio aos conturbados anos 50, perda da Copa do Mundo em pleno Maracanã (1950), morte de Getúlio Vargas (1954), fabricação do primeiro fusquinha (em 1950 foi importado o primeiro... em 1959 o nacional custava 59.750 cruzeiros de então, uma fortuna, como um prenúncio de que o Brasil era o país do futuro), morte de Carmem Miranda (1955) os delírios arquitetônicos de Oscar Niemeyer e a loucura de Juscelino Kubitschek que viria a ser presidente em 31/01/1956 e construiria Brasília... reinava a bossa nova... o pop da vez...

Mas no dia 24 de outubro de 1955 um fato simples mudou a vida dos jovens de então e de todas as gerações que os sucederam... Com muito topete e brilhantina uma versão carioca de Rock Around The Clock (um dos hinos do rock&roll de autoria de Max C.Freedman e Jimmy Knight) foi gravada nos estúdios da Continental. Sua intérprete Nora Ney (até então a Rainha da Fossa) e a versão teve seu nome abrasileirado como Ronda das Horas...surgiu o Rock Brasileiro, The Tupinikin Rock & Roll... Oh yeah! Yeah! Yeah! (popularizado nos loucos anos 60 como iê iê iê).

O curioso é que Nora Ney e seus parceiros eram MPB pura... fossa e bossa nova... de seu grupo faziam parte Cyll Farney (baterista), Dick Farney (cantor), Johnny Alf (pianista), Tecla (cantora), Klecius Caldas (cantor) e o diretor cinematográfico Carlos Manga... todos amadores oriundos de programas radiofônicos tais como o Fantasia Musical (José Mauro - Rádio Tupi - 1951). Neste programa Nora Ney cantava músicas estrangeiras sob a alcunha de Nora May...

Outros programas importantes eram (não estranhem) Viva o Samba/Sequência G3 de Aracy de Almeida, Ritmos da Panair (direto da boite Midnight pela Rádio Nacional); o point no Rio era o Beco das Garrafas em Copacabana, as boites Kilt Club Drink e muitas outras, redutos da vanguarda, fossa, bossa nova, cinema novo (em 1955 Rio 40 Graus de Nelson Pereira dos Santos dava partida ao

Cinema Novo) se encontravam com o jazz o blues e o rock... o Rio de Janeiro era a capital cultural do país... em Sampa reinavam absolutas as boites Oasis e Arpege e a Radio Excelsior.

Por ironia quis o destino que Nora Ney fosse ser conhecida mundialmente por sua única incursão no mundo do rock com sua Ronda das Horas... sua carreira inteira foi dedicada a MPB... era a moça do samba que certa vez tentou cair no rock&roll.

Seu papel foi importantíssimo pois abriu os olhos da juventude ainda não transviada para jornais, revistas e programas de rádio que traziam os então reis do rock Chuck Berry (o "negro" imoral) Jerry "The Killer" Lee lewis (o pedófilo), Little Richard (o efeminado), Elvis "The Pelvis" Presley (o sexo personificado, o bad boy branco com cara de anjo) que com a cumplicidade do cinema e seus artistas malditos Marlon Brando e James Dean bombardeavam e moldavam toda uma geração.

A revista O Cruzeiro, a Revista do Rádio e as Seleções do Reader’s Digest mostravam o rock com sua crueza (guitarras berrando imorais, pianos ensandecidos sendo tocados com os pés, voz e pélvis em sintonia, saxofones ensandecidos, teatros arrasados pelas platéias dançantes) para uma nação estupefacta dividida entre adultos repressores e jovens loucos, ansiosos pela liberdade e igualdade e excitação que só o Rock&Roll proporciona... era a trilha sonora da década... talvez do século...

Em 1956 ao assumir a presidência JK (como veio a ser conhecido Juscelino Kubitschek, seu slogan era "50 anos em 5"), a urgência disto se fez notar: uma capital (Brasília) foi construída em 3 anos, a industria siderúrgica e automobilística nacional foi implantada, Luz Del Fuego inaugurava a primeira praia de nudismo brazuca e estreava o filme Rock Around The Clock (No Balanço das Horas) que além da música título emplacou Only You e See you Latter Alligator nas paradas de sucesso. Na sua esteira veio The Wild One (rebatizado como O Selvagem) protagonizado por Marlon Brando e Rebel Without a Cause (Juventude Transviada) com James Dean, Natalie Wood e Sal Mineo. Tempos confusos... de contrastes... DKW Vemag (motor dois tempos) primeiro carro 4 portas fabricado no Brasil e Volkswagen 1200 cc... sonhos apaixonados de jovens com as baladas de Nat King Cole dos Anos Dourados e sonhos rebeldes de gangues de motocicletas em seus tenis, t-shirts e casacos de couro... Transição, os terninhos, saias rodadas, meias de seda cedendo lugar a costeletas, topetes, jeans apertadinhos, tenis Conga, rabo de cavalo, goma de mascar Ping Pong.

O rock chegou de mansinho... mas chegou para ficar. Ninguém da mídia da época (existia isso?) havia apostado no gênero, com exceção de obscuros disk-jóckeis como excentricidade e curiosidade... ninguém acreditava que aquela música barulhenta pudesse ser de alguma importância no pop futuro... mas foi como um vírus, uma epidemia, assolou o país inteiro e de norte e a sul os ouvintes estavam pedindo Bill Halley, Elvis, Little Richard, The Killer, Ray Charles etc...

As gravadoras logo lançaram discos (ora, porque não aproveitar e faturara algum com aquele modismo como tinha sido com a rumba, o suingue ou o beguine).

Importante é lembrar que a velocidade do som com que as coisas se difundiam naquela época era muito diferente da atual velocidade da luz da Internet/redes Mundiais de Tv etc... tudo era muito lento...

Não existiam legítimos roqueiros brasileiros (vide Nora Ney a Rainha do Rádio e da fossa)... o casamento do gringo com o brasileiro era assimilado e reproduzido com nosso sotaque pelos músicos de então: Playings ou Titulares do Ritmo - músicos de jingles em ingles, Herve Cordovil - parceiro de Noel Rosa e Luiz Gonzaga, Miguel Gustavo - autor de marchinhas carnavalescas, Betinho e seu conjunto - que gravou em 1957 Enrolando o Rock de autoria dele e de Heitor Carillo, Mario Genari Filho e seu conjunto - do qual fazia parte Sergio Campelo, mais tarde conhecido por Tony Campello e Ron Coby - o "nosso" Cauby Peixoto foram os pioneiros. Ron Coby foi o nome com que Cauby assinou seu

primeiro álbum - LP - gravado nos EUA com a orquestrra de Paul Weston. O rock nacional começava a ganhar cantores brasileiros com nomes "americanos", roupas espalhafatosas e produzidas...

Ao contrário dos rebeldes sem causa que causavam furor nos EUA as nossas gravadoras procuravam rapazes de bem e garotas de família para formar o embrião do brasilian rock. Em termos de bom comportamento Neil Sedaka ganhava de 10 a 0 de Chuck Berry... era ele o modelo que a controlada e rebelde "pero no mucho" juventude daqui seguiria; em 1958 surgia a primeira leva legitimamente nacional moldada nesse estereótipo.

Tonny e Celly Campelo (originalmente batizados Sérgio e Célia Campello) lançaram seu primeiro disco, com suas versões/composições Forgive Me - Perdoa-me e Handsome Boy – Belo Rapaz. Estrearam na extinta TV TUPI de São Paulo e nos dois anos seguintes apresentaram o programa Celly e Tony Em HiFi também conhecido como Crush em HiFi na TV Record. Celly foi considerada a

rainha do Rock e Tony era o primeiro rei da primeira geraçào brazuca! Em 1959 participaram do célebre filme Jeca Tatu e em 1960 do Zé do Periquito de Mazzaroppi.

Em 1958 também se formaram os Golden Boys que tiveram participação expressiva na futura Joven Guarda...mas isto será objeto de outro papo...

Em 1959 a revolução cubana inspirou o batismo de um drink especial: a explosiva mistura de rum (cuba) com coca cola (eua) para competir com o célebre HIFI (High Fidelity - vodka com suco de laranja e depois crush).

Já no final da década de 50 os programas de rádio se alastravam por todo o país. Ritmos do Tio Sam, Midnight Serenade que divulgavam o som pop dos EUA passaram a dividir a audiência. Tudo em AM pois FM no Brasil só na década de 70. Na rádio Record em sampa existiam os programas de Julio Rosemberg, o Carrosel dos Bairros e o Disque Disco interativo por telefone com os ouvintes sob o comando de Miguel Vaccaro. Na Radio Nacional Antonio Aguillar mostrava novas gravções de Elvis Presley no programa Rítmos Para a Juventude. Na Tupi o saudoso e animal (no bom sentido) Carlos Imperial lançava artistas desconhecidos no programa Clube do Rock.. O DJ Sossego fazia entrevistas com os novos talentos roqueiros no programa 5a. Avenida na Rádio Panamericana, enquanto que na Rádio Mayrink Veiga no Rio, Jair de Taumaturgo apresentava Hoje é Dia de Rock.

O Brasil tinha voltado a ouvir rádio apesar do sucesso da TV...o rádio não era mais o único veículo de comunicação social de massa na época...a TV TUPI inaugurada em 1950 foi a primeira estação de Tv da América do Sul. Toda a revolução que seria detonada na década de 60, já era insinuada no slogan da nova midia: "Você já ouviu falar... Agora você vai ver televisão!..."

Vieram os primeiros programas da época dedicados exclusivamente ao gênero pop. Os Brotos Comandam apresentado por Carlos Imperial na TV Rio era a MTV da época.

Mais do que o cinema a televisão ajudou a fomentar a cultura roqueira. Acessórios indispensáveis, Lambrett (uma especie de vespa-scooter) ou Gullivette (uma espécie de mibilete), óculos escuros, cuba libre, camisetas gola canoa, maio mamãe-não-deixa (visto de trás parecia um biquini mas de frente era inteiriço) ou biquinis... A TV sempre foi o veículo que no Brasil ditou essas e outras modas.

A Rua Augusta em Sampa e o Castelinho no Rio viraram a brotolândia, no rock Sinfonia do Castelinho, Sérgio Murilo contava como as coisas rolavam por lá. Eram lugares em que todo mundo ia tomar sorvete, comprar discos e azarar. Mudaram os "points" mas os costumes permanecem felizmente até hoje.

Só não foi mais rápida a mudança porque a televisão, assim como o carro, eram objetos de consumo limitado às famílias mais abastadas... mas os demais aparelhos de conforto e modernidade já invadiam o Brasil do final dos anos 50 (barbeadores elétricos, aspiradores de pó, máquinas de lavar roupa) bem como os enlatados e outras facilidades tais como supermercados (1953 em Sampa e 1956 Rio)... o ditado popular da época era: "Se é bom para os EUA é bom para o brasil "... tudo era imitado... se eles tinham Elizabeth Taylor nós tinhamos Tonya Carrero... se Jerry Lewis fazia rir no american way nossos Oscarito e Mazzaroppi reinventavam as comédias nos Estúdios da Atlântida com suas memoráveis chanchadas, Grande Otelo era o nosso Sammy Davis Jr... assim era óbvio que o rock&roll surgisse aqui como a música pop dominante da década.

Mesmo para os americanos o rock era uma novidade, propunha um universo sonoro aberto para a vida real, com cheiro, cores, emoções ao contrário do que se fazia até então. Os artistas estabelecidos só ofereciam baladinhas melosas para os tempos de mudanças radicais que se anunciavam...

O rock and roll fazia a sua metamorfose do BLUES negro e da tradição dos spirituals e gospels evangélicos ao folk dos imigrantes e a country music com a nova tecnologia das guitarras... Era o grito ancestral, nervoso, urgente que levava para os grandes centros urbanos o antigo lamento que vinha dos primórdios, antes dos navios negreiros, da longinqua África... a mais que tudo transformava tal lamento, tal grito em DESEJO! Isso é papo para outro ensaio, já estou fugindo do básico outra vez...

Ainda no final da década ali por volta dos anos 57 surgia no rio de janeiro uma das primeiras bandas de rock genuinamente nacional. Era a Turma do Matoso, vidrada no som de Elvis, Chuck Berry e Little Richard, que se transformava em The Sputniks, cuja mutante formação comportava China, Arlênio Trindade, Tim Maia, Erasmo Carlos e Roberto Carlos.

Quem ensinou violão a Erasmo Esteves (nome de batismo de Erasmo Carlos) foi o síndico, Tim Maia...eram colegas de coleções de figurinhas e discos de roqueiros, que fizeram uma banda, que inicialmente foi denominada de Tijucanos do Rítmo... logo depois frequentando o Bar Snack (o bar dos lambretistas em Copacabana - novo point) resolveram mudar o nome do conjunto para The Snacks... logo passando para The Sputiniks... desde sua criação em 1958 até sua dissolução no final do mesmo ano o quinteto se apresentou em clubes da Tijuca e em vários programas. Um deles foi o Clube do Rock de Carlos Imperial, que então o comandava na TV Continental.

Verdade seja dita Carlos Eduardo Corte Imperial foi o descobridor e padrinho desses e de dezenas de outros artistas que estourariam na década seguinte (Renato e seus Blue Caps, Eduardo "O Bom" Araújo, Ronnie Von e muitos mais), os loucos anos 60. Compositor, jornalista, produtor de tv e cinema, cameraman, ator, foi responsável pelos quadros de rock do programa televisivo Meio Dia da TV Tupi, teve músicas gravadas por Roberto Carlos e comandou posteriormente os programas Festa de Brotos na TV Tupi e Os Brotos Comandam na TV

Continental e Rádio Guanabara (naquela época havia programas transmitidos simultaneamente pelo radio e pela televisào).

A carreira do cantor e compositor que seria porta voz da Jovem Guarda e um dos símbolos de toda uma geração começou no final do anos 50. Assim como Carlos Imperial, Roberto Carlos Braga era natural de Cachoeiro do Itapemirim e em 1957 apresentou-se pela primeira vez na televisão no programa Teletur da TV Tupi. Lá cantou Tutti Frutti de Little Richard e em 1958 foi apresentado por Otávio Terceiro, produtor do programa à Turma do Matoso. Em 1959, mesmo ano em que Sergio Murilo (nascido sergio Murilo Moreira Rosa) foi eleito o Rei do Rock, Roberto Carlos depois de uma frustrada incursão a bossa nova, era contratado por uma major, a Columbia e iniciava o seu caminho para seu trono como Rei do IÊ-IÊ-IÊ.

Outros destaques surgidos nessa década de 50 foram Sérgio Reis (nascido Sergio Bassini, sim, que mais tarde se tornaria ídolo "sertanejo"), Betinho e Seu Conjunto (com seu sucesso Enrolando o Rock, trilha do filme Absolutamente Certo), a música Calipso Rock (de Carlos Imperial, do filme De Vento Em Popa) e Itamar Borges e Seus Rockistas (na trilha do filme Dorinha Em Soçaite), The Jordans, dentre outros.

Pato Donald, Luluzinha e Bolinha, Romo Iseta, Cacareco, Sputinik, Marta Rocha, getúlio Vargas... nomes de um passado distante, um tempo embalado pelo Rock&Roll anos 50. Nas letras os anos 50 também não passaram em branco: em 1956, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, em

1958, Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado, e no teatro além de Dias Gomes grandes autores também despontavam, Ziembinski, Sérgio Cardoso, Cacilda Becker.

Quando os anos 50 terminaram o Brasil já tinha perdido muito de seu jeito inocente, apesar de ingressar na sociedade de consumo alavancado pelo surto de desenvolvimento, as desigualdades sociais começaram a aumentar vertiginosamente. Na música do fim dos anos 50 isso ainda não se refletia, mas nas demais artes (cinema, teatro, literatura) essa subversão de valores começou a trazer a tona temas mais concretos.

O palco pop do teatro de revista dava lugar a seriedade... em 1958 o Teatro de Arena montou a peça Eles Não Usam Black Tie de Gianfrancesco Guarnieri. No mesmo ano José Celso Marinez Correa era revelado pelo Grupo Oficina com a peça Vento Forte Para Um Papagaio Subir. Em 1960 o Teatro brasileiro de Comédia também mudaria o seu direcionamento, com a montagem da peça O Pagador de Promessas de Dias Gomes. O enfoque a partir de então não seria mais a pura diversão da década de 50, mas a consciência da realidade brasileira.

Os anos seguintes mostrariam isso em sua música, trazendo mudanças maiores, mais velozes e em direções diferentes, com reflexos profundos na música dos anos 60/70/80 e 90, quiça 2000....


Resumo feito por Andre Heavyman Morize com base em textos e pesquisas de José Júlio do Espírito Santo e Adriana Magalhães, Revista POP ROCK, Revistas O Cruzeiro, capas e contra capas de discos e jornais antigos.

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