Sobre um Folheto Evangélico

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Sobre um Folheto Evangélico


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"A necessidade pode fazer de todo homem um jornalista, mas não de toda mulher uma prostituta." - Karl Kraus

::: PROS'A BARATA

CRIATURAS
Luiz Carlos Cichetto

Trilha Sonora Incidental: "Black Sabbath"

"What is this that stands before me?
Figure in black that points at me.
Turn around quick and start to run.
Find out I'm the chosen one."

Que criatura é aquela, ali parada em minha frente? Trajada de uma espécie de terno marrom-avermelhado, olhando fixamente em algum ponto desconhecido ela trouxe a minha mente medos e lembranças que eu francamente não quero ter, neste momento. Uma criatura de idade indefinida, monstruosas pernas e um cheiro medonho. Sim, o cheiro! Medonho quanto aqueles pesadelos que tenho nas poucas noites em que consigo dormir.

Aquela criatura, ali parada, fedendo e olhando a algum ponto do infinito que apenas a antiguidade de seu ser consegue compreender. E eu, eu ali olhando aquela criatura fedorenta quanto escura. Escura quanto a noite sem sonhos, escura quanto um pesadelo que tenho em noites escuras e fedorentas.

- Oh, criatura monstruosa - grito em meu pensamento - por que não partes em direção ao infinito que miras, deixando sossegada minha alma, sobrecarregada de outros infinitos medos ? Por que não partes, carregando consigo o medonho fedor? Porque não parte, como partem todos aqueles que amo? Sim, criatura nojenta - torno a gritar dentro do pensamento - por que não partes do jeito que partem todos os meus sonhos? Porque permaneces ai parada, cutucando minha alma igual a um pesadelo?

Mas por mais que eu grite em meu pensamento, ela permanece ali, inerte, fitando o infinito com aqueles olhos escondidos , com aquela cabeça que carrega um cérebro que algum pensamento medonho e fedorendo naquele instante acomete.

"Big black shape with eyes of fire,
Telling people their desire,
Satan's sitting there, he's smiling,
Watches those flames get higher and higer."

- Oh, Senhor, ajude! é meu clamor. - Sem saber ao certo a qual senhor ele é dedicado. - Oh, Senhor, ajude! Carregue aquele nojento ser, fatalmente sua criação arrependida, a outros campos!

Tento, entretanto, em mórbida curiosidade, enxergar aquele rosto que é portado por um corpo deformado e rústico, mas meus olhos, não encontram outros olhos, certamente porque foram eles arrancados, - penso eu tentando explicar meu medo.

- "Oh, No No No! Please God, Help Me"

Aquela criatura, aquele ser, permanece ali parado, sem falar coisa alguma, sem emitir um som sequer.O único som presente naquele momento é o som desesperado dos batimentos do meu coração que bombeia furiosamente o sangue ao cérebro, que encharcado e bêbado, sente um pânico ainda maior. O sentimento de fugir, escapar daquela coisa é único. Então porque permaneço ali , grudado naquela cadeira fitando um ser que causa tanto desconforto em minha alma? Por que?

Tento argumentar com aquela criatura mas sem conceber ao certo que estranha língua teria eu que falar. A língua dos anjos, do espírito santo ou dos demônios. Imagino que pensamento torpes , medonhos e fedorentos pululam por aquela mente e tento ao menos, formular algum som que lhe seja familiar. Silêncio entretanto. Um silêncio de morte. Um silêncio tão absoluto que escuto o ranger dos meus ossos dentro das minhas carnes, o borbulhar do meu sangue nas artérias quase entupidas, o grito desesperado e insano do medo dentro do meu cérebro.

Ergo então meu corpo empapado de frio e mortal suor, daquela cadeira onde por horas inteiras marcadas por um matraqueado surdo do relógio ficou prostrado; caminho em direção daquela monstruosidade a passos decididos. E mister que eu a enfrente, que mire seus olhos escondidos, que sinta seu calor. Que a mate! Sim, preciso matar aquele ser monstruoso que insiste em colocar medo absoluto em meu coração, que insiste em trazer a minha mente lembranças mórbidas sobre a inconsistência e pequenez do meu ser; que insiste em plantar e minha alma uma dor aguda e penetrante quanto aqueles pesadelos noturnos que acometem nas poucas noites em que consigo dormir.

"Is this the end my friend?
Satan's come around the bend.
People running 'cause they're scared.
People better go and beware"

Caminho em sua direção e desfiro um único tapa, esmagando aquele ser monstruoso e nojento contra a parede. Uma gosma branca escorre e aquela monstruosa e fétida criatura agora é apenas uma monstruosa e fétida... barata morta!

10/04/2001


::: FAL'A BARATA

"ALÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ! TEREZINHA!!!!!!!!!
VAI PARA O INFERNO OU NÃO VAI??????"
Ou: Por Quem Repicam os "Sinos do Inferno"?

Luiz "Barata" Cichetto

Que é absurdamente impressionante o poder de manipulação da religião sobre a mente das pessoas, não é nenhuma novidade. Historicamente as religiões foram usadas para manipular as mentes de forma a aliená-las, fazer com que as pessoas aceitem o jogo de dominação como dominados, como cordeiros num matadouro. A igreja católica sempre foi aliada dos reis e alguns de seus papas o foram diretamente.

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Mas atualmente a coisa chegou a um limite mais que absurdo, chegou a um nível tal de sofisticação até mesmo tecnológica que aliena pessoas até com um certo nível cultural elevado. As dificuldades financeiras pelas quais o mundo atravessa, com falta de empregos e oportunidades, faz com que esses charlatões se aproveitem e manipulem ainda mais e mais pessoas. Arrastam multidões a seus cultos, compram veículos de comunicação, estão em todas as áreas, da política a empresarial. Trapaceiam, mentem e enganam as pessoas na maior cara de pau! E enriquecem mais e mais com isso.

Estabeleceram inúmeros alvos. Aliam Rock ao Diabo e elegem seu inimigo. Não bastasse o Rock ser freqüentemente associado com o uso de drogas, agora passaram a elegê-lo como "Parceiro do Diabo". Prendem, julgam e condenam, sem a menor possibilidade de defesa.

Um folheto distribuído nas ruas de São Paulo, impresso em lilás tem o título "Sinos do Inferno", fotos do AC/DC e de Bon Scott, além de, na capa a letra de "Hell's Bells". Dentro os autores, identificados como A. Wagner e G. Alberts, falam a respeito dessa música e usam frases como "O AC/DC repica os sinos para ele, - o Diabo -, para receber suas vítimas no inferno", "Agora ele sabe por experiência própria como é lá"... e outras. O texto segue, sempre falando que Bon Scott está no Inferno com o Diabo, insinua que todos os outros membros da banda também irão para lá e destila veneno tal qual uma serpente.

Mas o mais interessante é o final do folheto. Na última página tem o seguinte texto, em letras maiores que o restante: "Com base nesse artigo, recomendamos muito ler o capítulo '666 e música rock' no nosso novo livro 'O Controle Total - 666', que explica ainda mais o fundo dessa 'música' terrível. Mas vale: 'Se, pois, o filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres' (Jo 8.36)."

Ai cabem algumas observações:

1 - Os ditos cujos definem Rock como música entre aspas, dando a entender que Rock não é música.

2 - A citação bíblica no final fala em libertação... incoerência total, pois no restante do texto os autores fazem condenações e condenam por sua própria conta.

Não vou entrar aqui em discussões de natureza religiosa, não vou discutir conceitos como Deus e o Diabo, se o Céu é bom e o Inferno mau, essas coisas. Mas o circo de horrores criado por essas igrejas com o intuito de massificação chegou ao seu limite. Muitas delas ganham muita grana usando o Rock, criaram movimentos paralelos dentro do movimento Rock afim de atrair roqueiros e depois soltam uma porcaria dessas nas ruas.

O Diabo e o Inferno, sempre presentes em letras de Rock têm uma explicação lógica que apenas esses embotados mentais não enxergam. O Inferno e o Diabo são contrapontos á cultura religiosa imposta pelos pais, são parte de uma rebeldia juvenil onde a contestação e a auto-afimação são necessidades. Deus sempre foi sinônimo de Poder e os jovens o questionam.

A linguagem circense usada nesses cultos religiosos e principalmente em seus programas de pregação eletrônica se assemelha a programas de calouros. Ali, todos são incautos calouros, que se desafinam ou não cantam de acordo com sua orquestra são gongados (pelos sinos do inferno?). Bufões de terno, palhaços de bíblias na mão, domadores de leões (de judá?). Ridicularizam e humilham os já humilhados. E ganham muita grana com isso.

04/04/2003


::: POESI'A BARATA

BURRO COMO UM TIJOLO
Luiz "Barata" Cichetto

Sou uma alma praticamente nua coberta apenas de sonhos rasgados.
Entre o feijão e o sonho, fiquei com a barata.
As baratas saem dos esgotos em busca de restos de comida.
E eu como as baratas na hora do jantar à luz de velas.
Um dia Gregor Samsa acordou e percebeu que tinha se transformado em barata.
E eu um dia acordei e percebi que tinham me transformado em Gregor Samsa.
Porque qualquer metamorfose é dolorida.
Porque qualquer dor é dor quando é a minha dor. Sua dor não dói em mim.
E minha dor em você é apenas algo que não lhe dói, nem lhe cheira ou fede.
Mas o que fede é o cheiro de sua alma, não meus pés.
E meus pés estão descalços, mas sua alma tem roupas da moda, meu caro!
Caro amigo, muito caro é o seu sapato,
mas meus pés estão nus quanto minha alma.

Fragmentos de sabonete de um fabricante de sonhos enlouquecido.
Pancadas na cabeça, sopro no coração e um par de idéias.
Deus está mesmo morto ou apenas dormindo? Acorda!
Quero escutar estrelas, mas o barulho da cidade é grande.
Ou então estou surdo quanto um tijolo.
Pesado e burro quanto um tijolo.
E os sábios não conhecem o que é ser burro como um tijolo.
Inerte e inútil quanto o barro antes de ser tijolo.
Uma canção ao longe, pesada quanto metal, azul da cor do céu.
E meus sonhos ainda são os mesmos de meus pais.
As aparências é que enganam, não se engane com o contrário.
Uma borboleta pesada, de chumbo ou ferro fundido.
Um mendigo que olha garotas com más intenções, as delas.

Quem é a figura de preto olhando de dentro de um pesadelo?
Ou será que ela está nua na chuva e na escuridão?
Oh, Senhor, acorde! Acorde agora dessa inércia!
Minha insônia causa alucinação e minha alucinação causa insônia.
E suportar o dia a dia sem feijão nem sonhos é pesado.
Pesado quanto metal das músicas, o metal das algemas.
O precioso e preciso metal das alianças de casamento.
Pesado quanto o metal que soa nos sinos do Inferno.
Oh, minha doce e adorada criança da noite!
Quanta dor existe em seu pequenino e apertado coração!
Quanta dor? Quanta dor pode existir dentro de um coração!

Anjos augustos seguraram em minha mão e minhas carnes rangeram.
Porque os anjos são eunucos? Porque a carne é fraca e a alma idem?
Renda-se que suas balas acabaram, disse o caubói ao mendigo.
Mas minhas balas são de mel disse o mendigo ao sábio.
E ambos correram em busca do alvorecer de uma nova era.
Grite, grite, minha paixão! Grite que apenas o silencio te escuta.
Porque o silêncio é igual a mais bêbada das prostitutas.
E ela caminha pelas calçadas com seus sapatos gastos no salto.
Enquanto os jornais dão a notícia da morte de um cão por asfixia.
Sons, silêncios, música pesada quanto a morte.
Doce enquanto a bala de mel que o mendigo segura nos dentes quebrados.
E eu aqui sentado no banco de uma praça,
mas as praças não têm mais bancos.
Então estou sentado sobre a bunda da minha imaginação.

Será que foram aquelas cervejas que bebi ontem ou aquele cigarro do cão?
Telefone publico tocando. Deixe que eu atendo, que pode ser do céu.
Ah, desculpe foi engano. A linha está ocupada.
Meus dedos doem de discar e ninguém atende esse maldito telefone.
Mas os sábios não sabem o que é não conseguir telefonar.
E as companhias telefônicas não conhecem sábio algum.
E minha cabeça também dói e o último ônibus pra casa já partiu.
Quatro horas da manhã e a madrugada gelada quanto meu coração.
A vida passa rápido quanto aquele ônibus e me deixa pra trás.
E eu que não sou sábio nem tijolo, apenas burro como o barro.
Apenas canto uma antiga canção, quase uma cantiga de ninar
Enquanto escuto os gritos da grande puta
sendo assassinada a golpes de machado.

Caminhando e cantando e seguindo um triste refrão.
Sem rimas nem beira; nem pé nem sapato.
Aliás meus sapatos furaram e meus pés sentem a dor das pontas de cigarro.
Pare de fumar que o cigarro causa mal aos meus pés.
Acorda, Senhor! Acorda desse sonho eterno!
O sonho acabou e o filósofo está morto!
E se você quer saber como eu me sinto vá a um cemitério ou crematório.
Vá ver os mortos de Deus!

09/05/2001

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Sobre Luiz Carlos Barata Cichetto

Sou Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal, do ano da Graça do nascimento de Madonna, Michael Jackson, Bruce Dickinson, Cazuza e Tim Burton. Sou poeta, escritor, produtor e apresentador de Webradio, produtor de eventos e procuro pagar as contas trabalhando com criação de sites. Crescí escutando Beatles, Black Sabbath, Pink Floyd e Led Zeppelin. Participei da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos, deixei de ser poeta e fui tentar ser homem, o que no entender de Bukowiski é bem mais difícil. Escrevo poemas desde que comecei a criar pêlos.... nas mãos. Trabalhei como office-boy, bancário, projetista de brinquedos e analista de qualidade. No final do século XX, acordei certo dia de sonhos intranquilos e, transformado em um ser kafkiano, criei um projeto cultural na Internet nos moldes dos antigos panfletos mimeográficos. Mesmo antes de meu processo de metamorfose, nunca deixei de cometer poemas, contos e crônicas. E embora tenha passado dos três dígitos o numero de textos escritos, nunca ganhei um prêmio literário. Fui apaixonado por Varda de Perdidos no Espaço, Janis Joplin, Grace Slick e Sonja Kristina; casei quatro vezes e tenho dois filhos, Raul e Ian. Atualmente sou também editor, costureiro e colador de livros, num projeto de editora artesanal.

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