Hoje, 08 de Dezembro de 2004, o dia acabou no momento em que os olhos se abriram. Visitar as revistas de rock pelo mundo tornou-se um duro pesadelo. Não, ninguém estava a chorar os vinte e quatro anos da morte de John Lennon. Ao contrário, a fossa do passado reavivou-se na cena do fã que executa seu ídolo.



Mark Chapman, o monstro de cerca de duas décadas e meia atrás, ganhava nova forma e disposição na pessoa de Nathan Gale, jovem de vinte e cinco anos, ex-integrante da marinha norte-americana, que decidiu tentar outro papel na vida que não o de figurante. Ele subiu ao palco logo nos primeiros segundos da apresentação do Damageplan e derrubou um dos guitarristas mais influentes e saudados dos anos noventa com quatro ou cinco tiros a queima-roupa.
Detentor de um estilo distinto, de timbres fortíssimos, e harmônicos inimagináveis, Dimebag contribuiu para diferentes concepções acerca da música pesada, a maneira de tocá-la, e as suas possibilidades. Influenciou toda uma geração levando seus objetivos à extremidade da prática e constituindo, após uma fase hard rock inicial, um dos mais convincentes e brutais conjuntos de metal da história, o PanterA, ao lado de Rex Brown (baixo), Phil Anselmo (vocais), e de seu irmão Vinnie Paul (Vince Abbott - bateria).
Há cerca de um ano abandonou sua bem-sucedida investida devido a excessivo desgaste na relação do conjunto e, especialmente, sérios conflitos com o vocalista. Imediatamente, e em família, o esqueleto de um novo projeto surgia. Os Abbott criavam o New Found Power, posteriormente mudando de nome para Damageplan, e concretizando a formação com Bob Zilla (baixo) e Patrick Lachman (Diesel Machine – Halford).
Apesar de certo sucesso, o álbum de estréia, que levou o antigo nome proposto para o grupo, não rendeu o desejado. Vendeu pouco perto dos lançamentos anteriores em que se envolveram os irmãos e mostrou que havia muito o que melhorar e, o principal, que a sombra do PanterA não os deixaria.
Segundo alguns relatos de testemunhas, os motivos que levaram Gale ao crime tinham estreita conexão à separação e às subseqüentes brigas com o polêmico Phil Anselmo.
O assassinato de Dimebag Darrell, quaisquer sejam as razões, marca a ferro quente o corpo do rock. Destrói um grupo, despedaça sentimentos e faz-me perguntar durante horas: “o que esperar da raça humana? Algo mais?”
Quando um indivíduo sobe num palco para assassinar o artista que idolatra, perdemos a referência, o ponto de apoio. A coisa só piora e devemos seriamente nos questionar quem é o verdadeiro doente nisso tudo quando a dor da morte é praticamente ignorada pela maior rede de televisão de um país.
Além de reportagem evasiva, a Globo levou ao seu jornal de fim-de-noite um discurso calcado no famoso e dominante “falso moralismo”. A vítima virou responsável pela própria morte, pelo simples fato de existir e dedicar seu tempo a tocar um instrumento. A monstruosidade torna-se justificável no dizer popular de “violência gera violência”. Como se a agressividade da música dissesse da relação fãs-ídolos. Ora, Arnaldo Jabor & cia, há vinte e quatro anos atrás John Lennon sofria ataque similar “tocando a suave ‘Imagine’”, desejando um mundo melhor. Onde Mark Chapman, o assassino do eterno Beatle, haveria sido afetado por aquilo que você chama de “barulho”? Na pancadaria de dedos contra um teclado? Assim sendo, que tal imaginar os surtos que fãs de Wagner e Beethoven deveriam ter vendo então violinos debulhados por execuções maestrais de suas composições?
Tudo o que eu precisava neste momento era não saber. E é talvez este um dos grandes problemas deste “maravilhoso mundo”. Estamos cansados de saber. Informação, conhecimento, todos essas glórias de seres racionais que se comportam de maneira consideravelmente mais animal que a maioria das espécies que já exterminou ou ainda pretende findar.
Ser humano... este maldito “humano” que nos diferencia e faz com que imaginemos alguma superioridade em relação aos outros seres pela racionalidade, pelo simples pensar. De que vale isto frente a uma arma, dois aviões colidindo com prédios? Para que? Por quê?
Quanto mais tentamos explicar, mais criamos seres que primam por tentar alcançar a genialidade de outros em tempos passados, ou seja, batalham arduamente para se tornarem inexplicáveis. Esta é a maior semelhança entre Chapman, Gale, e esta quantidade de “maníacos” - como acostumamo-nos a chamar – por aí na atualidade. Neste sentido, aproximam-se, em seus próprios tempos, e por vias trágicas, das características de grandes gênios, incompreendidos e odiados por seus contemporâneos.
O que posso chamar de factualmente genial é, longe de toda essa racionalidade, a obra do alienado. Afinal, a coisa mais incompreensível é como alguém pode dissertar sobre um “mundo maravilhoso”. Louis Armstrong sim é um gênio delirante, absoluto. Que este mestre divida conosco, pobres hiperconscientizados pós-modernistas, a habilidade de se alienar, criando uma auto-proteção capaz de afastar-nos das terríveis realidades diárias, ou do simples fato de existirmos, ou como bem alerta a ambígua expressão, de “corrermos risco de vida” por estarmos simplesmente vivos.
Amanhã é outro dia, a ruína de sentimentos, o despedaçado ser (supostamente humano) deve responder à sua sociedade (supostamente racional), trabalhando, estudando, se relacionando, como se nada houvesse acontecido.
Não é com resigno, porém, que passo por esse dia. Além deste escrito, construí um pequeno memorial a Dimebag Darrell, com vários músicos amigos, convidados neste e em outros artigos que escrevi, expressando seus sentimentos sobre a tragédia de Columbus – http://www.imhotepzine.com/readers/no3.html. Vou embora ouvindo aquele que considero o melhor ao vivo de todos os tempos: “Official Live – 101 Proof” do PanterA. E tentando alcançar Louis Armstrong e esquecer, por instantes, as duras palavras de Ernest Becker em “A Negação da Morte”:
“O que devemos pensar de uma criação na qual a atividade rotineira consiste em organismos despedaçarem os outros com dentes de todos os tipos – mordendo, triturando a carne, e talos de plantas, e ossos entre os molares, empurrando avidamente a pasta goela abaixo, incorporando sua essência à própria organização e depois evacuando o resíduo com mau cheiro e gases? Cada um tentando incorporar outros que lhe sirvam de alimento. Os mosquitos inchando-se de sangue, os gusanos, as abelhas assassinas atacando com fúria e demonismo, tubarões continuando a estraçalhar e engolir enquanto suas próprias entranhas estão sendo arrancadas – para não falar na mutilação e no massacre diário em acidentes ‘naturais’ de todos os tipos: um terremoto enterra vivos setenta mil corpos no Peru, forma-se uma pirâmide de mais de cinqüenta mil carros velhos por ano só nos Estados Unidos, um maremoto leva mais de duzentas e cinqüenta mil pessoas no Oceano Índico. A criação é um aterrorizante e grandioso espetáculo que se passa num planeta que vem sendo ensopado, durante centenas de milhões de anos, no sangue de todas as suas criaturas. A conclusão mais equilibrada a que poderíamos chegar sobre o que realmente vem acontecendo no planeta há cerca de três bilhões de anos é que ele está sendo transformado numa imensa vala de adubo.”
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Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.
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